Crer nos três princípios não basta: é preciso crer também nas raízes (shorashim) que deles derivam. Quem nega uma raiz é como quem nega o próprio princípio do qual ela se ramifica — pois a unidade e a incorporeidade pendem da existência de D'us, a profecia da Torá do Céu, e a providência da recompensa e do castigo.
1 Não é que toda religião que sustenta estes três princípios que mencionamos — que são a existência de D'us, e a recompensa e o castigo, e a Torá vinda do Céu, que são princípios universais à religião divina, como dissemos — seja divina em todo caso, de modo que aquele que crê nela se chame crente numa Torá divina e tenha parte no mundo vindouro. Pois não é assim a coisa; antes o fundamento do assunto é que estes três princípios são princípios universais a uma religião divina, tais que todo o que nega um deles sai do conjunto dos adeptos da religião divina e não tem parte no mundo vindouro, por não confessar uma Torá divina como cabe; mas o que os confessa ainda não tem parte no mundo vindouro até que confesse a eles e às raízes que deles pendem e que deles se ramificam; e todo o que nega uma das raízes é como quem nega o princípio do qual aquela raiz se ramifica.
אֵין כָּל דָּת שֶׁמַּחֲזֶקֶת בִּשְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים הַלָּלוּ הִיא אֱלֹהִית עַל כָּל פָּנִים, אֲבָל עִקַּר הָעִנְיָן הוּא כִּי שְׁלֹשֶׁת הָעִקָּרִים הֵם עִקָּרִים כּוֹלְלִים, שֶׁכָּל הַכּוֹפֵר בְּאֶחָד מֵהֶן יוֹצֵא מִכְּלַל בַּעֲלֵי הַדָּת. וְאוּלָם הַמּוֹדֶה בָּהֶם, עֲדַיִן אֵין לוֹ חֵלֶק לָעוֹלָם הַבָּא עַד שֶׁיּוֹדֶה בָּהֶם וּבַשָּׁרָשִׁים הַנִּתְלִים בָּהֶם, וְכָל הַכּוֹפֵר בְּאֶחָד מִן הַשָּׁרָשִׁים כְּאִלּוּ כּוֹפֵר בָּעִקָּר.
2 Pois o que crê no primeiro princípio, que é a existência de D'us, precisa também crer que ele é um e que não é corpo nem força num corpo, e semelhantes a estes, que são raízes que saem deste princípio ou que dele pendem. E assim quem crê na Torá vinda do Céu, que é o segundo princípio, precisa crer na existência da profecia e na missão do enviado. E o que crê no terceiro princípio, que é a recompensa e o castigo, precisa crer no conhecimento do Nome e na sua providência, e que há ali recompensa e castigo, seja da alma, seja corporal. E todo o que negar uma destas raízes que se ramificam dos princípios ou que deles pendem, é como quem nega o próprio princípio.
כִּי הַמַּאֲמִין בָּעִקָּר הָרִאשׁוֹן שֶׁהוּא מְצִיאוּת הַשֵּׁם צָרִיךְ שֶׁיַּאֲמִין שֶׁהוּא אֶחָד וְשֶׁאֵינוֹ גּוּף. וְכֵן מִי שֶׁיַּאֲמִין תּוֹרָה מִן הַשָּׁמַיִם צָרִיךְ שֶׁיַּאֲמִין מְצִיאוּת הַנְּבוּאָה וּשְׁלִיחוּת הַשָּׁלִיחַ. וְהַמַּאֲמִין בַּשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ צָרִיךְ שֶׁיַּאֲמִין בִּידִיעַת ה׳ וְהַשְׁגָּחָתוֹ.
3 Pois, assim como quem nega a existência da profecia — que é uma raiz da Torá vinda do Céu — ou a missão do enviado por cuja mão ela foi dada, eis que é como quem nega o princípio da Torá vinda do Céu, assim quem crê que o Nome, bendito seja, é corpo, eis que é como quem nega o princípio que é a existência de D'us. Porque a sua crença na existência de D'us consiste em crer que há ali um existente necessário mechuyav hametziut, que faz existir todos os existentes, e que todos são influenciados a partir dele e precisam dele, e ele não precisa de coisa alguma fora dele; e, se o existente necessário fosse corpóreo, precisaria de outro, pois todo corpo é composto — como explicou o Rav, o Guia, na introdução 22 — e todo composto precisa de um compositor e de um agente que faça necessária a junção das suas partes; e não seria, então, existente necessário por si mesmo, mas por outro; e não se bastaria a si mesmo, mas precisaria de outro; e aquele outro, então, seria maior que ele e o seu agente; e não seria, então, existente necessário por si mesmo, mas por outro; e quem tem a sua existência dependente de outro é possível de existência efshari hametziut. E por isso é forçoso que quem diz que o Nome, bendito seja, é corpo ou força num corpo é como quem nega o princípio da existência de D'us — como se explicará isto com uma explicação completa no Maamar II, com a ajuda do Nome.
