Este é o capítulo mais prático de Orot HaTorah: um guia de estudo. O Rav Kook fala de método, de ordem, de ritmo — mas, acima de tudo, de respeito à alma de cada estudante. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro (treze seções), a partir do hebraico original (de domínio público).
Cada alma, o seu caminho
Cada um deve ocupar-se do seu próprio trabalho, naquilo para que tem preparo; e isto vale em especial para o estudo. Ainda que, por vezes, as circunstâncias tornem difícil manter aquilo que o coração deseja, mesmo assim a pessoa deve ser firme e não abandonar o que especialmente apura o seu espírito.
Houve quem se desviasse para o mal porque, no seu modo de estudo, traiu a sua natureza individual. Veja-se: um é talhado para a agadá, e os assuntos da halachá não são da sua índole, para neles se ocupar de modo constante; e, não sabendo avaliar o seu talento próprio, mergulha na halachá segundo o costume corrente, e sente em si uma resistência a esses assuntos — não por falta alguma nesses estudos sagrados, mas porque a sua alma busca outro ramo. Tivesse ele achado o seu papel — ocupar-se do ramo que convém à sua alma —, permaneceria fielmente devotado à Torá, prosperaria nele, e ainda ajudaria os que têm a mão mais forte na halachá, dando-lhes a provar a doçura da agadá. Mas, como não reconhece a causa do seu mal-estar e se força contra a sua natureza, no momento em que se lhe abrem caminhos de licenciosidade, rompe e torna-se inimigo da Torá e da fé, indo de mal a pior. E, na divisão dos vários ramos conforme as várias índoles, há também quem tenha forte inclinação para certas ciências: esse igualmente deve seguir a sua inclinação interior e fixar tempos para a Torá; e ambos prosperarão na sua mão —
Uma pedagogia da individualidade, rara e generosa. Forçar uma pessoa contra a sua índole — obrigar o de vocação contemplativa a viver só de minúcias, ou vice-versa — não a aproxima da Torá; gera resentimento, e pode até afastá-la de tudo. O remédio não é estudar "menos", mas estudar o que é seu. Cada alma tem o seu ramo na Torá — e floresce quando o encontra.
Estudar por amor, não por vaidade
No estudo prático das leis está embutido um "orvalho de vida" oculto — os propósitos que há no íntimo da ação —, e a alma nutre-se desse esplendor no seu estudo. Mas, se o estudo é não-lishmá, em nome da vaidade e da contenda, o pensamento esvazia-se, as coisas ficam secas e, por vezes, cheias de um veneno interior. E, contudo, mesmo num pensamento ainda tosco pulsa alguma seiva de vida, conservada na medida em que o próprio estudo não foi desviado da busca da verdade e da retidão. É a torção do intelecto que arrasta consigo os tropeços do coração e a secura da alma. Mas, às vezes, tudo retorna ao bem, se o amor pela santidade do estudo se tornar a força que age sobre o sentimento.
E quando ao pilpul se mistura o desejo de alegrar-se com a discussão da Torá, isto não se chama, D'us nos livre, "Torá não-lishmá": pois a própria alegria, e o afastar a tristeza, são também uma grande mitzvá — incluída na "melhoria das qualidades", que é a virtude própria da Torá. Por isso, quem quer apegar-se à Torá lishmá e brilhar no pilpul das finezas práticas precisa aprofundar o seu sentimento sagrado pelo valor da Torá, até que esse sentimento geral ganhe tamanha força que dê vida até aos "ramos distantes" gerados pela agudeza do pensamento — de modo que também eles sejam atraídos pela ideia sagrada da Torá lishmá.
Note-se o equilíbrio: a alegria de raciocinar não é vaidade — é, ela mesma, uma mitzvá. O Rav Kook não pede um estudo sombrio e penoso; pede um estudo cuja agudeza esteja ancorada no amor. Quando o sentimento pela santidade da Torá é forte, até as elaborações mais técnicas e "distantes" do pilpul ficam ligadas à sua raiz — o estudo por amor.
Um plano de estudo
Os estudiosos cuja Torá é o seu ofício devem ter o caminho claro diante de si e o alvo bem definido, para que o espírito seja firme e a mente serena. Grande é o princípio que dá repouso ao coração:
Assim a pessoa ocupa-se de cada assunto com tranquilidade, sem que a angústia de uma completude impossível a impeça de encontrar prazer no seu trabalho. Ainda assim, deve traçar para si um caminho em que o panorama geral esteja à vista — tanto nas ideias quanto no lado prático, abrangendo, quanto possível, a soma de toda a Torá prática. Pois o dito "não há fim para a Torá" aplica-se só sob certas condições; na verdade, indo pela via reta, é possível abarcar um panorama claro de todo o lado prático.
