Orot · As Luzes do Rav Kook

Fazer e Ouvir: a ação e o estudo

No Sinai, Israel disse "faremos e ouviremos" — o agir antes do compreender. O Rav Kook lê nisso uma chave: a Torá vale tanto pela sua utilidade prática quanto pelo seu valor em si; e o judaísmo busca unir o cotidiano e o sublime — sem atalhos para as alturas.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot HaTorah · cap. 8 Tradução inédita · PT-BR

Quando receberam a Torá, os israelitas responderam com duas palavras que a tradição nunca cansou de meditar: naaseh ve-nishma, "faremos e ouviremos" — pondo o agir antes do entender. Em Orot HaTorah, o Rav Kook extrai disso uma lição sobre a relação entre a ação e o estudo, entre os meios e o fim. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Dois valores da Torá

נַעֲשֶׂה וְנִשְׁמָע "Faremos e ouviremos." Shemot 24:7

O estudo e a ação — "faremos e ouviremos". Pôr o "faremos" antes do "ouviremos" assinala a valorização da Torá pela sua preciosidade divina [intrínseca], acima do quanto ela merece ser valorizada pela utilidade prática que há no seu estudo. Pois, uma vez dito "faremos", o vínculo com o valor do estudo prático já está incluído; e o "ouviremos" assinala o vínculo com o valor intrínseco da Torá — o seu valor em si mesma.

[Os comentadores discutem o sentido exato de "guardareis e fareis" (cf. Devarim 4:6): para uns, "guardar" é o estudo e "fazer" é pô-lo em prática; para Rabbenu Chananel, o próprio estudo já inclui a conclusão prática, e "fareis" se refere ao próprio ato. De um modo ou de outro, o estudo e a ação aparecem entrelaçados.]

Unir o cotidiano e o sublime

O profundo espírito sagrado do judaísmo — que se empenha por igualar, na prática, a vida do dia a dia à vida ideal e nobre — é a força anímica que fecunda as leis (halachot) e os seus pormenores, e que dá vigor ao estudo aprofundado que alarga as suas fronteiras nos domínios práticos da vida.

Aqui está uma das marcas do pensamento do Rav Kook: o judaísmo não quer fugir do mundo prático em nome do ideal, nem rebaixar o ideal ao prático — quer uni-los, fazendo da vida cotidiana a própria expressão do sublime. A lei miúda e o anseio mais alto não são rivais: a primeira é o corpo em que o segundo se realiza (cf. "A Sede do D'us Vivo" e "A Santidade do Corpo").

Todos os conhecimentos espirituais da Torá são como fronteiras assinaladas, às quais se chega pelo esforço com os meios que a elas conduzem, segundo as preparações devidas. E quem quiser alcançá-los sem atenção ao fundamento das preparações trará para si, em lugar de verdades, meras fantasias:

טָמַן עָצֵל יָדוֹ בַּצַּלָּחַת גַּם אֶל פִּיהוּ לֹא יְשִׁיבֶנָּה "O preguiçoso enfia a mão no prato, e nem à boca a leva de volta." Mishlei 19:24

Por que a Torá insiste nos "meios"

O que há de admirável não está propriamente em atingir o fim da perfeição espiritual, mas no modo de chegar a ele, pelos caminhos adequados. Por isso o homem precisa esclarecer para si quais são esses caminhos — os que mantêm as suas concepções interiores num bom nível e fazem elevar-se todos os seus atos, desejos e sentimentos — e a eles apegar-se. Assim também no estudo da Torá, necessário como o pão para o corpo, e em especial no seu lado teórico, que é o principal a elevar a alma.

E, no entanto, a Torá não podia declarar abertamente que o lado teórico é o principal. Pois a ênfase sobre os meios — que parecem inferiores ao fim — precisa de reforço maior do que a ênfase sobre o próprio fim; porque, por natureza, a alma é atraída para o fim mais do que para os meios. Por isso a exortação moral e a orientação geral (o fim) puderam ser reveladas por todos os profetas; mas as coisas práticas da Torá — os meios que preparam para o fim — tiveram de ser reveladas precisamente pela profecia de Moshé, mestre dos profetas. [Do mesmo modo, a vida do mundo vindouro é apenas aludida, e não detalhada: a sua força de atração é tão grande que, explicitada em excesso, sufocaria outras motivações também valiosas — o bem do todo e do indivíduo já neste mundo, e o amor de D'us por si mesmo, que está acima de tudo.] E é justamente por esse equilíbrio que a Torá se sustenta devidamente em Israel e brilha com a sua grande luz.

A maravilha não está só em chegar ao alto — está no caminho por onde se sobe.

O valor próprio do estudo

No estudo há dois tipos. Há aquele cujo valor é grande porque o seu tema é, em si, importantíssimo — como a contemplação de D'us, da alma e do intelecto, e de outros assuntos sublimes. E há aquele cujo tema não tem valor próprio elevado, mas é importante pela utilidade que dele resulta. E há ainda um terceiro: trazer ao campo do conhecimento tudo o que for possível — pois alargamos o intelecto ao acrescentar qualquer saber; por isso há coisas sem grande valor próprio que, ainda assim, vale a pena conhecer, pelo proveito de exercitar a mente e completar o saber. Mas não se devem confundir umas com as outras.

Assim também nas partes do estudo da Torá: há matérias cujo estudo é, em si, um grande fim; há matérias cuja investigação vale ainda mais do que a sua aplicação prática, pelo próprio trabalho do intelecto; e todo assunto da Torá — até um pormenor leve ou uma conduta correta — tem valor importante. E, se mesmo nos estudos seculares (os detalhes da história, o conhecimento de línguas antigas) cada parte acrescenta ao "esplendor do intelecto", quanto mais cada pormenor da nossa Torá inteira — quão precioso e querido ele deve ser.

Note a abertura intelectual do Rav Kook: ele valoriza não só o estudo dos temas sublimes, mas também o conhecimento "útil" e até o saber que serve apenas para exercitar e alargar a mente — incluindo as ciências e as letras seculares. Para ele, todo conhecimento verdadeiro acrescenta ao "esplendor do intelecto"; e o estudo da Torá, longe de fechar a mente, é a coroa de uma vida de aprendizado (cf. "Torá Lishmá").

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 8 — "O estudo e a ação". O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Uma breve passagem exegética (§2, sobre Rashi e Rabbenu Chananel) e a digressão sobre o mundo vindouro (§5) foram condensadas, preservando-se o argumento. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.