כִּי מִי שֶׁיַּחְשֹׁב שֶׁהַשֵּׁם גּוּף, כְּאִלּוּ כּוֹפֵר בְּעִקַּר מְצִיאוּת הַשֵּׁם, לְפִי שֶׁהַאֲמָנָתוֹ הִיא שֶׁיֵּשׁ נִמְצָא מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת מַמְצִיא כָּל הַנִּמְצָאִים. וְאִם הָיָה גֶּשֶׁם הָיָה מֻרְכָּב, וְכָל מֻרְכָּב צָרִיךְ אֶל מַרְכִּיב, וְלֹא יִהְיֶה אִם כֵּן מְחֻיַּב הַמְּצִיאוּת בְּעַצְמוֹ אֶלָּא בְּזוּלָתוֹ.
4 E assim quem nega a providência ou o conhecimento do Nome, ou quem diz que todas as coisas são por um decreto chamado em árabe al-qadā wa-l-qadar o fado e o destino, eis que é quem nega o princípio da recompensa e do castigo, ou quem atribui a D'us iniquidade e maldade, a saber que castiga o pecador sem haver violência nas suas mãos, visto que não estava em sua mão fazer o oposto do que fez — longe esteja de D'us a maldade, e do Todo-Poderoso a iniquidade (Jó 34:10). E assim, em todas as raízes que saem dos princípios, o que nega uma delas é como quem nega o princípio. E compreende isto muito bem, pois ele é o caminho da prova mivchan pelo qual cabe que se examinem todas as raízes que saem dos princípios com um exame verdadeiro no qual não há ignorância nem erro; e então o crente as confessará com uma confissão completa, e só então se chamará crente e confessante nos três princípios que mencionamos.
וְכֵן הַכּוֹפֵר בְּהַשְׁגָּחָה אוֹ בִּידִיעַת הַשֵּׁם, אוֹ שֶׁיֹּאמַר כִּי כָּל הַדְּבָרִים הֵם בִּגְזֵרָה, הִנֵּה הוּא כּוֹפֵר בְּעִקַּר הַשָּׂכָר וְהָעֹנֶשׁ, אוֹ מְיַחֵס לָאֵל עָוֶל, ״חָלִילָה לָאֵל מֵרֶשַׁע וְשַׁדַּי מֵעָוֶל״. וְהָבֵן זֶה מְאֹד, כִּי הוּא דֶּרֶךְ הַמִּבְחָן בְּמַה שֶּׁרָאוּי שֶׁיִּבָּחֲנוּ כָּל הַשָּׁרָשִׁים הַיּוֹצְאִים מִן הָעִקָּרִים.
Albo previne um mal-entendido: o seu esquema enxuto de "apenas três princípios" não significa que se possa crer vagamente neles ignorando tudo o mais. Cada um dos três princípios-raiz (ikkarim) carrega consigo raízes secundárias (shorashim) que dele derivam necessariamente — e negar uma destas equivale a negar o próprio princípio. A economia do sistema está na hierarquia, não na permissividade.
O capítulo traça o mapa: da existência de D'us derivam a unidade e a incorporeidade; da Torá do Céu, a profecia e a missão do profeta; da recompensa e castigo, o conhecimento divino e a providência. Quem nega a profecia nega, na prática, a Torá do Céu; quem nega a providência nega a retribuição. As crenças que Albo recusou chamar de "princípios" (cap. 3) reaparecem aqui — não rebaixadas, mas reposicionadas como raízes obrigatórias.
O argumento mais técnico mostra por que crer que D'us tem corpo equivale a negar a sua existência. Crer em D'us é crer num "existente necessário" (mechuyav hametziut) — auto-suficiente, do qual tudo depende. Mas todo corpo é composto, e todo composto precisa de um compositor que una suas partes — logo dependeria de outro, deixando de ser necessário e tornando-se "possível de existência". Assim, atribuir corpo a D'us destrói o próprio conceito de D'us. Albo apresenta este capítulo como a "pedra de toque" (mivchan) — o critério rigoroso pelo qual cada raiz deve ser examinada antes que o crente possa dizer-se verdadeiro confessante dos três princípios.