Os grandes não precisam de explicações; os medianos precisam de ajuda. Depois de chegar a uma boa compreensão da profundidade da halachá — pela convivência com os sábios —, até saber estudar cada sugiá e levantar perguntas e respostas, deve primeiro abranger todas as leis do Rif (Rabi Yitzchak Alfasi) no seu sentido simples, com boa fluência (bekiut), o que se alcança com regularidade calma. Este trabalho é muito agradável, pela imagem deleitosa do panorama: conhecer a soma de todas as leis, o mais perto possível da sua fonte no Talmud, até que, da reunião dos detalhes, se erga diante dos olhos a grande beleza do edifício de toda a Torá prática. A isso junte porções da Torá escrita; tempos diários para a agadá, os midrashim, os livros de mussar, a filosofia e a Cabalá, guardando os graus; espaço para o pensamento próprio; uma medida fixa de estudo corrente; e tempos para aprofundar a halachá com amplitude e pilpul. E, ao adquirir fluência abrangente, multiplicará o estudo do Talmud — Bavli e Yerushalmi, Tosefta e as palavras dos Sábios. Poderá então fixar tempos também para as ciências úteis ao homem no mundo, que alargam a mente e dão força para a vida — e será bem-aceito pelas pessoas, e achará graça aos olhos de D'us e dos homens.
Quanto mais claras [bem elucidadas] estão as leis, mais elas alegram o coração de quem as cumpre. A falta dessa clareza traz uma sensação de peso, e disso pode nascer um tremor de fraqueza que leva — D'us nos livre — ao desdém da Torá. Mas, para quem tem entendimento amplo, a precisão não oprime; pelo contrário, a precisão é fruto da perfeição — assim como o rigor da gramática corresponde à perfeição de quem fala bem a língua. Por isso é grande dever ocupar-se da Torá lishmá no esclarecimento da lei (libun hilchetá), até que ela fique "clara como uma túnica", estudando os pormenores a partir do deleite do intelecto supremo. E esta é uma condição preciosa entre os quarenta e oito modos pelos quais a Torá se adquire: "na alegria, na pureza".
O plano é notavelmente equilibrado: primeiro a largura (bekiut — abranger o todo, começando pelo Rif), e sobre ela a profundidade (iyun, pilpul). E não só halachá: Bíblia, agadá, mussar, filosofia, Cabalá, pensamento próprio — e até "as ciências úteis ao homem no mundo". Tudo coroado por uma exigência de clareza: a lei bem elucidada alegra; a lei obscura pesa. Estudar bem é estudar com alegria e com precisão — que, longe de oprimir, é o próprio sinal da perfeição.
A coragem de inovar
Assim como, no mundo sensível, as criaturas surgem por combinações — umas naturais, outras feitas pela arte —, também em todos os conceitos do intelecto há combinações naturais e combinações intelectuais; e a força criadora pode crescer sem fim, para multiplicar vida e bem. Por isso é muito louvável aquele que inova (mechadesh) à maneira da Torá — contanto que pela via de D'us, em acordo com a retidão do intelecto e a boa moral, cujo conjunto é a verdadeira reverência a D'us, "o princípio do conhecimento". É preciso compreender que os princípios, com todas as suas derivações, são, quanto à força divina que neles há, uma só criação dotada de membros, que pela multiplicação das suas partes cresce em perfeição. E, às vezes, contra a liberdade de inovar levanta-se uma força de "temor vão" (yirat shav), que pretende guardar o bom fundamento; mas é preciso vencê-la e caminhar com amplitude — pois, firme a pessoa sobre o bom fundamento, tudo o que buscar fará "crescer a Torá e engrandecê-la". E do mesmo modo se deve inovar, como convém, em todas as descobertas do mundo, nas coisas naturais e nas artes — pois "tudo fez o Senhor para o seu fim" —, amando as criaturas e desejando o seu aperfeiçoamento; e esta atitude conduz ao amor de D'us.
Eis o Rav Kook racionalista e afirmador do mundo: a Torá é viva, e renová-la (com retidão e moral) é mérito, não ousadia indevida. Há um "temor vão" que se disfarça de piedade e trava o pensamento — e que se deve vencer. E o mesmo vale para a ciência e as artes: investigar a natureza, criar, aperfeiçoar o mundo é serviço divino, "pois tudo fez o Senhor para o seu fim". Amar as criaturas e querer o seu bem é um caminho para o amor de D'us.
Quando o detalhe parece pequeno demais
Por vezes a alma, apta a grandes contemplações, entristece-se ao ocupar-se dos detalhes das leis, e sente os seus "estreitos", como que aprisionada neles. Mas a sua cura não vem por abandonar a Torá prática, e sim por preparar o espírito para elevar o valor de cada detalhe à riqueza da sua fonte espiritual, abrangente e geral. Essa elevação dá-se, às vezes, por um lampejo do intelecto; às vezes, por um sentimento interior profundo que se ramifica das irradiações do conhecimento de D'us; e, às vezes, pelas duas forças juntas, que "regam" os detalhes práticos até que se encham de seiva e deleite — de modo que a alma, ao ocupar-se deles, não fique desolada, mas se alargue e se refine.
Às vezes, ao estudar coisas pequenas com uma exaltação tão grande que a sua marca na alma age como se aquela coisa pequena fosse a mais alta de todas, o entendimento "corporifica-se", e as asas do espírito ficam cortadas. A orientação reta é estudar cada assunto com a exaltação da alegria, que tem um sentimento duplo: o de uma grandeza suprema (pois cada pequeno ramo espiritual completa toda a árvore da vida, e por isso tudo é grande) e o de que, na própria particularidade de cada saber — sobretudo o da Torá —, há um valor muito positivo, digno de ser estimado com alegria honrada conforme a sua medida.
