Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) segue-se à anterior: se o ideal precisa encarnar-se, de onde vem a força para reerguer um povo? Da própria profundeza da sua alma. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
Das profundezas, a luz
Das profundezas ocultas da alma tiraremos a luz que dará vida ao povo inteiro, para o pôr de pé. A força da vida vai-se intensificando; ela rompe os seus próprios caminhos — mas cabe a nós investigar o plano do seu espírito.
O anseio pelo espírito de santidade
A aspiração ao espírito de santidade supremo — aquele espírito que se assemelha ao espírito dos heróis cingidos da força de D'us que tivemos nos dias antigos, no tempo em que a nação se reconhecia a si mesma abertamente — vai-se intensificando. No seu fluxo, ela rompe cercas: apaga formas de uma inocência habitual e, com isso, perde tesouros sublimes de vida; e, à primeira vista, o estado fica terrível, despido de um lado e de outro. Mas isto não é senão uma passagem. Logo precisamos aproximar-nos da iluminação suprema — da luz da vida que brota da sua fonte mais alta —, que imprimirá, pela sua força, uma forma firme, cheia de uma força sagrada maior do que tudo o que a inocência mediana, insuficientemente iluminada pela luz pura da santidade, poderia dar.
Vasos para a grande luz
Os ideais que estão na fonte de Israel vão-se revelando; eles dão vida ao espírito que está pronto a recebê-los, em todo o trovão da sua força; e exigem que se estabeleçam, para eles, vasos — muitos vasos: almas sãs de uma geração viçosa, que habite a sua terra e esteja cingida da força da salvação. O Templo, a profecia e a realeza, com tudo o que lhes pertence, enviam-nos a sua luz, semeada na terra da vida. Raios chegam-nos das suas mãos; ondas das suas luzes batem nas nossas pálpebras, que ficaram cerradas durante todo o tempo do exílio que tudo dissolve. Somos chamados a preparar-nos para esta grande luz — a saber o que somos e qual a nossa tarefa, o que a nossa alma, em toda a sua firmeza, exige de nós.
A força que precisa de um alvo
O espírito grande e elevado, que aspira às maiores grandezas — só ele sustém a vida e a humanidade no seu esplendor e na sua força. À altura da força de uma vida plena — de corpos cheios de sangue são e de grande vigor — só corresponde a força do espírito na firmeza da sua superioridade, que desponta e se ergue sobre a humanidade pela força poderosa de Israel. Sem um alvo, a força da vida vai-se esvaindo: o seu vigor diminui, ela definha e marcha para o desgaste que a espera na descida. Mas a força suprema da vida, coroada no todo, na congregação do povo, manifesta-se com o seu alvo justo diante de si na nossa própria vida — na vida íntima por que vivemos e perduramos, lutamos e vencemos.
Duas ideias se cruzam aqui. A primeira: o renascimento não se importa de fora — extrai-se das "profundezas ocultas da alma". A luz que reergue um povo não é novidade importada, mas tesouro reaberto. A segunda, profundamente sóbria: a força, por si, não basta. "Sem um alvo, a força da vida vai-se esvaindo." Vigor, saúde, energia coletiva — tudo isso só ganha sentido quando é "coroado" por um espírito que aspira ao alto. É o mesmo equilíbrio do Rav Kook: nem a alma sem corpo, nem o corpo sem alma — mas a força da vida ligada a um propósito que a transcende.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §7. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. O bloco em hebraico destacado é a frase de abertura do próprio Rav Kook (não um versículo bíblico). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.