Orot · As Luzes do Rav Kook

Quando a Santidade da Terra se Turva

Por que a santidade da Terra de Israel chega a parecer, a alguns, algo "secundário"? O Rav Kook responde: pelo afastamento da dimensão interior, dos "segredos". Quando o mais profundo da vida divina é deixado de lado, falta à alma da nação a sua força maior — e o exílio passa a parecer aceitável. Ele não recusa nenhum caminho sincero de retidão; apenas a tentativa de negar essa profundidade.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · A Terra de Israel (Eretz Yisrael) · §2 Tradução inédita · PT-BR

Esta seção é o reverso da anterior. Se a santidade da Terra é uma realidade que só se sente "pelo espírito" (§1), então tudo o que afasta a alma dessa dimensão interior a deixa cega para essa santidade. O Rav Kook diagnostica esse afastamento — com cuidado para não condenar a sinceridade de quem o vive. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.

Quando se perde o segredo, a santidade turva-se

Pelo afastamento do conhecimento dos segredos [hakarat ha-razim], a percepção da santidade da Terra de Israel vem de forma turva. Pela alienação em relação ao "segredo de D'us" [sod Hashem], as qualidades supremas da profundidade da vida divina tornam-se coisas secundárias, que não entram na profundeza da alma; e, por consequência, falta a força mais poderosa na alma da nação e do indivíduo — e o exílio passa a "achar graça" por si mesmo.

סוֹד ד' לִירֵאָיו, וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם "O segredo do Senhor é para os que o temem, e a sua aliança, para lhes dar a conhecer." Tehillim (Salmos) 25:14

Pois, para quem apreende apenas a superfície revelada, nada de fundamental falta com a ausência da terra, do reino e de todos os conteúdos da nação na sua construção. O fundamento da expectativa da salvação é, para ele, como um "ramo lateral" que não consegue ligar-se à profundeza da percepção do judaísmo — e isto mesmo é o que atesta a falta de compreensão que há numa "escola" assim, pobre de seiva.

O diagnóstico é fino. Quem reduz o judaísmo à "superfície revelada" — às práticas e às ideias, sem a sua raiz interior — não sente falta da Terra: para ele, a fé funciona igualmente no exílio, e a esperança de redenção vira um "ramo lateral", um apêndice. O Rav Kook lê nisso não maldade, mas perda de profundidade: uma versão do judaísmo "pobre de seiva", em que o que havia de mais vivo foi posto de lado. A cegueira para a santidade da Terra é sintoma de uma cegueira anterior, para a dimensão dos "segredos".

O que aceitamos — e o que combatemos

Não recusamos nenhuma espécie de concepção e entendimento fundado na retidão e em sentimentos de conhecimento e de temor do Céu, em qualquer forma que seja. [Recusamos] apenas aquele aspecto em que tal escola queira negar os segredos e a sua grande influência sobre o espírito da nação — pois isto é uma calamidade contra a qual somos obrigados a lutar: com conselho e com discernimento, com santidade e com força.

Não contra a sinceridade de ninguém — apenas contra a negação da profundidade.

Eis a delicadeza com que o Rav Kook conduz a polêmica, e ela merece nota num site que também acolhe a tradição racionalista. Ele não rejeita os caminhos de "retidão e temor do Céu" — qualquer abordagem séria e honesta tem o seu lugar. O que ele combate é só a pretensão de negar a dimensão interior e mística (os "segredos") e a sua influência sobre a alma da nação. E até essa luta ele a quer travada "com conselho e discernimento, com santidade e força" — não com desprezo. É um modelo de como discordar: firme no essencial, generoso com as pessoas.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "A Terra de Israel" (Eretz Yisrael, na seção Orot me-Ofel), §2. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A citação, escolhida pelo tema do "segredo de D'us", é de Tehillim 25:14. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura; o Rav Kook defende aqui a dimensão interior (os razim) como essencial ao vínculo com a Terra, sem recusar os caminhos sinceros de retidão e temor do Céu. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.