Albo examina as quatro demonstrações de Maimônides sobre a existência de D'us: a primeira (do movimento eterno) ele rejeita, pois apoia-se na eternidade do mundo que os crentes negam; a segunda é fraca, baseada numa premissa não provada; a terceira — do existente necessário versus o possível — é fortíssima, "sem refutação"; e a quarta concorda com a Torá.
1 Este princípio, que é a existência do Nome, tem sobre ele outras demonstrações especulativas que trouxe o Rambam, de abençoada memória, no princípio da Segunda Parte do Sefer HaMoreh; mencioná-las-ei em resumo, a fim de despertar a atenção do que medita sobre o justo dentre elas em distinção do não-justo. E a primeira demonstração delas que fez o Rav, de abençoada memória, é construída sobre a existência de um movimento eterno e contínuo, como estabelece o filósofo; e isto é do que não confessam todos os adeptos da religião divina que creem na criação chidush, e o sentido tampouco pode testemunhar sobre isto; e por isso não nos ocupamos de trazer aquela demonstração.
הָעִקָּר הַזֶּה יֵשׁ עָלָיו מוֹפְתִים אֲחֵרִים שֶׁהֵבִיא הָרַמְבַּ״ם בְּסֵפֶר הַמּוֹרֶה. וְהַמּוֹפֵת הָרִאשׁוֹן בָּנוּי עַל מְצִיאוּת תְּנוּעָה נִצְחִית, וְזֶה מִמַּה שֶּׁלֹּא יוֹדוּ אוֹתוֹ בַּעֲלֵי הַדָּת הַמַּאֲמִינִים בַּחִדּוּשׁ, וְלֹא הִתְעַסַּקְנוּ בּוֹ.
2 E a segunda demonstração que trouxe o Rav, de abençoada memória, é muito fraca, porque é construída sobre uma premissa que ele apresentou em nome de Aristóteles cuja verdade não se explicou. Disse a premissa: que, quando se acha uma coisa composta de duas coisas, e se acha uma delas por si mesma fora daquela coisa composta, decorreu por força a existência da outra também por si mesma fora daquela coisa composta; pois, se a sua existência obrigasse a que não se achassem senão juntas — como a matéria e a forma natural —, não se acharia uma delas sem a outra de modo algum; será, então, a existência de uma delas por si mesma indicação da ausência da tal obrigação, e eis que se achará a outra por força. E o exemplo nisto: quando se acha o oximel sekanguebin, xarope que é composto do vinagre e do mel, e se acha o mel sozinho, decorre por força a existência do vinagre sozinho.
3 E após esta premissa disse: nós achamos muitas coisas compostas de um motor e de um movido — quero dizer, que movem outro e são movidas por outro no tempo em que movem; e achamos um movido que não move de modo algum, e ele é o movido último; decorre por força que se ache um motor que não é movido de modo algum, e ele é o motor primeiro.
4 E esta demonstração é construída sobre aquela premissa que ele apresentou em nome de Aristóteles, e ela não é verdadeira; pois não é forçoso que, quando se acha uma coisa composta de duas coisas e se acha uma sozinha, se ache a outra sozinha. Pois já se acha o homem, que é composto de animal vivente e de ser falante, e acha-se o vivente sozinho sem o falante, e não se acha o falante sem o vivente — a não ser que digamos que o anjo é falante sozinho, quero dizer, intelecto em ato sem ser corpo nutrido e sensível, que é a definição do vivente. E, ainda que haja como responder sobre isto... a premissa fica em dúvida; e por isso o Rav não se apoiou nesta demonstração e trouxe outra, terceira, especulativa, forte, tal que é impossível divergir dela, conforme o que escreveu, de abençoada memória, ali.
וְהַמּוֹפֵת הַשֵּׁנִי חָלוּשׁ מְאֹד, בָּנוּי עַל הַקְדָּמָה בְּשֵׁם אֲרִיסְטוֹ שֶׁלֹּא נִתְבָּאֲרָה אֲמִתָּתָהּ: שֶׁכְּשֶׁיִּמָּצֵא דָּבָר מֻרְכָּב וְיִמָּצֵא אֶחָד לְבַדּוֹ, יִמָּצֵא הָאַחֵר לְבַדּוֹ. וְאֵינָהּ אֲמִתִּית, כִּי הָאָדָם מֻרְכָּב מֵחַי וּמְדַבֵּר, וְיִמָּצֵא הַחַי לְבַדּוֹ וְלֹא הַמְדַבֵּר לְבַדּוֹ.
