Na seção anterior, o Rav Kook ensinou que a grande teshuvá brota do espírito de santidade — a profecia na sua nascente. Aqui ele continua o pensamento e o leva mais longe: mostra como esse espírito retorna, o que ele expulsa ao surgir, e por que até as tentativas frustradas de redenção não se perderam. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
A redenção vem pela restauração do espírito
A teshuvá destinada a Israel — a que há de erguer a sua glória numa redenção completa — virá pela restauração da força do espírito de santidade, que é a qualidade profética [ha-segulá ha-nevuit] no seu começo, espalhando-se sobre toda a nação inteira.
E à medida que esse espírito supremo se esforça por aparecer, os espíritos pequenos são expulsos e afastados diante dele.
Uma imagem precisa de como cresce a vida do espírito: não se "combatem" diretamente as pequenezas — a mesquinhez, o medo, a estreiteza. Elas se vão por deslocamento, quando algo maior ocupa o lugar. Quando o "espírito supremo se esforça por aparecer", os espíritos menores simplesmente já não cabem. A cura não é a guerra contra o pequeno, mas a entrada do grande.
O que se esclarece só por dentro
O conteúdo próprio de Israel, enquanto "povo que habita à parte", não se esclarecerá apenas pelos atos externos e medidos, nem pelas coisas meramente estudadas — mas pela elevação da vida na sua qualidade interior.
Isso é fruto daquilo que vem por uma vontade interior poderosa — vontade que será depurada pelos grandes da alma [gedolei ha-neshamá], aqueles que reconhecem o curso e o pulsar da vida de toda a coletividade da nação. São eles os "donos do fundamento" do alto, os que farão subir de novo todas as quedas: as suas próprias, as do conjunto de Israel, e também as de todos os que caíram.
As centelhas dos que caíram
Pois houve os que se ergueram para ser redentores — que se puseram a ser "messias" — e caíram, tropeçaram e se quebraram. Eis que as suas centelhas se dispersaram e buscam uma reparação [tikun] viva e duradoura, no fundamento de David, rei de Israel.
Eis um dos consolos mais ousados do Rav Kook. A história de Israel conhece muitas tentativas falhadas de redenção — homens que "se ergueram para ser messias" e ruíram. O olhar comum vê nelas apenas erro e desilusão. O Rav Kook vê outra coisa: nenhuma aspiração verdadeira à redenção se perde de todo. As suas "centelhas" — o que nelas havia de genuíno anseio — desprendem-se da queda e procuram um lugar onde possam, enfim, ser reparadas e cumpridas: o "fundamento de David", o eixo legítimo e duradouro da redenção. O fracasso não anula o desejo santo que o moveu.
As vestes imundas trocadas pelas vestes da santidade
E o espírito do Mashiach [rucha de-meshicha] caminha na luz da Torá interior. Tudo aquilo em que se esforçarem os grandes de coração puro — para lutar contra o esquecimento da Torá suprema e contra o seu ocultamento — fará despertar, cada vez mais, a força do renascimento nacional.
Então ela removerá de si as suas vestes imundas e vestirá as vestes da santidade; e ficará conhecido a todo o Israel e a todo o mundo que estes passos pobres e hesitantes [pa'amei dalim] são, na verdade, as pegadas da redenção do mundo — para Israel e para o mundo inteiro, para tudo o que se ligar à vida, e para as almas dos que dormem no pó, que também elas aguardam o dia da redenção:
A imagem das "vestes imundas trocadas pelas vestes da santidade" vem da visão de Zacarias (3:3-4), em que o sumo sacerdote Yehoshua é despido das vestes sujas e revestido de trajes puros. O Rav Kook aplica-a ao renascimento de Israel: o processo é real, e por vezes começa de forma desajeitada, "pobre", quase irreconhecível. Mas o que parecem apenas passos vacilantes — pa'amei dalim — revelar-se-á, ao olhar que enxerga fundo, como as próprias pegadas da redenção a caminho. E ela não é só de Israel: alcança "o mundo inteiro" e até "as almas dos que dormem no pó". A esperança do Rav Kook nunca é estreita.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §70. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Bamidbar 23:9 ("povo que habita à parte") e Eichá 4:20 ("o sopro das nossas narinas, o ungido"); a imagem das vestes ecoa Zecharyá 3:3-4, e o fecho retoma "uma luz nova sobre Sião" da bênção Yotzer Or. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.