Em Orot HaTeshuvah — talvez o seu livro mais amado —, o Rav Kook descreve a teshuvá (o retorno, o arrependimento) não como um peso, mas como a maior das curas. Neste capítulo, distingue dois modos de retornar: um voltado a uma falta concreta, e outro a um mal-estar mais profundo, sem nome. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).
A teshuvá de um pecado específico
Há uma teshuvá voltada contra um pecado específico, ou contra muitos pecados. O homem põe o seu pecado diante de si, arrepende-se dele e aflige-se por ter caído no laço da culpa. E a sua alma trepa e sobe, até libertar-se da escravidão do pecado e sentir em si a liberdade santa, tão doce à alma fatigada; e vai-se curando. Os raios do sol da bondade suprema enviam-lhe os seus feixes, e ele se enche de prazer e de viço interior — junto com um coração quebrantado e uma alma contrita; pois até esse mesmo sentimento de contrição, próprio do seu estado, lhe acrescenta um prazer espiritual íntimo e uma verdadeira plenitude. Vai sentindo que se aproxima da fonte da vida, do D'us vivo que, não há muito, lhe parecia tão distante. E, recordando com júbilo a sua miséria interior, enche-se de gratidão e ergue a voz em louvor: “Bendize, ó minha alma, ao Eterno, e não te esqueças de nenhum dos Seus benefícios: Ele perdoa todas as tuas iniquidades, sara todas as tuas enfermidades, resgata da cova a tua vida, coroa-te de bondade e misericórdia” (Tehilim 103:1-4).
Ah, quão oprimida estava a alma, enquanto o peso do pecado — a sua escuridão e o seu fardo terrível — pesava sobre ela! Quão abatida estava, ainda que riqueza e honra exteriores lhe tivessem tocado em sorte! De que serve toda a riqueza, se o âmago da vida está mirrado e seco? E quão feliz ela está agora, ao sentir que a sua culpa foi perdoada, que a proximidade de D'us vive e brilha dentro dela, que o seu fardo se aliviou, que ela já está inteira — cheia de descanso e de paz serena:
Repare na tonalidade: para o Rav Kook (como para o Rambam, em Hilchot Teshuvá), a teshuvá não é, no fundo, sofrimento, mas libertação — sair da "escravidão do pecado" para uma "liberdade santa". E há uma fineza psicológica: até o coração quebrantado traz consigo um prazer interior, porque é o primeiro sinal de que a alma já está voltando para casa.
A teshuvá geral da alma
E há ainda um sentimento de teshuvá geral, indefinido. Nenhum pecado do passado lhe vem ao coração; mas, em geral, ele sente que está profundamente abatido, que está cheio de culpa, que a luz de D'us não brilha sobre ele. Não há nele um espírito generoso; o coração está fechado; as suas qualidades e a sua índole não seguem o caminho reto, digno de encher de vida nobre uma alma pura. O seu entendimento está grosseiro; os seus sentimentos, turvados de escuridão e de uma sede que lhe desperta repugnância espiritual. Envergonha-se de si mesmo; sabe que não há D'us dentro de si. E esta é, para ele, a maior aflição e o pecado mais terrível; amargura-se consigo, e não encontra saída do laço em que caiu — um laço sem conteúdo específico, no qual ele todo está como que preso num cepo.
Esta segunda teshuvá fala diretamente à nossa época. Não é a culpa por um ato isolado, mas um vazio difuso — a sensação de estar distante, de que "a luz não brilha", de que falta algo essencial, sem se saber bem o quê. O Rav Kook não a trata como doença a suprimir, mas como o próprio começo da cura: esse desconforto é a alma a sentir a falta de D'us — e, portanto, já a buscá-Lo.
A cura que renova o mundo
E dessa amargura da alma vem a teshuvá, como o bálsamo de um médico mestre. O sentimento da teshuvá, e a profundeza do seu saber — o seu grande apoio no fundo da alma, no segredo da natureza e em todas as câmaras da Torá, da fé e da tradição —, flui com toda a força para dentro dele. Uma confiança forte na cura, na renovação universal que a teshuvá estende a todos os que a ela se apegam, faz passar sobre ele um espírito de graça e de súplica:
E sente, a cada dia que passa, crescer em si a adesão a essa teshuvá suprema e universal; o seu sentimento torna-se mais seguro, mais claro, mais iluminado pela luz do intelecto e mais bem fundado nos princípios da Torá. E eis que ele vai-se iluminando: a face da ira passou; vem e raia uma luz de boa vontade; ele enche-se de vigor, os olhos enchem-se de fogo sagrado, o coração mergulha em ribeiros de delícias, santidade e pureza pairam sobre ele, um amor sem fim enche todo o seu espírito, e a sua alma tem sede de D'us — saciando-se dessa própria sede como de leite e fartura. E recebe a boa nova de que todos os seus pecados — os conhecidos e os desconhecidos — foram apagados; que foi criado de novo, uma criatura nova; que o mundo inteiro se renovou com ele, e tudo entoa um cântico.
Eis a esperança que o Rav Kook deixa: o retorno de uma única pessoa não a salva apenas a ela — acrescenta cura ao mundo todo. Ninguém está tão longe que não possa voltar; e nenhum retorno é pequeno demais para importar ao universo inteiro.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTeshuvah (As Luzes da Teshuvá), capítulo 3 — "Teshuvá particular e teshuvá geral". O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Os versículos citados pelo Rav Kook (Tehilim 103; 116:7; Yeshayahu 66:13) e a passagem do Talmud (Yomá 86a) foram vocalizados conforme o texto tradicional. Buscou-se preservar a força e a ternura do original; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.