5 Disse o Rav: os existentes — o assunto neles não escapa de três partes: ou que sejam todos não-gerados e não-corruptíveis, ou todos gerados e corruptíveis, ou alguns gerados e corruptíveis e alguns não-gerados e não-corruptíveis; e esta divisão é necessária exaustiva.
6 E é falso que sejam todos não-gerados e não-corruptíveis, pois alcançamos pelo sentido muitos existentes gerados e corruptíveis. E é falso que sejam todos gerados e corruptíveis, porque, se todo existente caísse sob a geração e a corrupção, seriam todos os existentes possíveis de existência, e caberia que se corrompessem todos, e não haveria ali quem os fizesse sair e forçasse a sua existência sobre a sua inexistência, e não se acharia, então, coisa alguma dos existentes, visto que não haveria ali quem os fizesse sair nem quem os mantivesse a fim de forçar a sua existência sobre a sua inexistência — e nós os vemos existentes; decorre por força que se ache um existente não-gerado e não-corruptível tal que não há possibilidade de corrupção nele de modo algum, e ele é o que força a existência das coisas geradas e corruptíveis sobre a sua inexistência, e ele é o existente necessário mechuyav hametziut e não o possível de existência. Pois este existente não escapa de ser necessário no exame de si mesmo ou no exame da sua causa; e, se é no exame de si mesmo, então ele é o D'us; e, se é no exame da sua causa, então a sua causa seria necessária de existência no exame de si mesma — e ela é o D'us, bendito seja —, e ele é o que faz existir todas as coisas geradas e corruptíveis, e sem ele não seria possível que se achasse coisa alguma; e ele não é gerado nem corruptível.
הַנִּמְצָאוֹת לֹא יִמָּלֵט מִשְּׁלֹשָׁה חֲלָקִים: כֻּלָּן בִּלְתִּי הֹוּוֹת, אוֹ כֻּלָּן הֹוּוֹת נִפְסָדוֹת, אוֹ קְצָתָם וּקְצָתָם. וְשֶׁקֶר שֶׁיִּהְיוּ כֻּלָּן הֹוּוֹת נִפְסָדוֹת, כִּי הָיוּ כֻּלָּם אֶפְשְׁרֵי הַמְּצִיאוּת וְרָאוּי שֶׁיִּפָּסְדוּ כֻּלָּם. יִתְחַיֵּב שֶׁיִּמָּצֵא מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת, וְהוּא הָאֱלוֹהַּ.
7 E esta demonstração é muito forte nesta investigação, pois explica-se dela a existência do Nome por uma divisão necessária, e não do lado de as coisas existentes precisarem de um agente, como a primeira demonstração que escrevemos; e por isso disse o Rav sobre ela que não há nela rejeição nem controvérsia, senão para quem não conhece os caminhos da demonstração. E disse ainda que disto decorre que não é corpo, pois já explicamos que o D'us é o necessário de existência no exame de si mesmo, e tudo o que é necessário de existência no exame de si mesmo não é corpo, porque todo corpo é composto de dois assuntos, e em todo composto a composição é causa da sua existência, e não será, então, necessário de existência por si mesmo, pois a sua existência está dependente da existência das suas partes e da sua composição; e por isso está claro que não é corpo nem força num corpo. E disto se explica facilmente que ele é um, pois é falso que se ache em dois a necessidade de existência em igualdade sem nenhuma composição, pois forçosamente haveria em cada um deles o assunto da necessidade de existência e um assunto pelo qual se distingue do outro, e seria, então, o necessário de existência composto de dois assuntos — e já explicamos que o necessário de existência é impossível que haja nele composição de modo algum. E explica-se também que não cai sob o tempo, por ser todo o que cai sob o tempo mutável, e todo mutável tem quem o mude, e o necessário de existência no exame de si mesmo não tem outra causa que o mude, nem é ele também quem muda e o mutável juntos, pois, se fosse assim, haveria nele dois assuntos, um assunto pelo qual muda e um assunto pelo qual é mudado, e seria composto. E explica-se também que é removido das deficiências, pois, se houvesse nele deficiência, precisaria de outro que preenchesse a sua deficiência, e não seria, então, necessário de existência por si mesmo, mas por outro.
