A Torá pode parecer uma multidão de coisas dispersas: narrativas, leis, debates, pormenores. O Rav Kook, em Orot HaTorah, ensina a ver o contrário — uma unidade profunda, em que tudo é expressão de uma só luz. E daí extrai uma ideia de largueza surpreendente: todo bem e toda sabedoria, onde quer que se encontrem, refletem essa mesma luz divina. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).
Uma só voz por toda a Torá
Toda a Torá — a grande percepção da meta divina que há nela, na profecia e no espírito de santidade — conduz o pensamento a contemplar a sua unidade. Assim, os Profetas e os Escritos estão incluídos na Torá, e a Torá permanece inteira e unificada na sua santidade suprema, na voz do D'us vivo — de modo que todo aquele cuja alma está viva escuta essa grande voz, que perpassa toda a Torá. E sabe-se que "a Torá do Eterno é perfeita" (Tehilim 19:8), e que a luz do D'us Uno nela aparece com clareza, "fogo negro sobre fogo branco".
Está-se seguro de que toda a Torá é apenas um Nome do Santo, bendito seja — um só Nome, uma só palavra, um só dito, fora do qual nada há, e no qual tudo está contido.
Todo bem e toda sabedoria são luz divina
Toda a Torá são os Nomes do Santo, bendito seja. Toda boa qualidade de caráter e todo derech eretz [boa conduta] estão incluídos na Torá; toda sabedoria está nela enraizada; e em todo lado bom que há no ser humano ou numa coletividade, ali brilha o Nome do Santo, bendito seja. Há, porém, diferença entre quem sabe que tudo é luz que cintila do Nome de D'us e quem não o sabe — mas essa diferença é apenas de grau. A essência da coisa depende da interioridade do ponto da vontade: de quanto ela está firmada no lado do bem — pois só aí repousa a luz [divina], que se reveste no fundamento de tudo, na sabedoria e na bondade, para completar tanto a visão ideal da existência quanto a sua realidade concreta — sendo esta a realização daquela.
Eis uma das ideias mais largas do Rav Kook, e profundamente afim ao espírito racionalista: todo bem genuíno e toda sabedoria verdadeira — em qualquer pessoa, em qualquer povo — são faíscas da mesma luz divina. O que distingue o sábio não é possuir um bem que os outros não têm, mas reconhecer a sua fonte. É o mesmo princípio do Rambam — "aceita a verdade de quem quer que a diga" —, e da afirmação de que os justos de todas as nações têm parte no bem do mundo. A verdade e a bondade não têm dono.
A luz no menor detalhe
Cada coisa da Torá brota de toda a Torá inteira — da Torá escrita e da oral, de todo bom estudo, de toda mitsvá e de toda boa qualidade. Há diferenças entre os graus; mas o amor e a alegria no cumprimento das mitsvot e no estudo da Torá por si mesma devem ser amor pelo Todo — amor por toda a luz, a vida e a santidade que estão guardadas dentro daquele detalhe particular de que a pessoa se ocupa, e que vêm à tona, através dele, em toda a imensidão do seu esplendor.
Em cada coisa da Torá, em cada lei particular, brilha a luz suprema e ilimitada. A moral divina absoluta é haurida de cada lei particular. E, para quem contempla — habituando a sua alma à irradiação dessa luz —, revela-se em cada lei o seu conteúdo interior, cheio do mundo do esplendor; a ponto de, sobre cada lei e cada capítulo, poder-se entoar um cântico novo, cheio de sentido — que se derrama até sobre cada pormenor do debate, até que uma leitura poética, que deleita e enleva, possa estender-se sobre toda a Torá, mesmo a prática e a legal.
E quando se estuda em santidade e elevação de alma, desenha-se diante de nós a amplidão de toda a Torá: como ela sai da fonte da sua santidade, e como todas as leis particulares se ramificam — qual ramos de uma só luz de vida — da fonte de vida que a todos nutre.
Há aqui uma resposta luminosa a quem vê na lei judaica apenas regras áridas. Para o Rav Kook, cada lei é uma janela: olhada com atenção, abre-se para a "moral divina absoluta" e para a luz infinita. Estudar não é decorar normas, mas ouvir o cântico que cada detalhe entoa — descobrir, no particular, o universal que ele guarda (cf. "Torá Lishmá").
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 4 — "Toda a Torá". O original hebraico (vocalizado) é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. É um texto denso e de imagens místicas ("fogo negro sobre fogo branco"); buscou-se preservar o seu sentido e a sua força. As notas destacam o seu núcleo universal — que todo bem e toda sabedoria refletem a mesma luz. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.