"Segulá" é uma palavra difícil de traduzir: a qualidade própria, o tesouro singular de algo. Nesta seção o Rav Kook explora o que seria a segulá de Israel — e o faz de um modo que surpreende: não opondo fé e razão, mas exigindo as duas em plenitude; e não opondo Israel à humanidade, mas mostrando que o amor a todos só é saudável quando brota da clareza, e não do apagamento. Traduzo os nove capítulos do hebraico (domínio público).
A fraqueza humana faz com que, quem é apto à investigação intelectual, enfraqueça a inclinação à fé; e quem é pleno na fé tenda a diminuir no intelecto. Mas o caminho reto é que nenhuma força diminua a outra: a fé deve ser tão completa como se não houvesse possibilidade alguma de investigação; e a sabedoria, tão aguçada como se não houvesse fé alguma na alma. Para Israel, diz o Rav Kook, a fé firme é natural — herança da revelação da Shechiná —, ao passo que a negação lhe é antinatural. Por isso é tão boa a simplicidade da fé na sua pureza, "clara como o sol". E é por isso que Pessach se liga a Shavuot pela contagem do omer: ela une a oferta de cevada (alimento animal, o sentimento natural) ao trigo (alimento humano, a elevação intelectual) — pois ambas as forças revelam todo o seu valor quando aparecem inteiras e, depois, se unem numa só ordem.
O serviço de D'us divide-se em dois. O primeiro nasce do reconhecimento de que se deve honrar o Criador, agradecer-Lhe e glorificar o Seu Nome — e disso resultam os atos religiosos definidos. O segundo vem não só manifestar a honra de D'us, mas melhorar a vida do indivíduo e do todo: "ordenou-nos o Eterno cumprir todos estes estatutos para o nosso bem". Mesmo aos povos, a quem não foi revelada a legislação prática, pode formar-se uma religião com expressões de santidade. Mas a tarefa específica de estabelecer na prática a vontade de D'us no mundo — o lado do mishpat, da justiça concreta — exige a força da profecia completa, que se deu a Israel pelo senhor dos profetas, a quem a palavra de D'us se revelou "face a face".
Há um valor que não se mede pela utilidade imediata. Honrar um talmid chacham (sábio da Torá), por exemplo, não é só pela sua utilidade prática, mas pela santidade que a própria Torá opera pela existência dos sábios em Israel. É como "uma vela ao meio-dia": inútil pela luz que dá, mas valiosa pela honra que expressa. É como a lua, cujo brilho de dia não serve para iluminar, mas que ainda assim marca os tempos e anuncia a glória do Nome. Assim também Knesset Israel atua muito pelo seu valor espiritual no mundo, mesmo quando, sob o domínio das nações, as suas ações não são reconhecidas no plano material.
Eis um capítulo que precisa de atenção. A amplitude do coração, que às vezes vem para incluir toda a humanidade no amor especial revelado a Israel, precisa ser examinada — diz o Rav Kook. Quando ela brota da clareza do reconhecimento da santidade de Israel, e dessa luz se espalha o amor "com bom olho" sobre todo povo e toda pessoa, essa é a medida de Avraham, nosso pai, "pai de uma multidão de nações":
Mas há também — adverte ele — um "amor universal" que nasce do apagamento da clareza, da diluição do reconhecimento da raiz sagrada; e esse, diz o Rav Kook, é "venenoso" e destrutivo. Em outras palavras: o amor a toda a humanidade é o ápice — quando é o amor de Avraham, que ama os povos a partir da sua fé firme, e não às custas dela.
Repare na dialética: não é a particularidade contra o universal, nem o universal contra a particularidade. É o universal que se sustenta sobre uma identidade clara — como em Avraham, cuja bênção alcança "todas as famílias da terra" justamente porque ele sabia quem era.
Os muitos caracteres distribuídos entre os povos estão contidos, juntos, em Israel. Por isso ele é mais propenso a divisões internas — e, por isso mesmo, pode ser "um povo que habita à parte", sem que lhe falte nenhuma inclinação ou talento: "uma cidade que tem tudo — dela os seus sacerdotes, dela os seus profetas, dela os seus príncipes, dela os seus reis". E o que protege contra a fragmentação é a Torá inteira: de todas as diferenças de opinião e tipo, ela faz surgir o bem geral que une a todos — a multiplicidade das forças é boa para a nação quando se unem na raiz da sua existência, que é a Torá.
Mais do que qualquer povo, não conseguimos suportar a contradição e a falta de unidade interior. A segulá eterna em nós é a paz e a união na sua forma ideal. Por isso toda a nossa dispersão é apenas temporária — e estamos destinados a unir-nos e a ser "uma só nação na terra".
Há uma revelação que, segundo o Rav Kook, é peculiar a Israel: a do grande valor do ser humano — da influência real do seu espírito, da sua vontade e do seu intelecto sobre a existência. O mundo, em geral, está longe disso: quase todos pensam que o homem é apenas passivo diante da realidade, influenciado e não influente. Mas quanto mais o homem conhece o seu valor, mais o seu valor realmente cresce. E a moral de Israel não é só individual, nem só familiar e nacional, nem só humana universal — embora tudo isso esteja nela: na sua raiz, ela é divina, a Torá de D'us, Criador do mundo — uma Torá que é, por assim dizer, a continuação da própria criação.
A unidade revelada entre o mundo moral, espiritual e intelectual e o mundo material, prático e social exprime-se no mundo por meio de Israel; e a segulá da Terra de Israel é estabelecer essa unidade, que dá uma face nova a toda a cultura humana. E quando a singularidade do renascimento de Israel se revelar na sua plenitude na Terra, há de cumprir-se, à vista de todos os povos: "somente um povo sábio e entendido é esta grande nação".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — Orot Yisrael, seção Segulat Israel (A Singularidade de Israel), capítulos 1 a 9. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Em alguns capítulos densos, condensou-se a redação preservando o argumento; as notas são nossas. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.