Há um ideal antigo no judaísmo: estudar a Torá lishmá, "por si mesma" — não para ser chamado de sábio, não por recompensa, mas pela própria coisa. Em Orot HaTorah, o Rav Kook dá a esse ideal uma profundidade nova e surpreendente: quem estuda por amor participa de um ato cósmico, trazendo a luz da sabedoria à existência. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).
Estudar pelo amor da luz
Torá lishmá [significa estudar a Torá] "em seu nome" — por amor à própria Torá. Pois a existência da sabedoria é a vontade de D'us, bendito seja, de que ela exista em ato; e ela é uma existência mais preciosa e elevada do que tudo o que se possa imaginar — a falta está apenas do nosso lado, pois, imersos no corpo, não reconhecemos toda a grandeza e a sublimidade da sua existência.
E a sabedoria da Torá é a revelação divina, conforme a vontade de D'us, que vem por meio do nosso serviço e do nosso estudo. Eis, então, que todo o que estuda a Torá traz, da potência ao ato, a existência da sua sabedoria a partir da própria alma — e, com certeza, a luz que se renova pela união da Torá com esta alma não é igual à que nasce da sua união com outra alma. Sendo assim, ele engrandece a Torá, realmente, com o seu estudo. E, já que o Santo, bendito seja, deseja que a Torá se engrandeça, o caminho reto é que o homem estude movido pelo amor àquela grande luz que D'us quer revelar — para que ela cresça cada vez mais; e, mais ainda, [estude para] inovar na Torá, o que é, sem dúvida, um engrandecimento duplo da sua luz.
Eis a virada do Rav Kook: o estudo não é apenas receber — é criar. Cada mente que entende uma ideia da Torá traz à existência uma luz que nenhuma outra mente traria exatamente igual. Por isso o motivo importa: estudar "por amor à luz" (e não por vaidade ou recompensa) é o que torna o estudo um ato generoso, que acrescenta luz ao mundo. É a mesma intuição do racionalismo da Torá — o conhecimento como o mais alto dos bens (cf. o Rambam) —, levada ao seu ápice.
A luz oculta em cada detalhe
Nos assuntos espirituais, isso se dá no seu sentido simples, pois neles a proximidade de D'us e a sublimidade da santidade são manifestas, e por elas o homem se eleva. Mas, nos assuntos práticos — as leis —, é preciso entender que todos eles são ramos e vestes da luz da retidão e da justiça divina; e que, dentro de todos os detalhes juntos, está a alma divina do aperfeiçoamento do mundo — na vida, na matéria e no espírito, na sociedade e no indivíduo. Assim, a luz penetra e desce também em cada detalhe.
E quando o sentimento do coração e o intelecto interior se entregam à iluminação divina geral, oculta em toda a multidão dos estudos práticos, gera-se uma revelação interior em cada detalhe, que vem à luz conforme o talento de cada um. É isto:
— e, sobre a iluminação geral, foi acrescentado: "e não só isso, mas o mundo inteiro vale a pena por causa dele".
O encontro de duas luzes
Quando alguém se ocupa da Torá, mesmo em coisas simples, verá como a luz suprema desce de modo admirável, a ponto de assentar-se tão belamente no mundo da ação. E alargará o seu coração pela grande preciosidade e pela força desta vida, que jorram da fonte mais sagrada. E saberá com clareza que esta luz — tão contraída em palavras e letras, em costumes, atos, leis, debates e raciocínios — encontra a luz suprema, elevada acima de tudo isso, e nela se banha; e ambas se deleitam juntas, e a luz da Vida dos mundos enche-se de esplendor e de grande prazer com esse encontro contínuo.
Esse encontro, diz o Rav Kook, é o que "faz a paz na corte de cima e na corte de baixo" — pois reconcilia o céu e a terra, o ideal e o detalhe, mostrando que a coisa mais elevada e a mais miúda são, no fundo, a mesma luz.
Estudar é dar vida ao povo
Um dos caminhos do estudo lishmá é enriquecer a comunidade de Israel com grandes forças espirituais. Quanto mais cresce a luz da Torá — e, com ela, o seu amor e a sua honra — no coração de uma pessoa, mais a força fundamental do povo se fortalece; e a própria alma daquele que opera essa bênção comum também se engrandece e se enobrece, lançando "ramos viçosos" e "raízes poderosas", enraizando-se na verdadeira árvore da vida.
Pois, quando se estuda a Torá lishmá, faz-se bondade (chesed) com a comunidade inteira: o espírito do povo se fortalece pelo alimento espiritual que os seus filhos haurem do fruto do próprio espírito; e cada um que estuda revela uma força de vida nova na alma do povo. E quanto mais o estudo é iluminado por entendimento amplo e bom juízo, e quanto mais a ele se somam generosidade de coração e pureza de alma, mais essa força de vida se revela, dando ao povo ânimo e alegria para erguer-se. E todas as fraquezas que sobrevêm ao espírito do povo têm a sua origem no esquecimento da Torá e no afrouxar das mãos diante dela.
Há aqui uma ideia generosa: estudar não é um ganho apenas privado. Quem aprende e cresce enriquece a comunidade inteira — o conhecimento de um torna-se vida para muitos. O estudo, assim, é também uma forma de serviço e de bondade: ao elevar-se, a pessoa eleva o todo a que pertence.
A preparação do coração
Por fim, o Rav Kook adverte: o verdadeiro estudo lishmá não pode vir senão por meio de uma preparação — a compreensão, e o sentimento que a acompanha, de como cada detalhe da Torá é amado com um amor sagrado, e de como a luz geral, cheia de vida e que traz vida ao mundo, se difunde por todos os detalhes.
Não basta, portanto, a inteligência: é preciso também o amor. O estudo mais alto é aquele em que a mente que compreende e o coração que ama trabalham juntos — e então o estudante já não busca nada para si, porque o próprio estudo, feito por amor, já é a luz.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 2 — "Torá lishmá". O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico (vocalizado) e cotejada com a base de textos do Sefaria. Buscou-se preservar o rigor e a força do original; alguns períodos longos foram organizados para a leitura. O ideal de "Torá lishmá" remonta à Mishná (Avot 6:1) e ao Talmud (Nedarim 62a). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.