Orot · As Luzes do Rav Kook

A Torá que Transforma a Pessoa

A Torá não é só um conhecimento a adquirir — ela age sobre quem a estuda. Para o Rav Kook, ensina a confiar na própria vida, traz humildade, refina o caráter, e é o remédio que não destrói o mau impulso, mas o converte em bem.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot HaTorah · cap. 11 Tradução inédita · PT-BR

Estudar não muda apenas o que sabemos — muda quem somos. Neste capítulo de Orot HaTorah, o Rav Kook descreve a ação da Torá sobre a alma: como ela funda a confiança em si, ensina a humildade, purifica o caráter e dá conta do mau impulso. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Crer na própria vida

O homem reto precisa crer na sua [própria] vida. Isto é: crer na sua própria vida e nos seus sentimentos que seguem o caminho reto, desde o fundamento da sua alma — [crer] que são bons e retos, e que o conduzem por um bom caminho. A Torá deve ser uma lâmpada para os seus pés, pela qual ele veja onde o erro pode espreitar — pois, às vezes, a alma se extravia num caos sem rumo. Mas o estado constante deve ser a confiança da alma. O homem de Israel é obrigado a crer que uma alma divina habita nele; que toda a sua essência é uma letra da Torá — e uma letra da Torá é um mundo inteiro, que se multiplica sem medida.

Esta é uma das frases mais libertadoras do Rav Kook: "crer na própria vida". A religiosidade pode adoecer quando vira desconfiança de si — suspeita de cada impulso, culpa constante. O Rav Kook inverte isso: a postura normal do homem reto é confiar que a sua alma, no seu fundamento, é boa e o guia bem; a Torá é a lâmpada que mostra onde o erro espreita, não uma fonte de autocondenação. Cada pessoa carrega "uma letra da Torá" — um valor infinito e único (cf. "À imagem de D'us"). Conhecer-se com confiança é parte de servir a D'us.

A humildade que recebe

A Torá faz descer o mundo espiritual até o ser humano, e com isso todos os deleites supremos se lhe abrem — e esta é a felicidade do homem e a finalidade da sua criação. Mas, para que o mundo espiritual desça até ele, é preciso que ele sinta que lhe falta; e é este o sentido de "[habito] com o contrito":

אֶת דַּכָּא וּשְׁפַל רוּחַ "...[habito] com o contrito e humilde de espírito." Yeshayahu 57:15

Por isso o Santo, bendito seja, preteriu todos os montes e colinas do mundo e não fez repousar a Sua Presença senão sobre o monte Sinai — e nem sequer o Sinai era alto. [A grandeza espiritual repousa sobre a humildade, não sobre a soberba.]

A Torá refina o caráter

Quando o homem está próximo, no seu espírito e nos seus pensamentos, da Torá, iluminam-no as luzes supremas, e as suas qualidades e toda a sua índole se elevam, enchendo-se do esplendor de uma vida superior; e sentimentos de uma delicada proximidade de D'us o animam. Por isso deve cuidar em todos os seus caminhos e atos, nas suas palavras e nos seus gestos, para que nada de mau saia da sua mão e não se erga uma barreira entre ele e a luz suprema.

Pois a Torá purifica as qualidades de caráter e todas as disposições do corpo e da alma: pelo estudo, a vida anímica recolhe-se à fonte da retidão viva e divina — a raiz da Torá —, e ali adquire a natureza elevada e santa do seu próprio ser; e, ao voltar a operar no corpo, retorna com grande abundância de nobreza e delicadeza, e os seus efeitos práticos fazem-se abençoados e refinados — "não é a Minha palavra como o fogo?, diz o Eterno" (Yirmiyahu 23:29). E [a Torá] conduz à humildade — pois "sinal de arrogância é a pobreza de Torá"; e [os Sábios] ensinaram que não é igual quem revê a sua lição cem vezes a quem a revê cento e uma (Chaguigá 9b): o pouco a mais faz a diferença.

O remédio para o mau impulso

E é justamente a Torá o "tempero" [o remédio] para o mau impulso (yétzer hará) — não qualquer outra compreensão do mundo, nem quaisquer sentimentos elevados: precisamente a Torá.

בָּרָאתִי יֵצֶר הָרָע, בָּרָאתִי לוֹ תּוֹרָה תַּבְלִין "Criei o mau impulso; criei-lhe a Torá como tempero [antídoto]." Talmud, Kidushin 30b

E a Torá precisa difundir-se em todas as suas dimensões; então a sua luz ilumina todas as percepções e qualidades. E o próprio mau impulso vai-se elevando, santificando-se e convertendo-se em bem — "o próprio acusador torna-se defensor", e "naquilo mesmo em que [a pessoa] se fere, ela se cura". A Torá é, assim, uma cura geral para toda a carne, que conserta a vida em profundidade.

Repare na delicadeza: o Rav Kook não diz que a Torá elimina o mau impulso, mas que o tempera — e, mais ainda, que o transforma. A energia que poderia destruir, bem orientada, torna-se força para o bem; "o acusador vira defensor". É a visão racionalista do yétzer (cf. o ensaio sobre o mau impulso): as paixões não são para serem extirpadas, mas educadas e postas a serviço — e a Torá é o que as educa.

A Torá não arranca o impulso — ensina-o; e o acusador torna-se defensor.

A sede com que a alma anseia pela sua perfeição geral aplaca-se com qualquer iluminação espiritual que sobre ela venha; mas a sede [mais] específica — a do cumprimento da própria vocação — só se aplaca pela plenitude da Torá.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTorah (As Luzes da Torá), capítulo 11 — "A ação da Torá e a sua orientação". O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Alguns trechos mais técnicos foram condensados, preservando-se as ideias centrais — entre elas "crer na própria vida", a humildade que recebe e a Torá como remédio do mau impulso (Kidushin 30b; Chaguigá 9b). Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.