No livro Orot HaTeshuvah, o Rav Kook classifica o retorno (a teshuvá) de vários modos. Num capítulo, distingue-o pela sua origem (natural, de fé, intelectual); noutro, pelo seu alvo (um pecado específico ou a alma inteira). Aqui, distingue-o pelo seu tempo: o retorno que vem de repente e o que vem aos poucos. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).
Quanto à sua duração, a teshuvá divide-se em duas: a súbita e a gradual.
O relâmpago
A súbita vem de um certo relâmpago espiritual que entra na alma: de uma só vez, a pessoa reconhece o mal e a fealdade do pecado, e torna-se outra; já sente em si uma mudança completa para o bem. Esta teshuvá vem por meio de alguma manifestação de uma virtude interior, de uma grande influência da alma, cujos caminhos é digno buscar nas profundezas do mistério.
O passo a passo
E há a teshuvá gradual: nenhum relâmpago fulgurou nela para virar, do fundo do mal, ao bem; mas a pessoa sente que precisa ir melhorando os seus caminhos e o rumo da sua vida, a sua vontade, o curso dos seus pensamentos. E, nesse seu caminhar, vai conquistando, devagar, as veredas da retidão: corrige as suas qualidades, melhora os seus atos, ensina a si mesma a tornar-se cada vez mais digna — até chegar a um alto grau de purificação e de reparo.
Os dois ritmos são igualmente verdadeiros — e o Rav Kook não exalta um à custa do outro. Há quem precise (e receba) o choque de um instante que vira a vida; e há quem cresça pela disciplina paciente de cada dia. Saber qual é o seu ritmo é uma libertação: o que muda devagar não deve invejar o relâmpago alheio, nem se acusar de "pouca fé" — o seu caminho, feito de pequenos passos firmes, chega ao mesmo cume.
A teshuvá suprema: o reencontro com o Todo
E a teshuvá suprema vem do fulgor do bem geral — do bem divino que repousa em todos os mundos, a luz da Vida dos mundos. A alma de toda a realidade desenha-se diante de nós no seu esplendor e na sua santidade, tanto quanto o coração é capaz de absorver. E, afinal, não é verdade que tudo é tão bom e tão reto? E a retidão e o bem que há em nós, não vêm justamente da nossa harmonia com o Todo? Como, então, seria possível estar dilacerado, arrancado do Todo — um fragmento estranho, separado como um pó fino que por nada se conta?
E dessa percepção — que é, na verdade, uma percepção divina — nasce a teshuvá, na vida do indivíduo e na vida da coletividade.
Aqui o Rav Kook eleva a teshuvá acima da culpa. No seu nível mais alto, voltar não é só lamentar erros: é reconhecer que a pessoa pertence ao todo do bem, e que o pecado foi uma espécie de ilusão de separação. A retidão é a nossa sintonia com a realidade; o mal, um desafinar-se dela. Por isso a teshuvá mais profunda é menos um castigo e mais um regresso a casa — o reencontro da alma com aquilo de que ela nunca esteve, em verdade, apartada.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTeshuvah (As Luzes da Teshuvá), capítulo 2 — "Teshuvá súbita e teshuvá gradual". O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. É um capítulo breve mas denso; forma uma tríade com os capítulos 1 (teshuvá natural, de fé e intelectual) e 3 (teshuvá particular e geral), também traduzidos neste site. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.