Orot · As Luzes do Rav Kook

A Torá da Terra de Israel: o todo, a unidade e a paz

Um dos capítulos mais célebres do Rav Kook. Há, diz ele, dois modos de estudar a Torá: o do exílio, voltado à alma individual e aos detalhes; e o da Terra de Israel, que abraça o todo — e onde halachá e agadá, razão e canto, corpo e espírito deixam de se opor e voltam a ser um só.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot HaTorah · cap. 13 (final) Tradução inédita · PT-BR

O capítulo que encerra Orot HaTorah contrapõe duas maneiras de viver a Torá. Não se trata de geografia, mas de amplitude: a Torá "do exílio" cuida, com zelo, da alma do indivíduo; a Torá "da Terra de Israel" alcança o todo — a alma da nação inteira e o universal. Como se verá, o Rav Kook honra a primeira (foi a luz que cresceu na escuridão e aproximou os distantes), mas aponta para a segunda como a fonte. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro (oito seções), a partir do hebraico original (de domínio público).

Da escuridão, uma grande luz

Quando se estuda muito do [lado] oculto, então tudo o que se compreende e se aprende do [lado] revelado brilha com uma luz preciosa. Esta é a via do Talmud de Jerusalém (o Yerushalmi): "porque eram piedosos, a sua Torá era abençoada" — e não apenas, como diz o Talmud da Babilônia (o Bavli), "a sua Torá se preserva". Há, nisto, uma diferença entre o "ar da Terra de Israel", onde o espírito sagrado pode influir até no conteúdo das leis (halachot), e o exílio, onde ele se manifesta abertamente só nas narrativas (agadot), e as leis são julgadas pela razão humana. "Em lugares escuros me fez habitar" — este é o Talmud da Babilônia. E, no entanto, da escuridão brotará uma grande luz:

הָעָם הַהֹלְכִים בַּחֹשֶׁךְ רָאוּ אוֹר גָּדוֹל "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre os que habitavam na terra da sombra da morte resplandeceu a luz." Yeshayahu (Isaías) 9:1

Porque, ao fazer descer a luz da Presença suprema às camadas mais baixas da vida, iluminam-se muitíssimas entradas escuras — e isso estende a mão a muitos que estão distantes, para que venham, se aproximem e se unam à luz suprema do esplendor da Torá na sua essência, que é a Torá da Terra de Israel.

Note-se a generosidade do Rav Kook: a Torá do exílio não é desprezada. Pelo contrário — é "a luz que cresce na escuridão", aquela que, justamente por trabalhar nas "entradas escuras" e julgar a lei pela razão humana, consegue baixar a luz divina aos níveis mais simples da vida e aproximar os distantes. O exílio tem a sua grandeza própria. A diferença que se vai descrever é de alcance, não de valor: o particular contra o todo.

A Torá do indivíduo e a Torá do todo

וּזֲהַב הָאָרֶץ הַהִוא טוֹב — אֵין תּוֹרָה כְּתוֹרַת אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל "'E o ouro daquela terra é bom' — não há Torá como a Torá da Terra de Israel." Bereshit 2:12, com Bereshit Rabá

Em toda geração deveríamos amar muito a Torá da Terra de Israel; e tanto mais na nossa — geração da decadência e do renascimento, filha de um tempo de treva e de luz, de desespero e de coragem. Para ela precisamos de um remédio de vida, justamente o da Torá da Terra de Israel: mostrar-lhe a verdade e a clareza que há no nosso tesouro divino, e o que há de belo e de sublime nos seus mandamentos práticos — o quanto ela é, a um só tempo, Torá de verdade e Torá de vida. E provar isso, desde a sua profundidade, só é possível na Terra de Israel.

Tudo o que, na Torá do exílio, está no registro do particular, eleva-se, na Torá da Terra de Israel, ao registro do geral. A Torá do exílio ocupa-se da correção da alma privada — do seu cuidado com a matéria e o espírito, da sua purificação e elevação —, mas apenas enquanto alma privada. Não assim a Torá da Terra de Israel: esta cuida sempre do todo, da totalidade da alma de toda a nação. Os particulares reúnem-se nela, elevam-se na sua elevação, coroam-se na sua coroa. E até essa própria passagem, do particular ao geral, é, ela mesma, uma inovação sublime da Torá da Terra de Israel.

Eis o coração do capítulo. A Torá do exílio pergunta: como eu, indivíduo, me corrijo e me elevo? A Torá da Terra pergunta: como o todo — a alma da nação, e através dela a humanidade — se eleva? Não é que o particular seja abandonado: ele "se reúne no todo, e se eleva na sua elevação". É a diferença entre cuidar de uma árvore e cuidar da floresta inteira — sabendo que cada árvore floresce melhor quando a floresta vive.

