Sefer HaIkkarim · Maamar I · Capítulo 25

A lei divina: uma só ou muitas?

מַאֲמָר א, פֶּרֶק כה
Rabi Yosef Albo (séc. XV) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

A lei divina deve ser uma só para todos os homens ou pode haver muitas? Do lado do Doador, único, ela deveria ser una; mas, do lado dos receptores — cujos temperamentos e terras diferem —, pode variar nos pormenores. Por isso a Torá de Noé e a Torá de Moisés coexistiram, ambas divinas, conduzindo cada povo à felicidade — concordando nos princípios, diferindo nos particulares.

§ 1 · Deveria ser una — dos dois lados

1 E coisa que cabe investigarmos aqui é se a religião divina é forçoso que seja uma para todos os homens, ou muitas. E digamos que eis que parece que é forçoso que seja uma, e isto seja do lado do Doador, seja do lado do receptor. Do lado do Doador, pois, visto que o ordenador, que é o Nome, bendito seja, é um de todo lado, cabe que a ordenação que dele decorre seja una de todo lado, que ele, bendito seja, não tem uma relação diferente para com alguns homens em vez de alguns. E do lado do receptor, pois, visto que a espécie do homem é una na humanidade, eis que a ordenação que o encaminha à obtenção da sua perfeição humana cabe que seja una; e disto se vê que é cabido e forçoso na religião divina que seja uma para o conjunto dos homens.

וּמַה שֶּׁרָאוּי שֶׁנַּחְקֹר אִם הַדָּת הָאֱלֹהִית מְחֻיָּב שֶׁתִּהְיֶה אַחַת לְכָל הָאֲנָשִׁים אוֹ רַבּוֹת. מִצַּד הַנּוֹתֵן, אַחַר שֶׁהַשֵּׁם הוּא אֶחָד מִכָּל צַד, רָאוּי שֶׁיִּהְיֶה הַסִּדּוּר אֶחָד. וּמִצַּד הַמְקַבֵּל, אַחַר שֶׁמִּין הָאָדָם אֶחָד בָּאֱנוֹשׁוּת.

§ 2 · Mas os temperamentos diferem

2 Exceto que, quando isto se examina bem, achamos que, ainda que confessemos que seja forçoso do lado do Doador, não é forçoso do lado do receptor. Porque está claro que os temperamentos mizgei dos homens diferem uns dos outros — seja do lado da diferença dos temperamentos dos pais, seja de outros lados —, até que é impossível que dois homens concordem num mesmo temperamento e disposição, como escreveu Avicena Ibn Sina no primeiro modo do primeiro livro do Cânone Kanun; a ponto de a diferença já chegar a tal que sejam quase opostos nas suas qualidades, até que se acha um homem cruel ao extremo, tal que chega da sua crueldade a matar o menor dos seus filhos, e se acha outro homem no extremo da brandura do coração, tal que se apieda de matar um rato ou uma formiga.

אֶלָּא שֶׁכַּאֲשֶׁר יְעֻיַּן זֶה, אַף עַל פִּי שֶׁמְּחֻיָּב מִצַּד הַנּוֹתֵן, אֵינֶנּוּ מְחֻיָּב מִצַּד הַמְקַבֵּל. כִּי מִזְגֵי הָאֲנָשִׁים מִתְחַלְּפִים, כְּמוֹ שֶׁכָּתַב אִבְּן סִינָא, עַד שֶׁיִּמָּצֵא אִישׁ אַכְזָרִי בְּתַכְלִית, וְאִישׁ אַחֵר בְּתַכְלִית רַכּוּת הַלֵּב.

§ 3 · As terras diferem; a variação está nos particulares

3 E os homens diferem nisto também do lado da diferença dos lugares das suas habitações, pois as naturezas das terras diferem nas variações dos ares e dos montes e das águas e no que se lhe assemelha — até que achas uma terra cujos frutos são grossos e duros na sua natureza, e isto do lado de que o ar em que crescem não é límpido e puro, e achas outra terra cujos frutos são não agradáveis ou não sãos, do lado de que as águas sobre as quais crescem não são boas; e os seres vivos que se nutrem da quantidade destes frutos, forçosamente o seu temperamento se assemelhará ao alimento de que se nutrem; e outra terra cujos frutos se acham no oposto, e os seres vivos que deles se nutrem terão o seu temperamento oposto aos homens da outra terra. E deste lado se acham homens numa cidade ou numa região mais argutos e mais perspicazes que os homens de outra terra; e decorre disto que difiram os gêneros das convenções entre estas duas terras, pela diferença dos temperamentos dos que habitam nelas, e que cada uma delas precise de uma convenção diferente da convenção da outra num mesmo tempo. Exceto que, visto que esta variação é forçosa do lado do receptor e não do lado do Doador, cabe que a variação esteja nas coisas que são do lado dos receptores — e isto se dá nos pormenores das determinações e das convenções que entre os homens conforme a diferença das terras, no conveniente e no torpe, pois já será o conveniente junto a alguns torpe junto a alguns; mas nos princípios universais e nas raízes que se ramificam deles — que tudo isto é do lado das coisas que pendem do Doador —, é impossível que se represente nisto variação alguma.

וְיִתְחַלְּפוּ הָאֲנָשִׁים מִצַּד הִתְחַלְּפוּת מְקוֹמוֹתֵיהֶם, כִּי טִבְעֵי הָאֲרָצוֹת מִתְחַלְּפוֹת. וְרָאוּי שֶׁיִּהְיֶה הַשִּׁנּוּי בַּדְּבָרִים אֲשֶׁר מִצַּד הַמְקַבְּלִים, וְזֶה בִּפְרָטֵי הַהַנָּחוֹת. אֲבָל בָּעִקָּרִים הַכּוֹלְלִים וְהַשָּׁרָשִׁים, אִי אֶפְשָׁר שֶׁיְּצֻיַּר שׁוּם חִלּוּף.

