Orot · As Luzes do Rav Kook

Orot HaMilchamá — As Luzes da Guerra

A seção mais mal-entendida de Orot, escrita em meio à carnificina da Primeira Guerra Mundial. O título engana: não é uma exaltação da guerra, mas uma tentativa de encontrar sentido na catástrofe — e, no seu coração, um ideal de poder sem crueldade.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Orot HaMilchamá (1–10) Tradução inédita · PT-BR

Esta é a seção de Orot mais citada fora de contexto. Escrita durante a Primeira Guerra (c. 1914–18), ela é, lida por inteiro, três coisas ao mesmo tempo: (1) uma teodiceia da história — a tentativa de achar a mão oculta da redenção dentro da catástrofe; (2) um ideal anti-crueldade — o Rav Kook afirma que Israel se afastou de propósito da política sangrenta e só deseja governar "sem maldade e sem barbárie"; e (3) um clímax universalista — a renovação de Israel renova todas as culturas, e a bênção de Avraham alcança todos os povos. Traduzo a seção inteira do hebraico (domínio público), com notas honestas, porque é facilmente mal lida.

§1 — Sentido na convulsão

Quando há uma grande guerra no mundo, desperta a força do Mashiach. "Chegou o tempo da poda" — a poda dos tiranos: a maldade é extirpada do mundo, e o mundo se "perfuma", "e a voz da rola ouve-se na nossa terra". Os indivíduos que perecem sem julgamento, na convulsão da torrente da guerra, têm neles algo da "morte dos justos que expia"; e, ao fim da guerra, o mundo se renova com um espírito novo, e os "passos do Mashiach" se revelam mais. E é preciso receber — "com grande discernimento, com profunda reflexão e com sede de verdade" — o conteúdo elevado da luz de D'us que se revela mesmo nestes acontecimentos.

Nota. Isto é teodiceia, não glorificação. Diante da maior matança que vira, o Rav Kook busca um sentido na catástrofe — a imagem da "poda" (Shir HaShirim 2:12) lida como o corte da tirania. Ele não celebra o sofrimento: chama os inocentes mortos de "expiação como a morte dos justos" — linguagem de consolo diante do horror, não de aprovação dele.

§2 — A força de alma dos antigos

Olhamos para as primeiras gerações, narradas na Torá e nos Profetas — gerações que se ocuparam de guerras, e que são, ainda assim, "os grandes a quem nos ligamos com amor e santidade". O fundamento, compreendemos, era a centelha da alma: aquele estado do mundo, em que a guerra era tão necessária, fez surgir almas cujo sentir interior era inteiro. A sua luta pela sobrevivência da nação era, em consciência íntima, "a guerra de D'us"; eram fortes de espírito e sabiam, "no vale da sombra da morte", escolher o bem e afastar-se do mal (Tehilim 23:4). Ao contemplá-los, ansiamos pela sua firmeza e pela força de vida sólida que neles habitava.

§3 — Governar sem crueldade

Aqui está a chave da seção:

עָזַבְנוּ אֶת הַפּוֹלִיטִיקָה הָעוֹלָמִית מֵאֹנֶס שֶׁיֵּשׁ בּוֹ רָצוֹן פְּנִימִי, עַד אֲשֶׁר תָּבוֹא עֵת מְאֻשָּׁרָה שֶׁיִּהְיֶה אֶפְשָׁר לְנַהֵל מַמְלָכָה בְּלֹא רִשְׁעָה וּבַרְבָּרִיּוּת "Deixamos a política mundial por uma compulsão que contém uma vontade interior — até que venha um tempo feliz em que seja possível governar um reino sem maldade e sem barbárie." Orot HaMilchamá §3

"A nossa alma teve nojo dos pecados terríveis de governar um reino num tempo mau." Por isso o afastamento foi um adiamento necessário; e o que esperamos é o tempo em que possamos governar "sobre os fundamentos do bem, da sabedoria, da retidão e da clara luz divina". É o sentido de Yaakov cedendo a Essav as honras do reino — "passe o meu senhor adiante do seu servo" (Bereshit 33:14): não convém a Yaakov ocupar-se de um poder que precise estar "cheio de sangue", que exija o "talento da maldade".

Nota. Longe de exaltar a guerra, este é um ideal anti-crueldade: a vocação de Israel é um poder purificado da violência — quase o oposto do que o título "Guerra" sugere. Israel se manteve fora da política sangrenta das nações, e só quer voltar a governar quando isso puder ser feito sem barbárie.

§4 — A guerra vem do pecado; a paz é o ideal

Não fosse o pecado do bezerro de ouro, as nações que habitavam a Terra de Israel teriam feito as pazes com Israel e o reconhecido, pois o Nome de D'us sobre ele despertaria nelas temor reverente, e nenhum sistema de guerra prevaleceria — a influência seguiria "por caminhos de paz, como nos dias do Mashiach". Só o pecado causou o atraso de milhares de anos; mas o pecado do bezerro será de todo apagado, e "o mundo se reparará em paz e em sentimentos de amor", e a doçura de D'us será sentida em cada coração.

§5–7 — As nações, as guerras e o despertar de Israel

A "repressão moral" da cultura secular acumulou nas profundezas das almas dos povos muitos traços maus, que irrompem nas guerras sangrentas, próprias de uma natureza ainda não refinada. Cada nação se desenvolve pelos seus movimentos naturais, e as guerras acentuam o caráter próprio de cada uma; e Israel é o espelho geral de todo o mundo. Enquanto isso, na própria Knesset Israel, a sua cor essencial vai-se revelando: voltam a sabedoria, a coragem, a retidão e a pureza interior; a nação se reconstrói rumo à redenção. Das ondas de aflições que sobre ela passam, ela recolhe sabedoria e visão de longo alcance — "já sabe que tem uma terra, uma língua, uma literatura, um exército", e, acima de tudo, que tem "uma luz de vida própria" que a coroa e, por ela, coroa o mundo inteiro.

