Esta é uma das páginas mais ousadas e libertadoras do Rav Kook. Há uma suspeita antiga de que a religião seja inimiga da vida — do corpo, do prazer, da força, do mundo. O Rav Kook responde com uma reinterpretação surpreendente: a longa "guerra contra a natureza" nunca foi contra a natureza como tal, mas contra a sua crueldade; e o seu desfecho não é a derrota da natureza, mas a sua cura e a sua paz com o sagrado. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
Uma longa guerra — mas contra o quê?
Vejo com os meus olhos: a luz da vida de Eliyahu sobe; a sua força para o seu D'us vai-se revelando; a santidade que há na natureza rompe os seus limites e vai, por si mesma, unir-se à santidade que está acima da natureza grosseira — àquela santidade que [outrora] combatia a natureza.
O judaísmo do passado, do Egito até aqui, foi uma longa guerra contra a natureza — mas contra o seu lado feio: o da natureza humana em geral, e até a natureza da nação e a natureza de cada indivíduo. Lutámos com a natureza para vencê-la, para dominá-la dentro da sua própria casa; e ela rendeu-se diante de nós.
Aqui está a chave de tudo. O "inimigo" nunca foi a natureza — o corpo, a vitalidade, o desejo, o mundo material —, mas o seu lado feio: a crueldade, a voracidade, o "cada um por si" que a natureza bruta ensina. A Torá não veio extinguir a natureza humana, mas domá-la dentro da sua própria casa — civilizá-la, refiná-la, pô-la a serviço do bem. É o oposto do ascetismo que despreza a vida: trata-se de elevar a vida, não de fugir dela.
O sol que veio curar
Lutámos com a natureza, e saímos vitoriosos. A natureza grosseira fez-nos coxos — tocou-nos na articulação da coxa —, mas o sol, não foi para nós que raiou, para nos curar da nossa claudicação?
É a imagem de Yaakov: ao lutar a noite inteira com o anjo, sai vencedor — mas mancando, com a coxa tocada. E logo "o sol nasceu para ele". O Rav Kook lê esse nascer do sol como cura: a luta com a natureza deixa uma marca, um coxear; mas a luz que se ergue depois vem sarar a ferida. Os mundos vão-se adoçando, e na própria profundeza da natureza cresce uma grande demanda por santidade e pureza, por delicadeza de alma e por depuração da vida.
A luta com a natureza tem um custo — o "coxear" de Yaakov é a marca de toda batalha real contra os instintos brutos. Mas a guerra não é eterna: tem um amanhecer. O Rav Kook anuncia o momento em que a luta cede lugar à reconciliação — quando a natureza, já refinada, deixa de ser adversária e se torna aliada do espírito. A ferida não é o fim da história; o sol que nasce é.
A natureza que busca o sagrado
Eliyahu vem anunciar a paz; e, na alma interior da nação, irrompe uma corrente de vida natural que vai-se aproximando do sagrado.
A recordação da saída do Egito vai-se tornando a recordação da saída da servidão dos impérios, que se vai tecendo; e todos nós vamo-nos aproximando da natureza, e ela de nós — vai-se rendendo diante de nós, e as suas exigências vão-se harmonizando com as nossas exigências nobres, vindas da fonte do sagrado. O espírito jovem, que reclama a sua terra, a sua língua, a sua liberdade e a sua honra, a sua literatura e a sua força, os seus bens e os seus sentimentos — tudo isso é levado por uma torrente de natureza cuja interioridade está cheia de fogo sagrado.
O fecho é uma reconciliação total. As aspirações mais "naturais" e terrenas — uma terra para habitar, uma língua viva, liberdade, dignidade, arte, força, até os bens materiais — não são, para o Rav Kook, o oposto da santidade. São uma "torrente de natureza" cujo núcleo interior é fogo sagrado. Eliyahu, o profeta da reconciliação ("o coração dos pais aos filhos"), anuncia a paz entre o céu e a terra: o sagrado deixa de combater a vida e passa a habitá-la. É a mesma intuição do amor ao trabalho — a matéria não é inimiga do espírito; é o seu lar.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §30. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar a força e a imagística do original. A imagem do "sol que nasce" sobre Yaakov, que claudica, remete a Bereshit 32:25-32; a figura de Eliyahu, arauto da reconciliação, a Malachi 3:23-24. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.