Há, na tradição, uma Torá "revelada" (a lei, o estudo, o debate) e uma Torá "oculta" (a sua dimensão interior e contemplativa). O capítulo 10 de Orot HaTorah trata desta segunda — mas de um modo que talvez surpreenda: o Rav Kook insiste que os segredos só se abrem, sem se corromper, a quem os procura com razão, conhecimento e humildade. O que segue é uma tradução inédita ao português do capítulo inteiro (dezessete seções), a partir do hebraico original (de domínio público).
Quando estudar os segredos
Quando é bom estudar os segredos da Torá? Quando o anseio interior pela proximidade de D'us é forte, eleva-se e cresce, até não dar descanso à alma — e nada de espiritual e sagrado no mundo lhe sacia o desejo, nada senão o raciocínio interior que fala dos segredos do mundo. Esta é a marca de quem se ocupa da Torá lishmá (por si mesma); e sobre isso ensinaram: "todo o que se ocupa da Torá, eis que se eleva".
Nem todo momento o homem está apto a revelações espirituais supremas; e os muitos momentos em que não há iluminação suprema são justamente os que devem ser consagrados aos estudos revelados, aos corpos da lei e ao trabalho prático. Mas, quando a luz da alma irrompe, é preciso dar-lhe imediatamente a sua liberdade — que ela vá e se alargue, imagine, conceba, compreenda e alcance; que o homem aspire e anseie pelas alturas das alturas, à fonte da sua raiz, à vida da sua alma, à luz da vida da alma de todos os mundos, à luz do D'us supremo, à sua bondade e ao seu esplendor.
Cada alma, o seu caminho
Assim como é regra firmada que, se alguém vê que o seu êxito está na espiritualidade da Torá e na sabedoria da verdade, e lhe é difícil o estudo haláchico, então o seu dever interior é consagrar a parte mais essencial do seu tempo àquele estudo que convém ao seu espírito — assim também, se alguém vê que o estudo dos segredos o santifica, eleva o seu espírito e o aproxima da santidade, ao passo que do estudo revelado não colhe esse fruto precioso, então é prova plena de que a sua correção está no estudo desta parte, a luz interior da Torá. E, quando sentir em si tal polimento e pureza que mesmo o estudo revelado o anime no grau da santidade, poderá alargar o seu âmbito, até cumprir bem a sua tarefa — e tudo em nome do Céu, com intenção pura.
Mesmo que existam homens grandes em Torá, em reverência e em sabedoria, a quem os segredos não tocam — pela própria grandeza, por terem riqueza farta nos tesouros revelados —, nem por isso desanime o coração daquele que sente em si um senso interior e a pressão de um anseio da alma pelos caminhos dos segredos. Pois, ainda que esse anseio lhe viesse de pouco talento para os assuntos revelados — que importa? No fim, esta é a sua porção, e cabe-lhe alegrar-se com o seu quinhão:
— e diante d'Ele o nobre não tem preferência sobre o pobre.
Um princípio generoso de pedagogia espiritual: não há um único caminho de estudo para todos. Quem floresce na lei deve dedicar-se à lei; quem floresce na contemplação deve dedicar-se a ela. E o anseio pela dimensão interior não é motivo de vergonha — ainda que viesse de menos aptidão para o debate técnico, é uma porção legítima, e "D'us está perto de todos os que o invocam em verdade", sem distinção entre o erudito e o simples.
Os segredos entram em todo coração
Os segredos da Torá, por virem de uma fonte suprema — do recôndito poderoso da interioridade da alma, "porção de D'us lá do alto" —, podem entrar em todos os corações, mesmo nos que não chegaram a uma mente ampla, a um saber largo e profundo. E quando essas pessoas usam esse seu dom, a inclinação aos segredos, junto com a consciência da sua fraqueza intelectual — que as enche de humildade —, então trazem bênção ao mundo, e revelam, no seu desejo puro, uma grande luz do conhecimento dos santos, não tocada por nenhuma das doenças que há nos estreitos da sabedoria humana. Mas, se não reconhecerem a sua falha, e em vez disso se exaltarem com soberba — como se todos os segredos lhes fossem manifestos —, então corromperão o calor do sentimento, e não terão força para revelar as pérolas sagradas do abismo da alma, que só se revelam aos de espírito contrito e aos humildes da justiça.
