Há quem viva a Torá como um conjunto de regras separadas — umas elevadas, outras áridas. O Rav Kook descreve outra experiência: a do momento em que o amor da Torá se acende por dentro e tudo, de repente, aparece como um único tecido vivo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
O grande tecido
A delícia da Torá [chemdat ha-Torá] inflama-se numa percepção interior, e o homem começa a sentir o grande tecido de cada letra e de cada ponto: que toda ideia e conteúdo, todo conhecimento e raciocínio, todo movimento do espírito, todo estremecimento — intelectual e emocional, do mais próximo e geral ao mais distante e particular —, desde as coisas nobres, espirituais e morais segundo a sua face revelada, até as coisas práticas, materiais e obrigatórias (as que à primeira vista parecem impositivas e coercivas, e ainda intrincadas, cheias de detalhe e de grande esforço intelectual) — todas elas, juntas, são reconhecidas numa percepção de santidade suprema.
Eis a chave de toda a seção. Quem ama a Torá não divide os seus mandamentos em "inspiradores" e "maçantes". No olhar que o Rav Kook descreve, até a lei mais técnica e exigente — a que parece só "obrigar" — revela-se como um fio do mesmo tecido luminoso. A santidade não está só nos cumes; corre por cada ponto e cada letra.
Pois é na simplicidade da fé contida no amor da Torá [chibat ha-Torá] que se encontra a sublimidade da sua verdade e a grandeza do seu cântico, tornando tudo em coisas vivas e duradouras — coisas por onde passam torrentes de vida poderosas, cheias de delícia, de alegria e de esplendor, que as enchem por inteiro; e uma doçura sem fim é sentida no paladar de quem a medita.
A música do segredo
Pulsa o amor, e renova-se: ondas sobre ondas marulham, uma multidão de harpas e liras que adoçam a suavidade do murmúrio do seu segredo — [vindo] da profundeza da alma da nação, da elevação da alma do homem que nela se concentra, da amplidão da alma de todo o universo, de todo o ser que habita no ponto interior de Sião, fonte do deleite, despojado de todo conteúdo e de todo atributo definido. Dali, de tudo, marulha e se agita uma multidão de esferas de vida ressoantes, que adoçam o segredo de uma fala santa.
A noiva ainda velada
A Torá revela-se no esplendor da sua beleza. A alma da nação — viva e original, viçosa e rica, alma de espírito elevado, saturada de delícia do Éden — eis que se apresenta diante de nós em toda a variedade de cores do esplendor da sua delícia consumada. A minha alma ansiou por ela; o meu coração e a minha carne exultam pelo D'us vivo; como de gordura e fartura se sacia a minha alma, e com lábios jubilosos te louva a minha boca.
A Torá revela-se em toda a perfeição da sua glória a esta geração viçosa, cheia de força juvenil; e a expectativa vai pulsando às portas da sua alma altiva — pois a Torá ainda não removeu de si o véu do seu mistério. Envolta [em véu] está esta amável filha dos céus; mas os raios da sua glória já penetram através do véu, e enchem os recantos da nossa vida de brilho e de luz de vida.
A imagem é nupcial e cheia de esperança. A Torá é como uma noiva ainda velada — não a possuímos por inteiro, não lhe vemos ainda o rosto pleno. Mas o véu não é parede: os raios já o atravessam. O Rav Kook não descreve uma posse acabada, e sim um noivado em curso — a Torá da Terra de Israel desabrochando junto com o povo que a ela desperta.
Ela já goteja orvalhos de vida no íntimo das almas que despertam para o renascimento. A Torá da Terra de Israel vai despertando — junto com a reconstrução do país, o trabalho produtivo e a consciência de si.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §61. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Shir haShirim 7:10 e 7:7; o trecho "a minha alma ansiou… com lábios jubilosos te louva a minha boca" entrelaça Tehillim 84:3 e 63:6, como no original do Rav Kook. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.