Esta passagem breve encerra uma das intuições mais finas do Rav Kook — e uma das mais úteis para a vida. Ele observa que muitas coisas boas, no mundo como ele é, não se sustentam por motivos bons: a modéstia pode apoiar-se no medo, a fé na ignorância, a honestidade na falta de oportunidade. E pergunta: o que acontece quando esses apoios caem? A resposta é surpreendente e libertadora. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).
Quando o bem se apoia no que é feio
Há coisas boas e santas cujas causas que as sustentam no mundo são feias — como a fraqueza, a mentira, a maldade —, e que às vezes escoram o fundamento de bens como a vergonha [sadia], o pudor, a fé e outros semelhantes. Mas, assim como o "favor" dos ímpios é, aos olhos dos justos, um mal, assim também o bem que o que é bom e santo recebe do que é mau e impuro acaba gerando muitos males. [Um bem sustentado por uma base corrompida traz, consigo, a corrupção da sua base.]
O exemplo torna a ideia concreta: se alguém é honesto apenas por medo de ser pego, ou modesto apenas por timidez, ou fiel apenas por não ter conhecido a dúvida — o bem está ali, mas escorado em algo frágil e indigno. No dia em que o medo, a timidez ou a ignorância caírem, esse "bem" desaba junto. Um bem que depende de um mal não está, ainda, verdadeiramente seguro.
A queda que é, na verdade, subida
Por isso — diz o Rav Kook — a luz da redenção só se realiza quando se desfazem todos os fundamentos maus, inclusive aqueles que [agora] sustentam o bem e o santo. E, embora com isso o bem, o santo e a fé sofram, e pareçam declinar e empobrecer, esse declínio e essa descida são, na verdade, uma subida e um fortalecimento:
Pois, depois de apodrecerem aqueles fundamentos maus, logo começará a brotar a luz do esplendor e da santidade sobre alicerces verdadeiros — de conhecimento, sabedoria, força, beleza, perenidade e majestade. E assim se fundará o reino eterno para a luz de D'us e para o Seu bem, no fim dos dias, "nas fiéis mercês de David", que são uma aliança eterna que jamais falhará. E o texto fecha com ternura:
A lição vale para a alma de cada um. Não basta fazer o bem — importa por que o fazemos. A virtude que repousa sobre o medo, a vaidade ou a ignorância é uma casa construída sobre a areia; quando o vento muda, ela cai. A tarefa do amadurecimento é dolorosa, mas redentora: deixar ruir os falsos motivos e reerguer o mesmo bem sobre o único alicerce que não cede — a verdade. É a mesma exigência de Saadia Gaon, que pedia que a fé recebida por hábito se tornasse fé fundada na compreensão: o bem, como a fé, só está seguro quando descansa sobre o que é verdadeiro.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), seção 52. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. É um capítulo breve mas exigente: a nota em destaque deixa claro que não se trata de "destruir o bem", e sim de libertá-lo dos seus falsos apoios (medo, ignorância, falsidade) para refundá-lo sobre a verdade — em sintonia com a exigência racionalista (Saadia, Rambam) de uma fé fundada na compreensão. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.