Mesmo quem não é capaz de representar no intelecto a finura dos assuntos sublimes pode, ainda assim, sentir o sentimento geral e a delícia da alma — pela própria natureza da alma que entende e pelo senso de fé inato. E o uso do intelecto poderá, para ele, servir apenas para purificar os conceitos, de modo que não produzam efeitos enganosos, contrários à opinião límpida e à fé pura. E então permanecerão nele os traços espirituais como pensamentos que elevam o espírito à esfera divina suprema, fonte da felicidade e do esplendor da alma, para o indivíduo e para a coletividade.
Eis um traço raro do pensamento do Rav Kook: a Torá interior não é um clube de eruditos. Por brotar do fundo da alma — e não da erudição —, ela pode tocar qualquer coração sincero, mesmo o do simples. Mas há uma condição inegociável: a humildade. Usada com a consciência da própria pequenez, ela traz bênção; usada com arrogância ("eu domino os segredos"), apodrece. E ao intelecto cabe um papel de guardião: purificar as imagens, para que a devoção não vire ilusão.
Mas a razão vem primeiro
Há um grande defeito nos estudiosos comuns da Cabalá: não percorrerem primeiro, com o intelecto, as fontes da Torá, para compreender as coisas divinas. Em vez disso, empanturram-se de alusões e códigos escritos nos livros — e com isso o intelecto não se eleva; apenas um sentimento embotado brilha dentro deles. Mas não é aí que está o repouso: só depois de o homem percorrer com o intelecto o caminho de conhecer a D'us, juntando a isso uma dedicação adequada às parábolas e enigmas dos sábios sobre os segredos, em todos os seus detalhes — só então ele se eleva, e o mundo inteiro se eleva com ele.
Às vezes a pouca [verdadeira] inteligência leva o homem aos estudos ocultos — não porque o oculto combine com a ignorância, mas porque a centelha intelectual suprema fica escondida pela falsa esperteza. Quando se apaga a luz baça e enganadora dessa esperteza, desperta o anseio da centelha suprema do intelecto. Mas ele não chega à sua plena solução senão quando volta a aprofundar-se na sabedoria, no conhecimento e no talento; então alcança a medida de conhecer o valor — e também a fraqueza — da esperteza humana, e a sua inclinação resta voltada apenas para a ligação com o Intelecto supremo, que brota do esplendor divino.
Pois os segredos da Torá esclarecem-se por meio de todas as sabedorias do mundo e pela reverência natural ao Céu — aquela que está belamente explicada no clássico Deveres do Coração. E esse fundamento de baixo é a matéria apta a receber as formas mais elevadas, vindas da santidade do alto.
Este é o coração racionalista do capítulo — e o que torna o Rav Kook herdeiro de Saadia e do Rambam. O misticismo desligado da razão, adverte ele, não passa de "um sentimento embotado": decorar códigos e gematrias sem antes conhecer a D'us pelo intelecto não eleva ninguém. O caminho correto inverte a ordem usual: primeiro a razão e a "reverência natural" (a do Deveres do Coração, de Bachya ibn Pakuda, lido na chave filosófica); só sobre esse alicerce as formas mais altas se assentam. A fonte oculta dá água limpa — mas só a quem cavou o poço com a razão.
