Esta é a seção de abertura das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), e nela o Rav Kook põe o fundamento de tudo o que virá: o que é, afinal, conhecer D'us? A resposta abre um caminho que vai da metafísica ao coração — e do coração ao renascimento de um povo. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
Conhecer D'us é conhecer a sua relação com o mundo
O entendimento mais pleno e mais doce do conhecimento da Divindade é o reconhecimento da relação divina com o mundo em geral, e com cada um e cada um dos seus pormenores, os materiais e os espirituais — tal como a relação da alma (o lado espiritual que dá vida e que preenche de luz a existência e o florescer) com o corpo, com aquilo de que a vida precisa para a sua iluminação e o seu florescer. Esta relação, quando se enche no coração e na alma, enche-os de amor mais do que de temor, e da suavidade da contemplação e da serenidade, mais do que da amargura do estremecimento.
Eis, em uma frase, toda uma teologia. Conhecer D'us não é alcançar uma definição abstrata, mas perceber a sua relação viva com tudo — como sentimos a alma animar o corpo. E há uma consequência afetiva precisa: quem conhece D'us assim ama-O antes de temê-lo. O temor não desaparece, mas torna-se "temor da exaltação" — reverência serena —, e não o pavor que amarga. O conhecimento verdadeiro adoça.
Fácil no indivíduo, difícil no coletivo
Na vida do indivíduo, é fácil chegar a esta medida — pela melhoria da moral prática e intelectual, e pela elevação da luz do conhecimento em geral. Quando o caráter humano se relaciona com simpatia para com o sublime, para com o bem absoluto, no intelecto e na vida, imediatamente este reconhecimento anímico da Divindade nele se enraíza, é absorvido em todos os seus pensamentos e funde-se com todos os seus sentidos e sentimentos, para os refinar.
Mas o organismo coletivo — que tem uma psicologia própria — só recebe esse reconhecimento na medida em que, na sua mais funda profundidade, também ele se incline a uma simpatia moral superior, e o amor do bem nobre esteja bem gravado na sua natureza, por escolha sua ou ao menos por herança dos seus pais. Onde isso acontece, o reconhecimento anímico difunde-se belamente também no seio da nação, e a suavidade do amor divino, com um temor de exaltação doce e bem-ordenado, repousa sobre a coletividade e endireita todos os seus caminhos.
O deus estranho
Mas, na medida em que a psicologia de um coletivo está distante da afeição interior pelo bem absoluto, nessa medida a relação anímica não consegue penetrar nele no que toca ao divino — e o laço com a Divindade é forçado a ser, nele, um laço estrangeiro: D'us torna-se ali um "deus estranho, um deus alheio". E a esse deus estranho o coletivo atribui traços bizarros e caricaturais, que distorcem a vida muito mais do que poderiam endireitá-la.
Por isso ainda vemos, em muitos coletivos, sinais de crueldade e de tirania, e a própria substância da moral a dissolver-se, abandonada do coração comum. A cultura ainda não chegou, por ora, a preparar no fundo da alma dos organismos coletivos uma simpatia divina pelo bem absoluto.
É importante ler bem o que aqui se diz. O Rav Kook não está a julgar o valor dos povos, mas a diagnosticar conceções do divino: quando D'us é sentido como algo externo e alheio, em vez de íntimo, nasce uma imagem distorcida e dura da Divindade — e é a essa imagem (não a um povo) que ele chama "deus estranho". É a mesma crítica que o Rambam fez ao antropomorfismo e à idolatria: um D'us mal concebido deforma a vida. E note-se o horizonte: para o Rav Kook, o amor ao "bem absoluto" é a vocação de toda a humanidade — ele fala de um amadurecimento espiritual ainda em curso no mundo inteiro, não de um privilégio fechado.
A herança que sobrevive: Israel
Há, porém, uma herança que se salvou para a humanidade, em Knesset Israel: a de que a simpatia divina se encontra no seu círculo interior. O sentimento atesta e o entendimento esclarece que o D'us eterno, o Único e Singular, é o bem completo, a vida, a luz, o Todo — exaltado acima de tudo e acima de toda exaltação, melhor do que todo bem, bom para todos, e as suas misericórdias sobre todas as suas obras; que dá vida a tudo e guarda tudo, e faz brotar salvação para todos.
E esta simpatia universal penetra esta nação não apenas nos seus indivíduos, mas precisamente na sua totalidade. Se aconteceu que ela esqueceu a sua alma, a fonte da sua vida, a profecia veio recordar-lha, e os exílios prepararam-se para endireitar as suas tortuosidades — até que, no fim de tudo, a simpatia do bem absoluto vença dentro dela.
A sede que desperta o renascimento
Esta sede viva e palpável — que enche com a sua luz e com a força do seu ser a vida prática, social e nacional, tal como enche nela as forças metafísicas e visionárias — vai abrindo o seu caminho, e chama a nação, ao chegar o seu tempo, a tomar coragem, erguer-se, sacudir o pó da humilhação, romper as cadeias do exílio e pedir um novo florescer sobre a terra em que começou a cultura anímica e divina — para a nação e para o mundo inteiro.
E essa exigência divina não se revela, no início, em toda a sua luz. Pelo contrário: revela-se primeiro de modo negativo — expulsando os sentimentos divinos estranhos, que não enchem a alma de uma relação íntima, mas de um domínio de senhorio duro e de força bruta, herdados dos "nomes dos ídolos", desprovidos da luz delicada do temor da exaltação e do amor puro e santo de aceitar o reino dos Céus, que está impresso em Israel, "a semente de Abraão, que me amou".
E, à medida que cresce essa negação [do falso], pelas mãos dos que estão aptos a ela, assim vem crescendo a força da afirmação — vinda de um grande acampamento, "como o acampamento de D'us", dos que conduzem o povo, possuidores de uma alma do mundo da emanação. E o sentimento anímico, divino e nacional, vai florescendo e ligando-se a todas as luzes ocultas na história concreta — luzes que brilham no seu próprio chão: esta é a terra da herança, a terra do deleite, a terra santa, a terra da beleza e a terra da vida. "O nosso Redentor — o Senhor dos Exércitos é o seu nome — o Santo de Israel."
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §1. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido e a densidade do original, organizando o texto para a leitura. As citações remetem a Tehillim 81:10 e 145:9, Yeshayahu 41:8 e 47:4. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.