Se a providência divina cuida até das menores necessidades dos animais inferiores — coisas que nem sequer lhes são indispensáveis —, com mais razão proverá a perfeição da espécie mais nobre, o homem. Daí ser necessário um influxo divino sobre um homem escolhido, que se torna instrumento para conduzir toda a espécie à sua finalidade: essa orientação é a Torá divina.
1 Quando observamos a formação dos seres vivos e a perfeição de todos os seus membros, achamos que o Criador velou na sua formação com uma providência admirável, a fim de consertar os seus assuntos e todos os pormenores das suas necessidades com um conserto admirável — não só o que lhes é necessário para a permanência da espécie ou do indivíduo apenas, mas também o que não lhes é necessário nem para a permanência da espécie nem para a permanência do indivíduo, mas se acha neles do lado do que é melhor; como a duplicação dos sentidos que se acha nos seres vivos, a fim de que os seus assuntos se ordenem de modo mais conveniente e mais perfeito, ainda que não lhes seja necessária para o conserto da sua vida.
כַּאֲשֶׁר עִיַּנּוּ בִּיצִירַת הַבַּעֲלֵי חַיִּים וּשְׁלֵמוּת כָּל אֵבָרֵיהֶם, מָצָאנוּ שֶׁהִשְׁגִּיחַ הַבּוֹרֵא בִּיצִירָתָם הַשְׁגָּחָה נִפְלָאָה לְתַקֵּן עִנְיְנֵיהֶם, לֹא מַה שֶּׁהוּא הֶכְרֵחִי לָהֶם לְקִיּוּם הַמִּין בִּלְבַד, אֲבָל גַּם מַה שֶּׁאֵינוֹ הֶכְרֵחִי אֶלָּא שֶׁנִּמְצָא לָהֶם עַל צַד הַיּוֹתֵר טוֹב, כְּמוֹ כְּפִילַת הַחוּשִׁים הַנִּמְצָא בְּבַעֲלֵי חַיִּים.
2 E, se se acha esta providência nos seres vivos inferiores, com muito mais razão cabe que Ele vele sobre a espécie mais nobre que eles, a fim de consertar o seu assunto conforme a perfeição da sua espécie, de modo que se ordenem todos os seus assuntos com uma ordenação suficiente para a obtenção da sua perfeição. E quem aprimorar a observação nisto achará que a presença de um influxo divino shefa elohi, por cujo meio se consertem os assuntos necessários ao conserto da espécie do homem para a obtenção da sua perfeição e da sua finalidade, é mais necessária que muitas coisas que se acham na formação dos seres vivos que não se acham neles senão do lado do que é melhor apenas, e tais que eles poderiam subsistir sem elas. E este influxo divino, ainda que não se ache senão num indivíduo particular, eis que ele segue o curso da perfeição para a espécie do homem.
וְאִם נִמְצָא הַהַשְׁגָּחָה הַזֹּאת בְּבַעֲלֵי חַיִּים הַפְּחוּתִים, כָּל שֶׁכֵּן שֶׁרָאוּי שֶׁיַּשְׁגִּיחַ בַּמִּין הַיּוֹתֵר נִכְבָּד מֵהֶם. וּמִי שֶׁיֵּיטִיב הָעִיּוּן יִמְצָא כִּי הִמָּצֵא שֶׁפַע אֱלֹהִי שֶׁבְּאֶמְצָעוּתוֹ יִתֻּקְּנוּ הָעִנְיָנִים הַמִּצְטָרְכִים לְמִין הָאָדָם לְהַשָּׂגַת שְׁלֵמוּתוֹ, הוּא יוֹתֵר הֶכְרֵחִי מִכַּמָּה דְבָרִים שֶׁנִּמְצְאוּ בִּיצִירַת הַבַּעֲלֵי חַיִּים עַל צַד הַיּוֹתֵר טוֹב בִּלְבַד.