A fonte que sacia
A fonte suprema — manancial de verdade infinita, beleza sem fim, força sem limite — corre e jorra na nascente dos segredos da Torá. E quando a alma está exausta de todos os estreitos das ciências do finito, das aspirações presas a limites apertados, então encontra refúgio à sombra fresca do raciocínio dos segredos do mundo e das maravilhas sagradas. E, de entre os montes escarpados que parecem ásperos rochedos — combinações de números, cálculos de gematrias, alusões de Nomes, correntes de Escritura, halachá e agadá —, nasce o sol em toda a sua força, para ser justiça e cura; eis que aparece, e todos os que para ele olham resplandecem, e voltam a viver:
Feliz de todo aquele que prova o sabor do Éden de D'us e dos seus rios de delícia, do favo de mel dos segredos sagrados. Pois eis uma das maravilhas deste estudo: quando o homem estuda estes assuntos elevados com amor e sentimento interior, ainda que não consiga apreendê-los com clara compreensão, mesmo assim eles elevam todo o seu ser; e depois lhe irradiam a sua luz, até que rios de sabedoria se espalham sobre ele — e, pela própria obscuridade interior, ele acrescenta intelecto límpido e pensamento claro. E quando se contemplam os puros segredos com coração fiel, embora as coisas se representem pela imaginação, depois elas se explicam por todos os caminhos do intelecto e concordam com a lógica límpida — e, contudo, permanecem sempre maiores do que todas as explicações, tornando-se a fonte de onde brotam todos os rios da lógica.
O esforço que parece descanso
Estudar os ocultos sem [plena] explicação, mas com coração bom e fiel, é como a descida das chuvas por meio das nuvens — e "difícil é o dia de chuva como o dia do juízo" —, mas depois é grande a abundância de bênção que daí sai, "dos preciosos frutos trazidos pelo sol, e das dádivas das luas" (Devarim 33:14). E as pausas em alguma forma de estudo aplicado, que vêm da pureza da alma e da sua saudade de imagens espirituais supremas, não contam como interrupção da Torá: são antes um grau elevado pelo qual se sobe à Torá suprema — à medida de Rabban Yochanan ben Zakkai, que nunca o encontraram sentado em silêncio, mas sentado e estudando, mesmo quando ocupado numa coisa grande como o Ma'asé Merkavá.
E quem tem dificuldade de estudar os detalhes revelados por causa do seu anseio supremo pelos princípios gerais e ocultos — ainda que essa dificuldade venha da elevação da alma — deve, mesmo assim, vencer também esse obstáculo. Pois, ao subjugar uma "boa inclinação" dessas, que vem de um grau superior, ele subjuga a medida do juízo na sua raiz, e multiplica em todo o mundo a bondade e a misericórdia supremas — que se revelam a toda criatura, para alegrar todas as obras, salvar todos os oprimidos, e abrir as portas do retorno a todos os distantes e desesperados.
Por que o mundo precisa da Torá oculta
Vemos que, quando se olha para o mundo julgando-o só pela influência das partes reveladas da Torá, sem a influência da "Torá de bondade" que brota da fonte do entendimento divino oculto, cresce enormemente a medida do juízo — o ódio às criaturas e o desespero de todo lado; e não há como manter-se firme, com a alma temperada de santidade, numa geração em que ocorrem muitas brechas, senão pela junção do rigor que sobe da Torá revelada com a bondade e a luz do rosto da Torá oculta. Pois então as bondades e os rigores se mesclam, e chegam a um doce equilíbrio.
E até a própria ousadia que marca os "calcanhares do Mashiach" — a geração turbulenta que precede a redenção — tem o seu papel: sem ela não seria possível explicar os segredos da Torá em plena revelação; só pelo adensamento dos sentimentos torna-se possível receber iluminações intelectuais muito elevadas. E, no fim de tudo, tudo voltará a uma correção completa.
O fecho do capítulo é, no fundo, uma defesa do equilíbrio. A Torá revelada, sozinha, tende ao rigor — e o rigor sem amor azeda em julgamento, em desprezo e em desespero diante de um mundo cheio de falhas. A Torá oculta é "Torá de bondade": ela traz a luz que adoça o juízo. As duas, juntas — a exigência e a compaixão, o rigor e o amor —, é que tornam a santidade habitável. O segredo, no fim, não afasta do mundo: cura-o.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 10 — "Os segredos da Torá e os seus mistérios". O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se o capítulo inteiro (dezessete seções); buscou-se preservar a força e a imagística do original, e alguns períodos longos foram organizados para a leitura. Os versos citados são de Tehillim 25:14 e 145:18, Malachi 3:20 e Devarim 33:14; a referência aos "Deveres do Coração" remete à obra clássica de Bachya ibn Pakuda. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.