Pois, embora o mundo inteiro esteja cheio da luz de D'us — para os de coração reto que se deleitam na sua doçura —, ainda assim a nascente da luz fundamental está guardada na Torá. Por isso, quem caminha estudando e interrompe o seu estudo para dizer "que bela é esta árvore, que belo é este campo", a Escritura o considera "como se atentasse contra a própria vida" (Avot 3:7) — porque, no fim, de todo o mundo brilha uma luz de vida, mas da Torá jorra a "luz de vida da própria vida", e não se abandona uma santidade original e densa para tomar, em seu lugar, uma santidade leve e derivada.
O conselho para a alma "grande demais para os detalhes" é fino: a cura não é fugir da minúcia, mas elevá-la — ver, em cada lei pequena, a sua fonte luminosa. E a chave é a alegria, com a sua "dupla face": o pequeno é grande (porque completa o todo) e o pequeno vale por si (porque é uma peça real do edifício). É o mesmo ensino do capítulo sobre o todo e o detalhe — aqui, transformado em conselho prático para a vida do estudante.
O caminho de quem busca a D'us
Diz-se que "só passeia no pardes [o pomar da especulação divina] quem encheu o ventre de carne e vinho" — isto é, quem já dominou a halachá. Mas isso vale para quem vem cumprir apenas o dever da lei. Já quem sente no coração o anseio de estudar as coisas interiores, para compreender a verdade de D'us, está incluído em:
— pois decerto tem para isso um talento especial, e isto mesmo prova que é vontade de D'us que ele se ocupe do conhecimento do seu Nome. E mais: para aquele que percebe que esses assuntos estabelecem nele a reverência, e que sem eles ela lhe faltaria, eles são a própria "carne e pão" — e não se incluem no "passeio pelo pardes". Por isso, quem sente o intelecto e a inclinação verdadeiramente voltados para conhecer a D'us deve ser firme no seu caminho: que fixe tempos para o sentido simples da Torá e das suas leis, mas que a sua ocupação principal, em profunda alegria, seja naquilo que a sua alma anseia — o conhecimento do Nome divino. E, se vir que a maioria não se conduz assim, saiba que para eles é adequado não se lançarem ao sagrado antes de subirem por graus; isto não é superioridade nem vaidade, mas aspectos distintos das almas. Quem é levado pelo coração às coisas elevadas não se assuste: saiba que esta é a sua obrigação, e que, sem um olhar particular para o que a sua alma lhe pede, nem o caminho comum lhe será pleno.
E, segundo a via dos contemplativos, o clássico Deveres do Coração ensinou que os antigos valorizavam imensamente o seu tempo, evitando deter-se nas questões miúdas: punham o essencial da atenção na generalidade do serviço divino e na pureza das ideias, e, quando precisavam decidir um caso prático, faziam-no com brevidade, pelos fundamentos que tinham. Assim também o Rambam ordenou ao seu discípulo, por carta, que, ao abrir uma yeshivá, se ocupasse do Mishné Torá e da obra do Rif, e só em caso de dúvida recorresse ao Talmud. E não temiam não saber "deduzir uma coisa de outra", porque o endireitar do intelecto, vindo da contemplação elevada — da fonte da reverência clara a D'us —, endireita o raciocínio ainda mais do que a ocupação com os pormenores das discussões. Os jovens, e os que ainda não chegaram a essa medida, precisam mais do trato particular das discussões; mas os estudiosos amadurecidos, que queiram dedicar-se à depuração das ideias e das qualidades, devem ser fortes em repetir as leis pelas fontes mais claras, sem se prenderem demais às minúcias — para que a sua grande alma não sinta a dor do apequenamento das suas luzes. E, com a fluência e a revisão constante, subirão a um grau elevado também na retidão da halachá, até "que em todo lugar a lei seja como eles, pois D'us está com eles".
O fecho do capítulo é uma das passagens mais ousadas — e mais "racionalistas" — do Rav Kook. Para quem é assim chamado, conhecer a D'us pela razão não é um luxo a ser adiado até "encher o ventre" de halachá: é "a própria carne e pão", o centro do estudo. E ele ancora isso nos maiores: o Deveres do Coração de Bachya ibn Pakuda e a célebre carta do Rambam, que punham a contemplação dos fundamentos acima da erudição casuística — porque a mente iluminada pela reverência clara raciocina melhor do que a mente afogada em detalhes. É o coração da tradição racionalista, posto como conselho de vida.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 9 — "Os caminhos da Torá e os seus atalhos". O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se o capítulo inteiro (treze seções); buscou-se preservar a força do original, e alguns períodos longos foram organizados para a leitura. As citações remetem a Pirkei Avot (2:2; 2:16; 3:7), ao Talmud (Avodá Zará 19a), ao Deveres do Coração de Bachya ibn Pakuda e a uma carta do Rambam. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.