§8 — O fim de uma civilização de mentira

É o trecho mais difícil — e o mais facilmente abusado. O Rav Kook escreve que a culpa dos derramadores de sangue, dos "reis arrogantes da terra", está selada, e que "a terra não se expia do sangue nela derramado senão pelo sangue de quem o derramou". Daí, diz ele, a civilização presente — "que se gaba com címbalos de mentira" — terá de ser anulada, e em seu lugar se erguerá um "reino de santidade"; a luz de Israel aparecerá, para fundar um mundo de povos "de um espírito novo". E Israel "verá a queda dos ímpios" e "pisará sobre as ruínas" dos que se gabam dos "novos ídolos", como pisou sobre as ruínas da antiga Babilônia e Assíria. Mas isto, adverte ele, "é um estado momentâneo nos momentos da história": a luz da teshuvá necessariamente aparecerá, "cada um lançará fora os seus ídolos de prata e de ouro", e tudo retornará ao bem de D'us — até cumprir-se: "E acontecerá, no fim dos dias, que o monte da casa do Eterno será estabelecido no cume dos montes... e a ele afluirão todas as nações" (Yeshayahu 2:2).

Nota — leitura honesta e necessária. Esta é a passagem que mais exige cuidado. Lida em contexto, é escatológica e filha do seu momento: diante do massacre sem precedentes da 1ª Guerra, o Rav Kook argumenta que uma civilização capaz de tal carnificina — "com toda a sua sabedoria vangloriada" — provou-se fundada na mentira, e dará lugar ao "conhecimento de D'us" e à visão de paz de Yeshayahu 2. O "pisar sobre as ruínas" e a "queda dos ímpios" são idioma profético-bíblico para a queda de impérios corruptos (Babilônia, Assíria), não um programa de violência. O texto culmina não em conquista, mas em teshuvá universal e na paz de Isaías 2 — e jamais pode ser lido como licença para ódio, o que contradiria o próprio ideal de §3 (governar sem crueldade) e §4 (a paz como caminho divino).

§9 — A renovação que alcança todos os povos

A construção do mundo, que agora se desmorona sob as tempestades terríveis da espada cheia de sangue, exige a construção da nação de Israel — e isso é uno com a construção do mundo, que se despedaça e espera "uma força plena de unidade". Ninguém cuja alma palpita pode ficar quieto nesta hora grande, sem chamar a todas as forças ocultas da nação: "despertai e levantai-vos para a vossa tarefa!". A cultura mundial vacila, o espírito humano enfraquece, "a treva cobre a terra" (Yeshayahu 60:2) — e chegou a hora em que a luz do D'us verdadeiro, revelada por meio do Seu povo, precisa manifestar-se. Israel é chamado a "não beber de cisternas estranhas, mas a haurir das suas próprias profundezas".

כָּל הַתַּרְבּוּיוֹת שֶׁבָּעוֹלָם יִתְחַדְּשׁוּ עַל יְדֵי חִדּוּשׁ רוּחֵנוּ... וְכָל הָאֱמוּנוֹת יִלְבְּשׁוּ בְּגָדִים חֲדָשִׁים "Todas as culturas do mundo se renovarão pela renovação do nosso espírito... e todas as fés vestirão roupas novas." Orot HaMilchamá §9

Todas as fés "despirão as vestes sujas" e se unirão para haurir "dos orvalhos das luzes sagradas, preparados desde sempre para todo povo e todo ser humano no poço de Israel". E "a bênção de Avraham a todas as famílias da terra começará a sua obra, em força e abertamente" — e sobre esse fundamento recomeçará a nossa construção na Terra de Israel. "A destruição de agora é a preparação de uma vida nova, profunda" — uma luz de bondade suprema cintila.

"A bênção de Avraham a todas as famílias da terra começará a sua obra."
§10 — O pranto pela Presença Divina

O Rav Kook encerra não em triunfo, mas em lágrimas. Da descida do mundo e do rebaixamento da alma de Israel, a Unidade suprema separou-se da sua fonte e subiu ao alto, e no mundo só aparece "um pálido brilho da unidade inferior, haurida de cisternas quebradas". E Knesset Israel clama em dores: "ai de mim, pois a minha alma desfalece!". "Os segredos da Torá foram entregues a estranhos; a Torá arde — os pergaminhos queimam e as letras voam." Os sábios de coração levantam-se à meia-noite, "com as mãos sobre os lombos como quem dá à luz", e choram a aflição do mundo, de Israel, da Torá e da Shechiná. E sabem que todo o sangue derramado, todo o exílio e todo o ódio, são apenas "um eco fraco" daquela aflição suprema — a dor da Presença Divina separada da fonte das suas delícias. E chamam à teshuvá; "e quanto a nós, os nossos olhos estão voltados para D'us".

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, OrotOrot HaMilchamá (As Luzes da Guerra), §1–10, escrita no contexto da Primeira Guerra Mundial. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. É uma seção densa e historicamente sensível; traduzida com fidelidade e fortemente contextualizada — em particular os §1 e §8, que são teodiceia e escatologia, e não apologia da violência. As notas são nossas; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.