A tradição descreve o período que antecede a redenção — os "calcanhares do Mashiach" — como uma era de atrito, em que "a insolência cresce" (Sotá 49b). Seria de esperar, então, que fosse uma época de fragmentação. O Rav Kook lê exatamente o oposto, e o que segue é uma tradução inédita ao português desta breve e luminosa seção, a partir do hebraico de domínio público.
Quando a unidade cresce
Próximo aos calcanhares do Mashiach [o limiar da redenção], multiplica-se no povo a segulá da unidade [a qualidade interior, o dom da unidade]. As boas obras, as ideias e a luz divina que se encontram nos justos agem sobre a santidade do todo mais do que nos demais tempos.
Eis a primeira surpresa: justamente na época mais turbulenta, a capacidade de unidade do povo aumenta, e a influência dos justos sobre o coletivo torna-se mais poderosa do que em tempos serenos. Não é que a discórdia seja boa — é que, por baixo dela, uma corrente mais funda de unidade está a crescer com força inédita. A superfície engana.
O tesouro debaixo das disputas
Esta segulá está enterrada num tesouro de acusação e de disputas — mas o seu interior é revestido de amor e de uma unidade admirável, que desperta um sentimento coletivo de espera pela salvação de toda a nação.
A imagem é exata. Por fora, o "tesouro" tem a aparência áspera da katigoria — a acusação, a recriminação, a rixa. Mas, como o trono do rei no Cântico, "o seu interior é revestido de amor". As brigas são a casca; o amor é o âmago. E o sinal de que o âmago está vivo é justamente este: que, em meio a tudo, desperta no povo inteiro uma mesma esperança — a espera pela salvação de todos.
Há aqui um modo inteiro de olhar para um povo dividido. Em vez de medir a unidade pela ausência de conflito, o Rav Kook ensina a procurá-la por baixo do conflito — no fato de que todos, mesmo brigando, querem o bem do mesmo povo e esperam a mesma salvação. A discórdia barulhenta pode até esconder uma comunhão profunda que cresce em silêncio. Quem só vê a casca conclui pela desunião; quem conhece o âmago sabe que, "perto dos calcanhares do Mashiach", a unidade nunca esteve tão forte.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §25. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A expressão "calcanhares do Mashiach" (ikvetá diMeshichá) e a descrição da discórdia pré-messiânica provêm do Talmud (Sotá 49b); a frase "o seu interior revestido de amor" é de Shir haShirim 3:10; o verso da união fraterna é Tehillim 133:1. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.