Entre as "Sementes" (Zer'onim) de Orot, esta é a primeira e talvez a mais célebre. O Rav Kook descreve com uma honestidade quase dolorosa a inquietação do espírito humano — a sensação de que nenhuma conquista, por mais alta, basta — e mostra que essa inquietação não é doença: é sede. Sede do D'us vivo. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico original (de domínio público).
A inquietação do espírito
É impossível encontrar um pouso firme para o espírito senão no ar divino. O conhecimento, o sentimento, a imaginação e a vontade — com todos os seus movimentos internos e externos — exigem que o ser humano seja divino, e nada menos que isso. Só então encontra a sua plenitude, a sua relação equilibrada e satisfatória com a existência.
Se a pessoa busca para si algo um pouco aquém dessa grandeza, eis que é logo lançada como um navio sacudido no mar: ondas tempestuosas, opondo-se umas às outras, roubam-lhe para sempre o sossego; é arremessada de vaga em vaga e não conhece a paz. Pode até afundar num lodo espesso de grosseria de espírito e embotamento do sentir, e assim conseguir, por algum tempo, reduzir a luz da própria vida — até imaginar, lá dentro, que enfim encontrou repouso. Mas os dias não se alongam: o espírito se solta das suas amarras, e a inquietação recomeça a sua obra com toda a força.
O paradoxo do que busca
Mas D'us está acima de toda a realidade da qual algum sentimento ou ideia poderia entrar em nós; e tudo o que está acima de todo sentimento e ideia em nós é, em relação à nossa medida, "nada" — e no nada a mente não consegue descansar. Por isso, na maioria das vezes, encontramos os estudiosos que buscam a D'us cansados e fatigados de espírito.
Quando a alma clama pela luz mais clara, já não se contenta com a luz que existe na justiça, mesmo nos melhores atos; nem com a luz que existe na verdade, mesmo nos estudos mais límpidos; nem com a beleza, mesmo nas visões mais magníficas. Então o mundo se lhe torna estreito: ela se expande tanto por dentro que o mundo inteiro — com toda a sua materialidade e espiritualidade, com todas as suas revelações — lhe parece uma "casa de aflição", uma casa apertada, cujo ar se faz sufocante. Buscam o que está acima de suas forças, o que diante deles é nada; e, como não há poder — nem mesmo na vontade — de querer trazer algo do nada, às vezes enfraquece a própria força de querer, e todo o vigor da vida, justamente nas pessoas cuja meta mais íntima é a busca de D'us.
O portão: a Divindade revelada no mundo
É preciso mostrar o caminho de como se entra no palácio — pelo portão. E o portão é a Divindade que se revela no mundo: no mundo em toda a sua beleza e esplendor, em cada espírito e alma, em cada ser vivo, em cada planta e flor, em cada povo e reino, no mar e nas suas ondas, nos toldos do céu e na majestade das luminárias, nos talentos de quem fala, nas ideias de quem escreve, nas imaginações de cada poeta e nas reflexões de cada pensador, no sentir de quem sente e no ímpeto de coragem de cada herói.
Eis a virada do texto: não se chega ao infinito saltando para fora do mundo, mas atravessando-o. O mundo não é obstáculo a D'us — é o portão para Ele. Cada coisa bela, verdadeira e viva é uma fresta por onde a luz divina entra.
D'us desce até nós
A Divindade suprema, que ansiamos alcançar — ser absorvidos nela, recolhidos à sua luz — e que não conseguimos atingir na medida plena do nosso desejo, ela mesma desce, por nós, ao mundo e para dentro dele; e nós a encontramos, e nos deleitamos no seu amor, e achamos sossego e paz no seu repouso. E, de tempos em tempos, ela nos visita com um relâmpago supremo, do resplendor do alto, da luz suprema que está acima de toda ideia e pensamento. Os céus se abrem, e vemos visões de D'us —
mas sabemos que, para nós, esse é um estado passageiro: o relâmpago passa, e descemos a habitar de novo — ainda não no interior do santuário, mas nos átrios do Eterno.
Tudo é um: a unidade de toda a luz
E quando o clamor pela luz chega ao ponto mais alto, então a alma começa a haurir uma abundância de grande luz do luzeiro oculto que há dentro dela; e do seu mais íntimo se lhe revela que tudo haure luz da fonte mais suprema — que todos os mundos e tudo o que neles há não passam de revelações, que nos parecem faíscas particulares da manifestação da luz suprema, mas que em si mesmas são todas uma só unidade, uma só revelação, na qual se inclui toda a beleza, toda a luz, toda a verdade e todo o bem.
Essas revelações seguem o seu curso e se elevam, tornando-se cada vez mais manifestas aos olhos de todos como aquilo que verdadeiramente são: revelações do Todo-Bem. E a mesma abundância que flui no Todo-Bem — que ergue a raiz da alma à sua altura e que faz pequeno, a seus olhos, o mundo material e espiritual com toda a sua glória — essa mesma abundância renova sobre ela todos os mundos: cada criatura veste uma forma nova, cada visão de vida desperta júbilo e salvação, cada boa ação alegra o coração, cada estudo alarga a mente. Os estreitos limites de todas as coisas já não comprimem a amplidão da alma, que de imediato contempla e vê que todas aquelas pequenas faíscas estão sempre a ascender, sempre a unir-se e a serem atadas no feixe da vida plena.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — seção Zer'onim (Sementes), "Tzima'on le-El Chai" (A Sede do D'us Vivo). O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Buscou-se preservar a força e o sentido do original; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.