Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) faz uma das afirmações mais ousadas do Rav Kook sobre a natureza de Israel — e, lida com cuidado, é uma afirmação de orientação, não de mérito. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
O que funda uma nação
A disposição da alma da Comunidade de Israel é, na sua raiz, distinta da disposição da alma de todo outro povo e língua. Em todo povo e língua, o ponto interior do desejo de vida coletiva funda-se no conteúdo econômico, em todas as suas formas — no fundamento daquela inquietação interior que há no ser humano de assegurar a sua condição material. E o espírito mais alto, que dá vida e ilumina esse ponto, é o espírito da ordem e da beleza — o desejo do prazer dos sentidos, segundo os anseios do coração humano; e, quando estes se reúnem num coletivo, por um mesmo estilo, essa afinidade forma o conteúdo nacional.
A disposição divina no fundo da alma
Em Israel, porém, jaz a disposição divina nas profundezas da natureza da alma da nação. A sede de um conhecimento e de um sentir divinos, no auge da sua elevação e pureza, é para ela o ponto em que a vida é sentida; e os refinamentos que brotam da perfeição dessa imagem, em toda a largura e profundeza da vida, são os seus alvos estéticos.
Tudo cabe num só ponto
O saber interior — que reconhece que, no preenchimento desse anseio supremo, tudo se preenche; que não há nada, em todos os alvos da vida, nos seus refinamentos, nas suas ordens e nos seus conteúdos, que não esteja contido dentro desse ponto de "mundos dos mundos" — esse reconhecimento é coisa própria de Israel, posta na natureza da nação. Revela-se num reconhecimento interior até às maiores multidões, e vai-se aclarando, geração após geração, para os mais seletos.
A essência israelita e o povo eterno
O elemento divino — presente dentro de todo o valor da vida, na profundeza da natureza da alma, em harmonia com a seiva que dá vida à história nacional, manifesto no dom da criação da profecia nos filhos eleitos da nação — é o que a eleva ao grau de "povo eterno", de modo que toda a humanidade reconhecerá o tesouro da sua alma. Eis a essência israelita, cujos traços se revelam em todos os seus diversos movimentos; e o espírito do Mashiach vai realizando a plenitude desse caráter, até o tempo do fim completo.
É preciso ler esta página com cuidado, para não a tomar por um hino de superioridade — ela não o é. O Rav Kook descreve uma diferença de orientação, não de valor: onde o vínculo de um povo se ancora, sobretudo, na segurança material (algo legítimo e humano), o de Israel ancora-se na sede de D'us. E o próprio texto fecha em chave universal: a vocação não é guardar esse tesouro contra a humanidade, mas para que "toda a humanidade reconheça o tesouro da sua alma". A eleição, mais uma vez, é serviço — e o "povo eterno" existe para o bem de todos.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §10. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; a afirmação sobre a distinção de Israel foi vertida como questão de vocação e não de mérito, em fidelidade ao fecho universalista do próprio texto. O bloco em hebraico destacado é uma frase do próprio Rav Kook (não um versículo bíblico). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.