3 E isto é assim porque, ainda que as espécies que estão sob os gêneros não sigam todas o curso da perfeição umas para as outras — quer dizer, ainda que se ache entre as espécies uma espécie particular que é a mais perfeita de todas, não é aquela espécie sozinha a perfeição e a finalidade daquele gênero, nem encaminha aquele gênero à finalidade da sua perfeição, pois em cada espécie em si mesma há uma finalidade e uma perfeição particular àquela espécie diferente das outras —, de todo modo, em cada espécie, ainda que se achem nela classes diferentes, uma mais nobre que a outra (como se dissesses que a classe dos chefes é mais perfeita, na perfeição humana, que a classe dos lavradores, e a classe dos sábios é mais perfeita que a classe dos chefes, e assim deste modo), em cada classe haverá um homem ou homens mais perfeitos que os outros daquela classe; e não é aquele homem, ou aqueles homens, ou aquela classe sozinha a finalidade da existência daquela espécie — antes aquele homem, ou aqueles homens, ou aquela classe são a causa de a finalidade daquela espécie se alcançar, do lado de seguirem o curso da perfeição para toda a espécie; quero dizer que são como um instrumento keli para fazer a espécie alcançar a sua finalidade e a sua perfeição, a perfeição igual em toda a espécie, ainda que haja nisto graus diferentes de uns para outros.
וְזֶה כִּי בְּכָל מִין וָמִין, אַף עַל פִּי שֶׁיִּמָּצְאוּ בּוֹ כִּתּוֹת מִתְחַלְּפוֹת הָאַחַת יוֹתֵר נִכְבֶּדֶת מִן הָאַחֶרֶת, יִהְיֶה בָּהּ אִישׁ אוֹ אֲנָשִׁים יוֹתֵר שְׁלֵמִים מִזּוּלָתָם, וְאֵין הָאִישׁ הַהוּא לְבַדּוֹ תַּכְלִית הַמְצֵא הַמִּין, אֲבָל הוּא סִבַּת הַגָּעַת תַּכְלִית הַמִּין מִצַּד שֶׁהוּא הוֹלֵךְ מַהֲלַךְ הַשְּׁלֵמוּת לְכָל הַמִּין, כְּמוֹ כְּלִי לְהַגִּיעַ הַמִּין אֶל תַּכְלִיתוֹ.
4 E isto é assim porque, assim como em cada indivíduo há nele muitos membros diferentes, todos necessários à permanência do ser vivo, e mesmo assim um é mais perfeito que o outro, e o outro que o outro, até que já se ache nele um membro que é o fundamento da permanência do ser vivo, e, com tudo isto, ele segue o curso da perfeição para o ser vivo — quero dizer que é um instrumento para fazer a perfeição da vida chegar ao ser vivo em geral, como se dissesses que o coração é o fundamento da permanência do ser vivo, e ele é um instrumento para fazer a vida chegar a todos os membros em geral e ao cérebro em particular, a fim de que, por meio da vida que chega do coração ao cérebro, chegue do cérebro a sensação e o movimento a todos os membros, e se complete com isto a permanência do vivente, com o que lhes chega do coração, seja por intermédio de outro, seja sem intermédio —, assim os homens, embora sejam todos iguais na humanidade, chega a alguns deles a perfeição humana por meio de alguns outros. Pois, assim como todos os membros são necessários à permanência do indivíduo, e mesmo assim alguns deles têm grau de chefia sobre os outros e a alguns chega a vida por meio de outros, assim deste modo a classe dos sábios tem grau de chefia sobre o resto, e chega do sábio aos homens uma ordenação que conserta o seu assunto para alcançar a perfeição humana; e a esta ordenação se chama convenção nimus.
וְזֶה, כְּמוֹ שֶׁבְּכָל אִישׁ יֵשׁ בּוֹ אֵבָרִים רַבִּים, וְיֵשׁ אֵבָר אֶחָד שֶׁהוּא עִקַּר קִיּוּם הַבַּעַל חַי, כְּאִלּוּ תֹּאמַר שֶׁהַלֵּב הוּא עִקַּר קִיּוּם הַבַּעַל חַי וְהוּא כְּלִי לְהַגִּיעַ הַחַיּוּת אֶל כָּל הָאֵבָרִים, כֵּן הָאֲנָשִׁים, עִם הֱיוֹתָם כֻּלָּם שָׁוִים בָּאֱנוֹשׁוּת, יַגִּיעַ לְקְצָתָם הַשְּׁלֵמוּת הָאֱנוֹשִׁי בְּאֶמְצָעוּת קְצָתָם, וְיֵשׁ לְכַת הַחֲכָמִים מַדְרֵגַת רֹאשִׁיּוּת, וְיַגִּיעַ מֵהֶחָכָם סִדּוּר מְתַקֵּן עִנְיָנָם, יִקָּרֵא הַסִּדּוּר הַזֶּה נִימוּס.