Quando os muros caem

E não só a agadá é iluminada pela ideia clara da Torá da Terra de Israel, mas também a halachá: os fundamentos dos raciocínios, a análise das decisões, as raízes das escolas e o seu sentido geral, enraizado nas profundezas da vida espiritual e prática. Da profundidade do renascimento espiritual, os limites e os "muros de ferro" entre um assunto e outro irão diminuindo; todo o mundo espiritual será contemplado num só olhar. O esplendor da vida e o amor dos mistérios, a fineza do pilpul e o reerguer-se de Israel na terra santa, o esclarecimento das leis e a expansão da visão e do canto, o desejo do estudo e o anseio do desenvolvimento físico — tudo isto, que no exílio era tratado como distante e contraditório, eis que agora se une num feixe de verdadeira ligação, cada parte ajudando a outra a alargar-se e a aprofundar-se.

A corrente divina geral, que flui em cada parte da Torá e lhe dá vida, só aqui, na terra santa, pode ser bem apreendida. O esplendor supremo e abrangente, que brilha do mais íntimo dos princípios gerais, ao descer aos particulares faz neles tudo o que deseja, com retidão e sabedoria: pode expor "sobre cada traço e traço montes e montes de leis". Ela não é obrigada a alongar-se no pilpul para estabelecer uma lei clara — alcança a verdade e o conteúdo puro e interior a partir do sentido divino íntimo que ilumina os que habitam o solo sagrado.

Talvez seja a imagem mais bela do capítulo: a queda dos "muros de ferro". No exílio, a Torá fragmenta-se em compartimentos que parecem rivais — a halachá contra a agadá, o pilpul contra a poesia, o estudo contra o corpo. A Torá do todo cura essa fratura: tudo volta a ser um só organismo, em que cada parte alimenta a outra. É a mesma intuição da unidade que percorre todo o pensamento do Rav Kook — a verdade é uma, e os seus aparentes opostos se reconciliam no alto.

Do geral para o particular

Precisamos elevar-nos àquele grau de compreensão dos princípios gerais — e dos princípios dos princípios —, com os particulares apoiados sobre eles. Esta é a medida própria da Torá da Terra de Israel. Aquele grande espírito, em que toda aspiração escondida no fundo da alma não tem alvo privado, mas geral; aquela vontade sublime, oculta na alma interior da Comunidade de Israel, de onde se ramificam todos os princípios e detalhes da Torá — só na Terra de Israel ela repousa devidamente sobre a alma. Por isso, só ali estão os sábios preparados (se quiserem usar o seu privilégio) para entrar nas profundezas da Torá de cima para baixo, do geral ao particular.

Mas, enquanto não reconhecerem o seu grau elevado, e quiserem conduzir-se no estudo só do modo que convém aos filhos do exílio, tornam-se debilitados e diminuídos; e não só o seu privilégio sublime não se revela, como até parece que os sábios do exílio os superam em agudeza — e tudo isso porque ainda não chegaram ao reconhecimento de si mesmos.

No exílio, uma luz emprestada

A Comunidade de Israel, no seu conjunto, vive no exílio uma vida que não é original [enraizada na sua fonte]; quanto mais os sábios, cujo fundamento de vida é a vida espiritual. Por isso, ali, cada fio que sai de um mesmo ponto empurra o outro: a ação e a contemplação, a halachá e a agadá, o revelado e o oculto, a pesquisa e a Cabalá, o mussar e a poesia, a gravidade e o gracejo — coisas que só por fora se dividem, e não por dentro (pois na corrente interior da vida tudo flui num só curso, em unidade) — tornam-se fragmentadas e afastadas, como se cada uma tivesse de guardar-se da outra. Uma unidade verdadeira e uma paz suprema, cheia de vida — que vêm do próprio Nome do Santo, bendito seja, "o Senhor é Paz", pois "o seu próprio Nome se chama Paz" — não podem desenvolver-se plenamente no exílio.

Por isso a vida espiritual ali não pode ser original; é apenas haurida do tesouro de vida guardado no que restou da Torá — escrita e oral —, que desceu ao exílio junto com Israel. Mas só o lado externo da santidade vai para o exílio: as palavras e as letras podem ser tomadas na mão e levadas de lugar a lugar. A sua alma interior, porém — a alma do D'us vivo, unida à luz suprema e à esperança geral, enraizada em cada palmo do solo sagrado — só se revela no seu lugar, na Terra de Israel. E o próprio reconhecimento de que somos "um povo admirável, filhos de reis, nobres entre os povos" — reconhecimento que no exílio se cobre de um véu de tristeza —, aparece, no solo sagrado, na clareza da alma e no esplendor da vida.