§ 4 · Noé e Moisés: duas leis divinas no mesmo tempo

4 E por isso achas que a Torá dos filhos de Noé e a Torá de Moisés, embora se dividam em assuntos particulares, como virá, eis que concordam nos assuntos universais que são do lado do Doador; e ambas se acharam num mesmo tempo, pois até no tempo em que se achava a Torá de Moisés para Israel, achava-se a Torá dos filhos de Noé para o conjunto das nações, e diferiam conforme a diferença das terras — quer dizer, a terra de Israel diferente do exterior da terra — e também conforme a diferença das nações uma da outra do lado dos pais. E não há dúvida de que as nações chegavam, por meio da Torá dos filhos de Noé — visto que é divina —, à felicidade humana, ainda que não estivesse no grau da felicidade alcançada a Israel do lado da sua Torá; disseram os nossos mestres, de abençoada memória, "os piedosos das nações do mundo têm parte no mundo vindouro".

וְלָזֶה תִּמְצָא שֶׁתּוֹרַת בְּנֵי נֹחַ וְתוֹרַת מֹשֶׁה, עִם שֶׁהֵם חוֹלְקוֹת בְּעִנְיָנִים פְּרָטִיִּים, הֵם מַסְכִּימוֹת בָּעִנְיָנִים הַכּוֹלְלִים, וּשְׁתֵּיהֶן נִמְצְאוּ בִּזְמָן אֶחָד. ״חֲסִידֵי אֻמּוֹת הָעוֹלָם יֵשׁ לָהֶם חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא״.

§ 5 · Duas leis divinas — mas nunca divergindo nos princípios

5 E isto é o que indica que é possível que se achem duas Torás divinas num mesmo tempo para nações diferentes, e que cada uma delas faça chegar os que se conduzem por ela à felicidade humana, ainda que difiram no grau da felicidade alcançada do lado das duas Torás. E esta diferença nas Torás é impossível que venha nos princípios nem nas raízes que se ramificam deles; e por isso o exame que é para a Torá do lado de si mesma permanece sempre sobre um mesmo estado. Porém o exame que é do lado do enviado, é possível que recaia nele alguma variação; e de todo modo é preciso que a confirmação seja uma confirmação essencial, ainda que difira a confirmação de uma religião da confirmação da outra religião. E, na verdade, se é possível que se mude a única religião em si mesma, sendo ela divina, para um mesmo povo e numa mesma terra, isto é do que investigaremos no Maamar III, com a ajuda de D'us, bendito seja.

וְזֶה מַה שֶּׁיּוֹרֶה שֶׁאֶפְשָׁר שֶׁיִּמָּצְאוּ שְׁתֵּי תוֹרוֹת אֱלֹהִיּוֹת בִּזְמָן אֶחָד לְאֻמּוֹת מִתְחַלְּפוֹת, וְכָל אַחַת מַגַּעַת אֶל הַהַצְלָחָה. וְהַהִתְחַלְּפוּת אִי אֶפְשָׁר שֶׁיָּבֹא בָּעִקָּרִים וְלֹא בַּשָּׁרָשִׁים. אִם אֶפְשָׁר שֶׁתִּשְׁתַּנֶּה הַדָּת בְּעַצְמָהּ, זֶה נַחְקֹר בְּמַאֲמָר הַג׳.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

Uno na fonte, plural na recepção

Albo enfrenta uma questão de surpreendente atualidade: a religião verdadeira tem de ser uma só para toda a humanidade? À primeira vista, sim — pois D'us é um (logo a lei que dele emana deveria ser una) e a humanidade é uma espécie (logo o caminho à sua perfeição deveria ser único). Mas Albo distingue: o argumento vale "do lado do Doador", não "do lado do receptor".

A antropologia da diferença

Os homens não são uniformes. Citando o Cânone de Avicena, Albo afirma que não há dois homens com o mesmo temperamento — alguns são cruéis a ponto de matar o próprio filho, outros tão brandos que se apiedam de uma formiga. E as terras também diferem: o ar, as águas, os frutos moldam o caráter dos povos, tornando uns mais argutos, outros mais lentos. Por isso povos diferentes precisam de convenções diferentes nos pormenores — o que é "conveniente" para um pode ser "torpe" para outro.

Onde a variação é lícita

A chave do capítulo é uma linha divisória precisa: a variação é legítima apenas nas coisas que vêm "do lado dos receptores" — os pormenores legais, adaptados a temperamentos e terras. Mas nos princípios universais e suas raízes — que vêm "do lado do Doador" — nenhuma variação é concebível. A unidade de D'us garante a unidade dos fundamentos; a diversidade humana explica a diversidade dos detalhes.

O pluralismo medido de Albo

A consequência é notável e generosa: duas leis divinas podem coexistir no mesmo tempo. A Torá de Noé (para as nações) e a Torá de Moisés (para Israel) vigoraram simultaneamente, ambas divinas, ambas conduzindo à felicidade — "os piedosos das nações têm parte no mundo vindouro" —, ainda que em graus distintos. É um pluralismo cuidadosamente delimitado: as religiões podem diferir no enviado e nos pormenores, jamais nos princípios-raiz. A pergunta seguinte — se uma mesma lei divina pode ser depois substituída (a alegação cristã e islâmica sobre a Torá) — Albo reserva para o Maamar III, fechando assim a investigação dos fundamentos.