וְזֶה הַמּוֹפֵת חָזָק מְאֹד, שֶׁיִּתְבָּאֵר מִמֶּנּוּ מְצִיאוּת הַשֵּׁם בַּחֲלוּקָה הֶכְרֵחִית. וְאָמַר הָרַב שֶׁאֵין בּוֹ דְּחִיָּה אֶלָּא לְמִי שֶׁלֹּא יָדַע דַּרְכֵי הַמּוֹפֵת. וּמִזֶּה יִתְחַיֵּב שֶׁאֵינוֹ גּוּף, וְשֶׁהוּא אֶחָד, וְשֶׁאֵינוֹ נוֹפֵל תַּחַת הַזְּמָן, וְשֶׁהוּא מְסֻלָּק מִן הַחֶסְרוֹנוֹת.
8 E esta demonstração terceira, ainda que seja verdadeira e cabível apoiar-se nela como escrevemos, contudo o Rav, de abençoada memória, trouxe uma quarta demonstração, que é a primeira demonstração que escrevemos no capítulo anterior a este, porque ela concorda com o que se mencionou na Torá na parashá de Bereshit; e por isso a escrevemos nós primeiro, por ser conforme a Torá torani e também concordante com a especulação; e achamos que se apoiou nela Ibn Rushd Averróis na quarta questão do Livro da Destruição da Destruição Tahafut al-Tahafut. E escrevemos depois dela esta segunda demonstração a do existente necessário, por ser especulativa, aquela em que se apoiou o Rambam, de abençoada memória, e disse sobre ela que não há nela rejeição nem controvérsia. E explicou-se, então, o princípio da existência do Nome por duas demonstrações verdadeiras.
וְהַמּוֹפֵת הַזֶּה אַף אִם הוּא אֲמִתִּי, הֵבִיא הָרַב מוֹפֵת רְבִיעִי שֶׁהוּא מַסְכִּים עִם הַתּוֹרָה, וְעַל כֵּן כְּתַבְנוּהוּ אֲנַחְנוּ רִאשׁוֹן. וְנִתְבָּאֵר עִקַּר מְצִיאוּת הַשֵּׁם בִּשְׁנֵי מוֹפְתִים אֲמִתִּיִּים.
Este capítulo revela o Albo crítico — não um mero compilador de Maimônides, mas um avaliador rigoroso. Ele percorre as quatro demonstrações do Guia (II, introdução) separando "o justo do não-justo". O critério é duplo: uma prova vale mais se não depender de premissas que a fé rejeita, e se for logicamente inatacável.
A primeira prova de Maimônides parte do "movimento eterno e contínuo" das esferas — uma premissa aristotélica que pressupõe a eternidade do mundo. Albo a descarta sem rodeios: os crentes na criação não a admitem, e o próprio sentido não pode atestá-la. Uma prova de D'us não deveria repousar sobre uma tese que contradiz a Torá.
A segunda prova depende de uma premissa atribuída a Aristóteles: se um composto (A+B) existe, e A existe isolado, então B também deve existir isolado (como mel e vinagre no oximel). Albo a refuta com um contraexemplo elegante: o homem é "vivente + falante"; o vivente existe isolado (os animais), mas o "falante" não existe isolado — a não ser que se diga que o anjo é "intelecto puro". A premissa, portanto, não é universal, e a prova que sobre ela se ergue é frágil. Pelo próprio reconhecimento de Maimônides, foi por isso que ele acrescentou uma terceira.
A demonstração forte é a famosa prova da contingência. Os existentes ou são todos eternos, ou todos corruptíveis, ou mistos. Nem todos eternos (vemos coisas perecerem). Nem todos corruptíveis (se tudo fosse "possível de existência", tudo já teria perecido, e nada existiria agora — mas as coisas existem). Logo deve haver um existente necessário (mechuyav hametziut) que sustenta os contingentes. Maimônides diz dela que "não tem refutação, exceto para quem ignora os caminhos da demonstração". E dela fluem, como no capítulo anterior, todas as raízes: incorporeidade, unidade, independência do tempo, ausência de deficiências. Albo conclui com equilíbrio característico: prefere apresentar primeiro a prova "conforme a Torá" (do potencial ao ato, ligada a Bereshit, usada também por Averróis), e depois a prova puramente racional do existente necessário — duas demonstrações verdadeiras, uma ancorada na revelação, outra na razão pura.