Estas páginas sobre o exílio devem ser lidas como o Rav Kook as pensou: uma metafísica da dispersão, e não um juízo sobre os lugares ou os povos entre os quais Israel viveu. O que ele descreve é a condição de quem está "fora do seu lugar" — a alma da Torá que viaja com o povo, mas cuja raiz viva ficou na terra. O exílio, aqui, é símbolo da fragmentação e do desenraizamento espiritual; o retorno, símbolo da reunificação e da paz. E a dignidade de Israel — "filhos de reis, nobres entre os povos" — é afirmada, não negada.

O mussar ao contrário: a coragem de ser grande

Os sábios da Terra de Israel precisam de um mussar [admoestação] forte — mas o conteúdo deste é o oposto de todo mussar comum. As qualidades duras, que levam a pessoa a afirmar o seu valor privado e a reforçar o seu poder, fazem o mundo adoecer pelo seu excesso, a ponto de cada nação dizer "eu, e nada além de mim", querendo engolir o mundo todo. Por isso os mestres do mussar de sempre se esforçaram por abrandar a dureza do coração, enfraquecer a soberba e humilhar o orgulho. Mas o mussar de que precisam os elevados — os chamados, pela luz da sua alma, a serem grandes — é o contrário disto: a generosidade refinada alarga tanto o coração que a pessoa sente tudo, percebe toda a dor do mundo, e quer ajudar e salvar, esquecendo-se só de si mesma.

As inclinações da alma nobre correm ao contrário das da maioria: vão do geral ao particular.

As faltas do mundo, a alma nobre vê-as em si mesma, como num espelho límpido; e a sua própria luz fica-lhe oculta. Estes são os "humildes da terra", que, depois de se elevarem em saber, luz e santidade, enchem o mundo inteiro de luz e de vida. Desta espécie são os sábios da Terra de Israel: toda a dor do mundo — e mais ainda a dor profunda da Comunidade de Israel — está gravada no fundo do seu coração, a ponto de não conseguirem reconhecer a própria grandeza. Pois esta é a medida de todos os grandes do mundo que salvaram mundos pela sua influência: serem humildes e quase apagados — e até demasiado tímidos — antes que se lhes torne clara a sua missão, a que os coroa de força e lhes põe a coragem na mão.

A estes devemos dirigir um grande chamado: anunciar-lhes, dos próprios montes de Sião, que vivem uma vida grande e que há força poderosa em suas mãos. "Não é imitando o estilo do exílio que mostrareis as vossas forças admiráveis, ó habitantes da terra da vida: tendes uma missão muito mais alta — devolver-nos a coroa da força da Torá, desde a santidade da nossa vida antiga, e elevar-vos ao cume da alma divina que paira sobre os montes de Sião." A coragem e a humildade, a Torá e o serviço, a reverência sublime do Infinito e o esplendor do amor ao D'us vivo encherão o vosso coração como o orvalho do Hermon que desce sobre Sião; o revelado e o oculto, o Talmud e a ação, a beleza e a força encherão o vosso espírito. E da nossa paz interior estender-se-á uma tenda de paz sobre todo o Israel:

הַפּוֹרֵשׂ סֻכַּת שָׁלוֹם עָלֵינוּ וְעַל כׇּל עַמּוֹ יִשְׂרָאֵל וְעַל יְרוּשָׁלָיִם "[Bendito é Aquele] que estende a tenda da paz sobre nós, sobre todo o seu povo Israel e sobre Jerusalém." da liturgia (bênção do Hashkiveinu)

O "mussar ao contrário" é uma das mais finas psicologias do Rav Kook. A moral comum combate a soberba — e faz bem, pois é da soberba que vem o "eu, e nada além de mim" que adoece o mundo. Mas há um perigo oposto, próprio das almas grandes: o apagar-se demais, a timidez que esconde de si o próprio dom e, com ele, a missão de servir o todo. A verdadeira humildade dos grandes não é encolher-se — é esquecer-se de si para sentir a dor de todos e, então, ter a coragem de erguer-se e iluminar. Humildade e grandeza, aqui, são a mesma coisa.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 13 — "A Torá de fora da Terra e a Torá da Terra de Israel". O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se o capítulo inteiro (oito seções); os trechos sobre o exílio foram vertidos com fidelidade e acompanhados de notas que situam o seu sentido (uma metafísica da dispersão, não um juízo sobre lugares ou povos). Os versos citados são de Yeshayahu 9:1, Bereshit 2:12 (com Bereshit Rabá) e da liturgia; "o seu Nome se chama Paz" remete ao Talmud (Shabat 10b). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.