Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é breve e luminosa: sobre a união do amor natural com o fogo sagrado, e sobre como tratar aquilo que parece "secular". O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
Dois fogos, uma só chama
O fogo do amor natural pela nação e pela sua revivência — que cresce na Terra de Israel e por meio da Terra de Israel — há de acender-se, no orgulho da sua força, juntamente com o fogo de D'us, o fogo sagrado, de toda a pureza da fé, em todo o seu vigor e poder.
As centelhas dispersas voltam
As centelhas dispersas da fé divina — e todas as suas muitas consolações e despertares para a moral e a retidão, para a coragem e a esperança, para a paz e o consolo eterno —, que já se espalharam entre muitas nações grandes e poderosas por meio da nossa dispersão entre os povos, e por meio da difusão das crenças que brotam da fonte das Escrituras Sagradas, vão e voltam a nós: reúnem-se no nosso tesouro, recolhem-se mais uma vez na Comunidade de Israel, e retornam à vida por meio de uma multidão de almas novas de "um povo que será criado".
Eis um dos lances mais universalistas do Rav Kook, e ele lê a história inteira como um circuito de luz. A fé de Israel, dispersa pelo exílio e pela difusão das Escrituras, semeou entre "muitas nações grandes" os seus frutos — a moral, a justiça, a esperança, a paz. E agora, no renascimento, essas mesmas centelhas voltam, regressam à sua fonte. O exílio não foi só perda: foi também uma sementeira; e o que se espalhou pelo mundo enriquece, no regresso, a própria casa de onde saiu.
Não afastar, mas elevar
Longe de nós bloquear o caminho diante da luz da vida! Não nos alarmemos se as correntes parecem, no seu exterior, diferentes [da fé] — pois a luz de D'us brilha nelas, o espírito de D'us paira nelas.
O nacionalismo secular pode contaminar-se de muita escória, sob a qual se escondem muitos espíritos maus; mas não é afastando-o da alma da geração que havemos de vencer — e sim com um esforço vigoroso de trazê-lo à sua fonte suprema, de uni-lo à santidade de origem da qual ele [próprio] brota.
É a marca do Rav Kook diante da modernidade. Onde muitos viam no anseio nacional secular apenas uma ameaça a combater, ele enxerga uma luz desgarrada da sua fonte — uma chama que arde, ainda que "no exterior" pareça profana. A resposta não é repelir; é elevar: reconduzir essa energia à raiz sagrada de onde, no fundo, ela mesma provém. Combater o anseio é apagá-lo; reconduzi-lo é redimi-lo.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §22. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. A expressão "um povo que será criado" ecoa Tehillim 102:19. O bloco em hebraico destacado é uma frase do próprio Rav Kook. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.