Esta seção dos Orot é, no fundo, uma teoria do que mantém a vida humana viva. O Rav Kook identifica duas forças — a fé e o amor — como o núcleo da alma, e lê tanto a saúde quanto a doença das civilizações à luz delas. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
As duas forças mais profundas da alma
A fé e o amor estão sempre unidas: quando ambas brilham na alma em plenitude; e, quando a luz de uma se completa por inteiro, ela desperta a outra na sua força, e esta sobe das profundezas da alma para iluminar em toda a sua amplitude. O homem não está apto a nenhuma força espiritual no mundo com uma plenitude tão grande como está para a fé e o amor — e isto é um sinal de que nelas repousam todos os fundamentos do seu ser essencial.
Tudo o que o indivíduo e a coletividade fazem — em todas as voltas das causas, e em todas as forças que se manifestam na vida da cultura — tudo vai, no fim, aperfeiçoar, no grau mais alto, a fé e o amor. Delas emanam todas as luzes espirituais do mundo, que iluminam todos os caminhos da vida e da existência. A fé e o amor são a própria vida, neste mundo e no porvir: nada permanece vivo quando se lhe roubam estes dois luzeiros.
Eis uma afirmação profundamente humanista. Entre todas as faculdades — a razão, a arte, a vontade, a memória —, o Rav Kook aponta duas como a raiz de todas: a capacidade de crer (de confiar, de se abrir ao que nos transcende) e a de amar. E observa um sinal revelador: é justamente para estas duas que o ser humano é mais capaz — prova de que é nelas que está o seu fundo. Tudo o que fazemos, no fim das contas, busca aperfeiçoá-las.
A doença da cultura: negação e ódio
A cultura do tempo presente, tal como agora se assenta no mundo, está construída inteira sobre a negação (a descrença) e o ódio — que são os que negam a vida essencial. E não é possível vencer esta doença senão revelando todos os tesouros de bem que jazem guardados no cofre da fé e do amor; e este é o objetivo de revelar os segredos da Torá.
O diagnóstico é severo e atual: quando uma civilização adoece, a sua doença tem dois nomes — a negação (que esvazia o sentido) e o ódio (que rompe os laços). São o avesso exato da fé e do amor. E a cura não é mais negação nem mais ódio "do outro lado": é desenterrar os tesouros de bem que a fé e o amor guardam. Combater a escuridão com escuridão não funciona; só a luz a dissolve.
A Torá é amor, a mitzvá é fé
A Torá é o amor, e os mandamentos [as mitzvot] são a fé; e são também os canais pelos quais o fluxo da fé e do amor corre sem cessar. E toda a cultura, espiritual e material, no despertar da vida nacional, deve concentrar-se em torno deste centro duplo e unificado — "dois que são quatro": a Torá e a mitzvá, a fé e o amor. E a plenitude da fé e do amor fortalece-se pela ligação da alma aos sábios e aos seus discípulos — aquela "ligação aos justos" de que tanto se ocupou a tradição —, pois a vida dos sábios justos é, na sua essência, a própria revelação da fé e do amor, firmada na força da Torá e da mitzvá.
A equação é elegante: a Torá — o ensinamento, a sabedoria que aproxima — é a forma do amor; a mitzvá — o ato fiel, a fidelidade cotidiana — é a forma da fé. Não são quatro coisas, mas duas vistas por dentro e por fora: "dois que são quatro". E os mandamentos não são gaiolas: são canais — os condutos por onde a fé e o amor correm para a vida concreta.
O orvalho que revive
Os "cultos" perversos, carentes de fé e de amor, não são capazes de ligação alguma — nem mesmo entre si —, e assemelham-se à cinza que não se deixa amassar; e por isso a sua vida não é vida, e são, em vida, chamados mortos. Mas, por uma grande fé e um amor abundante, faremos descer um orvalho de revivescência, para com ele reviver até os mortos:
O "morto em vida" do Rav Kook não é um julgamento sobre pessoas — é um diagnóstico do que acontece a uma alma esvaziada de fé e de amor: torna-se incapaz de se ligar, "como cinza que não se amassa". Sem laços, não há vida verdadeira. Mas o tom não é de condenação, e sim de cura: a resposta à morte espiritual não é o desprezo, é o "orvalho de luzes" — a fé e o amor que descem para reviver até o que parecia perdido. Quem tem fé e amor não despreza os "mortos": ressuscita-os.
Vasos para uma luz grande
Aspiramos à revivescência da nação e da Terra para reviver o estado da nossa alma — para reviver a fé e o amor na força da Torá e da mitzvá, em toda a sua plenitude. Reconhecemos a luz do D'us de Israel, D'us do mundo, e o deleite que está "sobre D'us" — acima de toda expressão e de todo conceito, além de toda bênção e cântico, oculto e guardado, que se revela na luz da fé e do amor. Por isso buscamos muita Torá; e, para isso, aspiramos a uma saúde plena e a uma força física robusta; buscamos muitas mitzvot — para termos vasos suficientes em que conter a grande luz da fé e do amor, com todo o seu deleite, a sua pureza, a sua força e a sua coragem. E tudo o que temos das memórias antigas, do mandamento e do preceito, nos é caro com o amor da vida — porque são, para nós, vasos da fonte da vida, e com eles está a própria fonte da vida; e os ideais neles ocultos vivem com eles e com a sua observância.
O fecho dá a chave de toda a obra prática: Torá, mandamentos — e até a saúde do corpo — são vasos, não fins em si. Servem para conter uma luz que de outro modo se derramaria sem forma: a luz da fé e do amor. Por isso o Rav Kook pede "muita Torá e muitas mitzvot" — não por legalismo, mas porque uma luz tão grande precisa de muitos vasos para caber no mundo. A forma existe para guardar o fogo; e o fogo é o amor que crê e a fé que ama.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §17. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar a força do original, e o longo período foi organizado para a leitura. A imagem do "orvalho de luzes" que revive os mortos é de Yeshayahu 26:19; a ideia de que "os perversos, em vida, são chamados mortos" remonta ao Talmud (Berachot 18b). A frase destacada ("a Torá é o amor...") é do próprio texto do Rav Kook. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.