Como olhar para quem ama o povo de Israel com toda a alma, mas vive distante da Torá? Muitos responderiam com julgamento. O Rav Kook responde com uma metáfora agrícola — e com uma paciência cheia de esperança. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), a partir do hebraico de domínio público.
O amor que se inflama pela Torá
Quando o amor à nação se fortalece, ele se inflama pela Torá de Israel, a amá-la tanto no estudo quanto na prática. E o desejo que se vai desenvolvendo conduz a um amor que torna vívida [que faz sobressair] a atenção aos pormenores, e aos pormenores dos pormenores — tanto no estudo do Talmud quanto no cumprimento prático.
A tese é forte e contra-intuitiva: o amor genuíno ao povo não fica indiferente à Torá do povo — pelo contrário, acaba por se apaixonar até pelos seus mínimos detalhes. Para o Rav Kook, amar Israel e amar a Torá de Israel não são dois amores que competem, mas um só amor em dois graus de maturidade. Quanto mais fundo o primeiro, mais inevitavelmente floresce o segundo.
O dever do justo: atiçar o fogo
E todo justo deve fortalecer, em si mesmo e no mundo, o fogo do amor à nação em Israel, e intensificá-lo por todos os meios de influência que há no mundo. E que esteja certo de que, no fim de tudo, este amor universal há de chegar ao amadurecimento pleno do seu fruto — até gerar a sua descendência: a saber, os atos, as virtudes e as ideias de toda a Torá inteira, em toda a sua plenitude e bondade.
Note-se o papel do justo: não condenar o amor nacional ainda imaturo, mas fortalecê-lo — "por todos os meios de influência que há no mundo". O tzaddik é um jardineiro, não um juiz. Confia que a planta dará fruto e cuida do fogo que a faz crescer. E o "fruto" não é vago: são os atos (a mitsvá), as virtudes (a middá) e as ideias (a de'á) — a Torá inteira, brotando do amor amadurecido.
Um amor ainda verde
E tudo o que vemos — que há pessoas que se proclamam cheias de amor a Israel, e cujo coração, no entanto, está longe da Torá, do seu estudo e do seu cumprimento — é porque o seu amor ainda está verde [imaturo]: "e as nossas vinhas estão em flor".
O smadar não é uma fruta falsa — é uma fruta que ainda não chegou ao ponto. Já tem perfume, já promete; só lhe falta o tempo. Assim é, para o Rav Kook, o amor a Israel que ainda não se voltou à Torá: não é hipocrisia, é juventude.
Esta é uma das chaves do otimismo do Rav Kook diante dos construtores seculares do seu tempo. Onde outros viam contradição — "como amam Israel e não guardam a Torá?" —, ele via um único processo em curso. O amor deles é real; está apenas no estágio da flor. E o trabalho de quem ama a Torá não é arrancar a flor por não ser ainda fruto, mas regar a videira — confiante de que "no fim de tudo" o smadar se tornará vindima.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §23. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A imagem do smadar (a uva em flor) é de Shir haShirim 2:13 e 2:15; o verso do amor ao próximo é Vayikrá 19:18 (cf. Talmud Yerushalmi, Nedarim 9:4, palavra de Rabi Akiva). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.