5 E conforme o que dissemos — que cabe à providência divina velar para fazer este proveito chegar à espécie do homem, assim como achamos que vela nos assuntos de pequeno valor que se acham no ser vivo —, eis que é forçoso que se derrame um influxo divino sobre algum homem da espécie humana, o mais preparado para isto, a fim de que seja um instrumento para fazer os homens chegarem à perfeição da sua finalidade: seja por sua mão, estando ele em vida, seja por intermédio de outro depois da sua morte — e isto pela mão dos sábios que o seguem, a fim de guiar os homens por meio do que receberam dele, ou do que compreenderam dos seus discursos que se acham nos seus livros, em todo tempo e em todo lugar. Pois não cabe que a mão do poder divino se encurte a ponto de medir escassamente este proveito que é necessário à espécie do homem, e de aperfeiçoá-la em todo tempo e em todo lugar — assim como não se encurta no aperfeiçoamento do proveito necessário aos seres vivos inferiores em todo lugar e em todo tempo. E a orientação que chega aos homens pela mão deste homem é a que se chama Torá divina Torá elohit; e o seu grau está em relação às demais Torás e convenções como o grau da arte suprema melachá rashit em relação às demais artes que a servem.
וּלְפִי מַה שֶּׁאָמַרְנוּ, הִנֵּה הוּא מְחֻיָּב שֶׁיֻּשְׁפַּע שֶׁפַע אֱלֹהִי עַל אֵיזֶה אִישׁ מִמִּין הָאָדָם הַיּוֹתֵר מוּכָן לָזֶה, כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה כְּלִי לְהַגִּיעַ הָאֲנָשִׁים אֶל שְׁלֵמוּת תַּכְלִיתָם, אִם עַל יָדוֹ בִּהְיוֹתוֹ בַּחַיִּים וְאִם עַל יְדֵי אֶמְצָעִי אַחַר מוֹתוֹ. וְהַהַיְשָׁרָה הַמַּגַּעַת לָאֲנָשִׁים עַל יְדֵי הָאִישׁ הַזֶּה הִיא הַנִּקְרֵאת תּוֹרָה אֱלֹהִית, וּמַדְרֵגָתָהּ מִשְּׁאָר הַתּוֹרוֹת וְהַנִּימוּסִים מַדְרֵגַת הַמְּלָאכָה הָרֹאשִׁית לִשְׁאָר הַמְּלָאכוֹת הַמְשָׁרְתוֹת לָהּ.
O capítulo prova a necessidade da Torá divina por um raciocínio do menor para o maior (kal vachomer). Albo observa que a providência divina equipou os animais até com o supérfluo — sentidos duplicados, refinamentos que vão além da mera sobrevivência. Ora, se D'us cuida tão minuciosamente das criaturas inferiores, é impensável que abandone a espécie mais nobre, o homem, sem prover-lhe o meio de alcançar a sua perfeição. Esse meio é o "influxo divino" (shefa elohi) — a revelação.
A perfeição não desce sobre cada indivíduo isoladamente, mas sobre um homem excepcionalmente preparado, que se torna o "instrumento" (keli) pelo qual a espécie inteira é elevada. A imagem orgânica é precisa: assim como o coração não vive para si, mas distribui a vida a todos os membros, o profeta não é um fim em si — é o órgão por onde a perfeição divina alcança toda a humanidade, na sua geração e nas seguintes, através dos sábios que transmitem e interpretam o que dele receberam.
A conclusão coroa a hierarquia das leis construída nos capítulos anteriores: acima da lei natural e da lei convencional está a Torá divina, que está para todas as outras leis como "a arte suprema" está para as artes subordinadas. As leis humanas ordenam o corpo e a convivência; só a lei divina conduz a alma à sua finalidade última — a verdadeira felicidade. Está assim demonstrado, a partir da própria providência (o segundo dos três princípios-raiz), por que a "Torá vinda do Céu" (o terceiro) é necessária.