Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) trata de um diagnóstico delicado: o que o exílio sustentou, e o que ele já não pode sustentar. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
A visão do coração
O judaísmo no exílio, não fosse a seiva de vida que recebe da santidade da Terra de Israel, não teria propriamente uma base prática — apenas a visão do coração (chazon ha-lev), fundada em imagens de esperança e de nobre meditação, voltadas para o futuro e para o passado. Há, porém, uma medida de quanta força essa visão do coração tem para carregar o peso da vida e abrir, com o seu vigor, uma vereda para a vida de um povo — e essa medida, ao que parece, já esgotou a sua conta. Por isso o judaísmo no exílio decai espantosamente, e não tem esperança senão em ser replantado numa fonte de vida real, de uma santidade própria, que só se encontra na Terra de Israel.
A vida real da santidade do judaísmo só se revela no retorno da nação à sua terra, que é a estrada pavimentada para a sua volta à revivência; e toda a elevação que há no seu espírito e na visão do seu coração se erguerá e viverá na exata medida em que o fundamento prático tomar lugar para reanimar a visão que desfalece.
A demanda de viver pelo espírito natural
Quanto mais o mundo se adoça, e o espírito do homem se desenvolve dentro dele, mais se desperta — com voz mais forte — a demanda de viver segundo o espírito natural que há nele. E essa demanda tem em si muito de verdade e de justiça; cabe aos íntegros no saber purificá-la e assentá-la sobre a sua base. O ser humano vai encontrando D'us dentro de si, nas suas inclinações justas — e mesmo naquelas que, à primeira vista, parecem desviar-se do bom caminho consagrado pela visão habitual, ele pode elevar-se a um grau tão alto que saberá ordenar tudo segundo o plano da força e da felicidade.
Eis um dos lances mais característicos — e mais corajosos — do Rav Kook. A "demanda de viver pelo espírito natural", que tantos religiosos do seu tempo viam só como ameaça, ele acolhe: tem "muito de verdade e de justiça". O sagrado não se opõe ao natural; o homem "encontra D'us dentro de si, nas suas inclinações justas". A tarefa dos sábios não é reprimir esse anseio, mas purificá-lo — depurá-lo até que ele próprio aponte para o alto. É a mesma confiança de fundo: a vida, bem compreendida, não foge de D'us; conduz a Ele.
Quando a nação desperta
Quando a Comunidade de Israel desperta para a revivência, encontra dentro de si a sua força e a sua glória; e toda a pureza e santidade que de costume se achavam na submissão e na obediência vão-se acendendo na força anímica que desponta com o vigor da nação. E, com um saber puro, unem-se os dois espíritos — e a força que desperta é adoçada pelo entrelaçar de ambos.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §8. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. O bloco em hebraico destacado é uma frase do próprio Rav Kook (não um versículo bíblico). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.