Orot · As Luzes do Rav Kook

A Singularidade de Israel

De Orot Yisrael. O que é a segulá — a "singularidade" de Israel? Aqui o Rav Kook a descreve como a fé e o intelecto vivendo em plenitude, e mostra que o amor universal verdadeiro nasce dessa clareza, não da sua diluição. Os nove capítulos, do hebraico.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Orot Yisrael, Segulat Israel (1–9) Tradução inédita · PT-BR

"Segulá" é uma palavra difícil de traduzir: a qualidade própria, o tesouro singular de algo. Nesta seção o Rav Kook explora o que seria a segulá de Israel — e o faz de um modo que surpreende: não opondo fé e razão, mas exigindo as duas em plenitude; e não opondo Israel à humanidade, mas mostrando que o amor a todos só é saudável quando brota da clareza, e não do apagamento. Traduzo os nove capítulos do hebraico (domínio público).

Capítulo 1 — Fé e intelecto, cada um em plenitude

A fraqueza humana faz com que, quem é apto à investigação intelectual, enfraqueça a inclinação à fé; e quem é pleno na fé tenda a diminuir no intelecto. Mas o caminho reto é que nenhuma força diminua a outra: a fé deve ser tão completa como se não houvesse possibilidade alguma de investigação; e a sabedoria, tão aguçada como se não houvesse fé alguma na alma. Para Israel, diz o Rav Kook, a fé firme é natural — herança da revelação da Shechiná —, ao passo que a negação lhe é antinatural. Por isso é tão boa a simplicidade da fé na sua pureza, "clara como o sol". E é por isso que Pessach se liga a Shavuot pela contagem do omer: ela une a oferta de cevada (alimento animal, o sentimento natural) ao trigo (alimento humano, a elevação intelectual) — pois ambas as forças revelam todo o seu valor quando aparecem inteiras e, depois, se unem numa só ordem.

Capítulo 2 — Dois sistemas no serviço de D'us

O serviço de D'us divide-se em dois. O primeiro nasce do reconhecimento de que se deve honrar o Criador, agradecer-Lhe e glorificar o Seu Nome — e disso resultam os atos religiosos definidos. O segundo vem não só manifestar a honra de D'us, mas melhorar a vida do indivíduo e do todo: "ordenou-nos o Eterno cumprir todos estes estatutos para o nosso bem". Mesmo aos povos, a quem não foi revelada a legislação prática, pode formar-se uma religião com expressões de santidade. Mas a tarefa específica de estabelecer na prática a vontade de D'us no mundo — o lado do mishpat, da justiça concreta — exige a força da profecia completa, que se deu a Israel pelo senhor dos profetas, a quem a palavra de D'us se revelou "face a face".

Capítulos 3–4 — O valor que não se vê de imediato

Há um valor que não se mede pela utilidade imediata. Honrar um talmid chacham (sábio da Torá), por exemplo, não é só pela sua utilidade prática, mas pela santidade que a própria Torá opera pela existência dos sábios em Israel. É como "uma vela ao meio-dia": inútil pela luz que dá, mas valiosa pela honra que expressa. É como a lua, cujo brilho de dia não serve para iluminar, mas que ainda assim marca os tempos e anuncia a glória do Nome. Assim também Knesset Israel atua muito pelo seu valor espiritual no mundo, mesmo quando, sob o domínio das nações, as suas ações não são reconhecidas no plano material.

Capítulo 5 — O amor universal de Avraham

Eis um capítulo que precisa de atenção. A amplitude do coração, que às vezes vem para incluir toda a humanidade no amor especial revelado a Israel, precisa ser examinada — diz o Rav Kook. Quando ela brota da clareza do reconhecimento da santidade de Israel, e dessa luz se espalha o amor "com bom olho" sobre todo povo e toda pessoa, essa é a medida de Avraham, nosso pai, "pai de uma multidão de nações":

וְנִבְרְכוּ בְךָ כֹּל מִשְׁפְּחֹת הָאֲדָמָה וּבְזַרְעֶךָ "E em ti se bendirão todas as famílias da terra — e na tua semente." Bereshit 12:3; 28:14

Mas há também — adverte ele — um "amor universal" que nasce do apagamento da clareza, da diluição do reconhecimento da raiz sagrada; e esse, diz o Rav Kook, é "venenoso" e destrutivo. Em outras palavras: o amor a toda a humanidade é o ápice — quando é o amor de Avraham, que ama os povos a partir da sua fé firme, e não às custas dela.

Repare na dialética: não é a particularidade contra o universal, nem o universal contra a particularidade. É o universal que se sustenta sobre uma identidade clara — como em Avraham, cuja bênção alcança "todas as famílias da terra" justamente porque ele sabia quem era.

Capítulo 6 — A diversidade contida num só povo

Os muitos caracteres distribuídos entre os povos estão contidos, juntos, em Israel. Por isso ele é mais propenso a divisões internas — e, por isso mesmo, pode ser "um povo que habita à parte", sem que lhe falte nenhuma inclinação ou talento: "uma cidade que tem tudo — dela os seus sacerdotes, dela os seus profetas, dela os seus príncipes, dela os seus reis". E o que protege contra a fragmentação é a Torá inteira: de todas as diferenças de opinião e tipo, ela faz surgir o bem geral que une a todos — a multiplicidade das forças é boa para a nação quando se unem na raiz da sua existência, que é a Torá.

Capítulo 7 — Não suportamos a desunião

Mais do que qualquer povo, não conseguimos suportar a contradição e a falta de unidade interior. A segulá eterna em nós é a paz e a união na sua forma ideal. Por isso toda a nossa dispersão é apenas temporária — e estamos destinados a unir-nos e a ser "uma só nação na terra".

Capítulo 8 — A dignidade e a influência do ser humano

Há uma revelação que, segundo o Rav Kook, é peculiar a Israel: a do grande valor do ser humano — da influência real do seu espírito, da sua vontade e do seu intelecto sobre a existência. O mundo, em geral, está longe disso: quase todos pensam que o homem é apenas passivo diante da realidade, influenciado e não influente. Mas quanto mais o homem conhece o seu valor, mais o seu valor realmente cresce. E a moral de Israel não é só individual, nem só familiar e nacional, nem só humana universal — embora tudo isso esteja nela: na sua raiz, ela é divina, a Torá de D'us, Criador do mundo — uma Torá que é, por assim dizer, a continuação da própria criação.

Capítulo 9 — Unir o espírito e a matéria

A unidade revelada entre o mundo moral, espiritual e intelectual e o mundo material, prático e social exprime-se no mundo por meio de Israel; e a segulá da Terra de Israel é estabelecer essa unidade, que dá uma face nova a toda a cultura humana. E quando a singularidade do renascimento de Israel se revelar na sua plenitude na Terra, há de cumprir-se, à vista de todos os povos: "somente um povo sábio e entendido é esta grande nação".

"E em ti se bendirão todas as famílias da terra."
Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, OrotOrot Yisrael, seção Segulat Israel (A Singularidade de Israel), capítulos 1 a 9. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Em alguns capítulos densos, condensou-se a redação preservando o argumento; as notas são nossas. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.