Orot · As Luzes do Rav Kook

Ver Só o Bem: o amor sem limites por cada filho de Israel

Feliz de quem se vê como parte do todo de Israel — um ramo de uma grande árvore de vida. E o dever dos santos, diz o Rav Kook: nunca olhar o defeito de nenhuma alma, mas elevar o ponto bom em cada uma; amar sem limites — e chamar ao retorno por amor, não por ira.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §24 Tradução inédita · PT-BR

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é uma das mais belas expressões do amor a Israel (ahavat Yisrael) do Rav Kook — e do seu modo de chamar de volta: pelo amor, e não pela acusação. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

Feliz de quem se vê como parte do todo

Feliz do homem que se considera como um resto [algo secundário] diante de toda a Comunidade de Israel, que é a herança de D'us — [feliz de quem sente] que todos os pensamentos do seu coração, as suas meditações, o seu desejo e a sua aspiração, a sua fé e a sua ideia, não são senão um único anseio oculto: ser inteiramente incluído neste tesouro de vida. É o reconhecimento interior de que somos ramos de uma árvore de vida de muitos galhos e fruto abundante — e de que, quanto mais nos enraizamos no corpo da árvore, mais vivemos a vida mais plena e mais viçosa, no presente e na eternidade. É isto — e só isto — que conduzirá a revivência da nação ao seu alvo, e que apressará o fim por que ansiamos, dando-nos força de salvações.

Ver só o bem em cada alma

E o remanescente que o Senhor chama — os piedosos da geração, os santos supremos — não deve olhar para nenhum defeito, para nenhum lado negativo de qualquer alma em Israel que se mantenha ligada, por algum laço, à rocha de onde foi tirada; mas sim elevar o ponto geral [bom] que há em cada alma particular, ao auge da sua altura e da elevação da sua santidade. O amor sem limites pela nação — a mãe da nossa vida — não pode ser diminuído por causa nenhuma, nem por fracasso algum no mundo:

לֹא הִבִּיט אָוֶן בְּיַעֲקֹב, וְלֹא רָאָה עָמָל בְּיִשְׂרָאֵל; ד' אֱלֹהָיו עִמּוֹ "Ele não contemplou iniquidade em Yaakov, nem viu perversidade em Israel; o Senhor, seu D'us, está com ele." Bamidbar (Números) 23:21

Aqui está o coração do ahavat Yisrael do Rav Kook, e é uma escola de olhar. O dever do santo não é catalogar os defeitos dos outros — é procurar o ponto bom em cada alma e elevá-lo. O modelo é o próprio olhar divino, que "não contemplou iniquidade em Yaakov": não porque o mal não exista, mas porque o amor verdadeiro busca, em cada pessoa, a centelha que a liga à sua raiz. Ver o bem não é ingenuidade; é a forma mais alta de enxergar.

Acima da acusação que divide

Erguemo-nos acima de todos os pensamentos de acusação de uma compreensão superficial — aquela que se agarra a certas máximas e ditos isolados, e por meio deles desperta a ira e o ódio entre irmãos. E, cheios de boa vontade e embebidos do orvalho de bondades poderosas, voltamos a abraçar, com braços de amor, toda a alma da casa de Yaakov — que deseja ver a alegria da nossa nação e gloriar-se com a nossa herança.

Chamar ao retorno — por amor

É justamente a partir do amor fiel, dos sentimentos de honra mais devotados, com todo o calor do espírito e da alma, que vimos proclamar o retorno (teshuvá) à Torá e à mitsvá, ao sagrado e à fé, à herança dos pais e à tradição antiga, à luz do Senhor, D'us de Israel, que desponta sobre o seu povo e a sua terra para sempre, no orgulho da sua força. Afastemo-nos de todo rancor; elevemo-nos acima de toda pequenez de mente e de coração; subamos para além de todo ódio e contenda; absorvamos o amor viçoso da fonte do seu deleite; enxertemos os ramos da bondade sobre as raízes do saber, o esplendor da liberdade sobre a glória do retorno e da fidelidade — a honra dos pais e dos mestres que pertence a um povo antigo, nobre e firme. A esta revivência firme somos chamados, e a ela viremos; a amada terra dos pais, terra de vida para nós, ela nos preparará para esta elevação das elevações; o nosso D'us, eterno e perpétuo, Ele nos guiará para além da morte.

O dever do santo não é catalogar defeitos — é elevar o ponto bom em cada alma.

O fecho é, talvez, a mais clara recusa de Rav Kook à religiosidade da ira. Quem usa "máximas e ditos isolados" para acender "o ódio entre irmãos" entendeu mal a Torá. O verdadeiro chamado ao retorno nasce do amor, não da acusação — "a partir do amor fiel… vimos proclamar a teshuvá". E a imagem final é de enxertia: a bondade sobre o saber, a liberdade sobre a fidelidade. Não se traz ninguém de volta a D'us por medo ou desprezo; traz-se pelo abraço — "com braços de amor".

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §24. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. A citação remete a Bamidbar 23:21; a imagem de "fazer bondade com o seu ninho — esta é a Comunidade de Israel" ecoa o Zohar. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.