Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) continua a anterior: se separar a nação é um erro, qual é a tarefa dos que a amam? Fazer a paz, e revelar a luz oculta em cada um. É um texto denso, tecido de versículos e da liturgia. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
O dano da divisão
Todo desejo de servir [a D'us], toda alegria de mitsvá, a constância no estudo da Torá, o relâmpago das novas compreensões e o cintilar do espírito de santidade no coração dos remanescentes que o Senhor chama, a intenção da oração e a luz da sua chama — tudo isto, e o fruto das almas em toda a sua perfeição, é forçoso que se fira pela introdução de um princípio de divisão (pirud) no conjunto da Comunidade de Israel, D'us nos livre.
Os que fazem a paz
Os que amam e temem a D'us de verdade, e meditam no seu Nome — são eles que se mantêm no teste de suportar toda dor e todo insulto, de todo lado, e de se firmarem contra todas as forças, de cima e de baixo, que desejam engolir a herança do Senhor e separar a nação una, a única em todos os mundos. São os "filhos da Comunidade de Israel" sobre os quais a mãe se debruça; os "ceifeiros do campo" que vêm no conselho [secreto] do Senhor; os verdadeiros sábios da Torá, que aumentam a paz no mundo, e instauram a paz entre Israel e o seu Pai que está nos céus — ao trazerem do potencial ao ato a luz sagrada escondida em cada membro da nação, em todo o que se chama pelo nome de Israel; e, em especial, em todo o que ergue a bandeira da esperança da nação e do desejo da sua revivência, o selo do amor à terra sobre a qual estão os olhos do Senhor, com o amor de Sião e de Jerusalém gravado no coração — seja qual for a forma, seja qual for o modo de entender que tenha.
Aqui está a generosidade radical do Rav Kook. A tarefa do verdadeiro sábio não é cercar os puros e excluir o resto — é revelar a luz oculta em cada um. E ele não a limita aos observantes: inclui "em especial" todo o que carrega a esperança e o amor da terra de Israel — os construtores do renascimento, mesmo os seculares —, "seja qual for a forma, seja qual for o modo de entender". O amor de Israel, para ele, não pede credencial; busca a centelha que arde em cada filho do povo.
A unidade que redime o mundo
"Todos os caminhos tortuosos serão endireitados", e a unidade da nação — para a sua redenção e a redenção do mundo inteiro — sairá ao ato em grande preciosidade: "pois os teus servos amam as suas pedras e se compadecem do seu pó; e as nações temerão o nome do Senhor, e todos os reis da terra, a tua glória... Escreva-se isto para a geração futura, e um povo que há de ser criado louvará o Senhor... quando os povos se ajuntarem, e os reinos, para servir ao Senhor" (Tehillim 102:15-23).
E aqueles que parecem os mais distantes unem-se ao todo por meio das almas que são do grau de "ao homem e ao animal salvas, ó Senhor" (Tehillim 36:7) — que os sábios explicam: "são os que são argutos no saber e, contudo, se fazem [humildes] como um animal". Como disse o salmista: "eu era bruto e nada sabia, era como um animal diante de Ti; contudo, estou sempre contigo, Tu me seguras pela mão direita... a quem tenho eu nos céus? E, estando contigo, nada desejo na terra... mas, quanto a mim, a proximidade de D'us é o meu bem" (Tehillim 73:22-28).
"Eu vos amei, diz o Senhor"
E a resposta eterna a toda a queixa dos de pouca fé — que dizem, em cada geração, e ainda mais na geração em que desponta a luz da salvação: "em que nos amaste?" — é a palavra do Senhor pela mão de Malachi:
E, em verdade: "com amor eterno e grande amor nos amaste, Senhor nosso D'us; com grande e excessiva compaixão te compadeceste de nós" — como dizemos na bênção que precede o Shemá, e que se sela com "Aquele que escolhe o seu povo Israel com amor", e com o pedido: "escolheste-nos de todo povo e língua, para te agradecer e te unificar com amor". Pois a verdade clara é o que disseram todas as tribos [a Yaakov]:
E, ainda que a realidade aparente às vezes pareça contradizê-lo, isso não é nada — pois "Yaakov, nosso pai, não morreu": como a sua descendência está viva, também ele está vivo; e "vós, que vos apegais ao Senhor, vosso D'us, estais todos vivos hoje" (Devarim 4:4). "Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a iniquidade de Israel, e ela não existirá; e os pecados de Yehudá, e não se acharão — pois perdoarei àqueles que eu deixar [como remanescente]" (Yirmiahu 50:20).
O fecho responde à dúvida de sempre — "em que nos amaste?" — com o verso de Malachi: "Eu vos amei". Para o Rav Kook, esse amor é a verdade mais funda, mesmo quando "a realidade aparente parece contradizê-la"; e a prova é a unidade do coração de Israel, herdada de Yaakov ("no nosso coração só há Um"). Por isso fomos escolhidos, diz a liturgia, "para unificar [a D'us] com amor" — e a unificação de D'us começa pela unificação do povo. Dividir Israel é, no fundo, tornar mais difícil dizer "o Senhor é Um".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §21. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira, densamente tecida de versículos e da liturgia; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. As citações remetem a Tehillim 102:15-23, 36:7 e 73:22-28, Malachi 1:2, Devarim 4:4 e Yirmiahu 50:20, à liturgia (a bênção "Ahavá" e o Shemá) e ao Talmud (Pessachim 56a; Bava Batra 116a; Chullin 5b; Taanit 5b). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.