Costumamos pensar a teshuvá — o retorno — como o arrependimento de uma falta concreta: fiz algo errado, reconheço, corrijo. O Rav Kook conhece bem esse retorno, mas aponta para outro, mais profundo: o retorno de quem se sente vazio sem saber de qual pecado, distante de si mesmo e da própria origem. Este é, talvez, o coração de Orot HaTeshuvá. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico (de domínio público).
O retorno súbito e o retorno gradual
Quanto à sua duração, a teshuvá divide-se em duas: a súbita e a gradual.
A súbita vem de um relâmpago espiritual que penetra na alma: de uma só vez, a pessoa reconhece o mal e a feiura da falta e se transforma em outro homem, sentindo já dentro de si uma mudança completa para o bem. É uma teshuvá que chega por uma aparição íntima, por uma grande influência da alma, cujos caminhos vale a pena buscar nas profundezas do mistério.
E há a teshuvá gradual: não um relâmpago que num instante o vira do fundo do mal ao bem, mas a percepção de que precisa ir, dia após dia, melhorando os seus caminhos, os seus desejos, o rumo dos seus pensamentos. Pouco a pouco, nessa caminhada, vai conquistando as veredas da retidão, corrigindo as suas qualidades, melhorando os seus atos, ensinando a si mesmo a tornar-se mais digno — até alcançar um alto grau de purificação e de reparo.
A teshuvá que vem do Todo
Mais alta que ambas é a teshuvá suprema. Ela vem de um lampejo do Bem geral — do Bem divino que repousa em todos os mundos, a luz da Vida dos Mundos. A alma de toda a existência se desenha diante de nós em seu esplendor e santidade, tanto quanto o coração é capaz de absorver. Pois não é verdade que o Todo é, em si, tão bom e tão reto — e que a retidão e o bem que há em nós vêm justamente da nossa harmonia com o Todo?
Como poderia alguém estar dilacerado, separado do Todo — qual migalha estranha, qual grão de pó que de nada conta? Dessa percepção, que é uma percepção verdadeiramente divina, nasce a teshuvá, na vida do indivíduo e na vida do povo. Voltar, aqui, não é consertar um ato: é reconhecer que nunca estivemos realmente apartados da fonte — e despertar para essa pertença.
Quando a alma se sente longe
Há, então, uma teshuvá geral e indefinida. Nenhum pecado do passado lhe sobe ao coração; e, no entanto, a pessoa sente-se profundamente oprimida, cheia de culpa, como se a luz de D'us não brilhasse sobre ela. Não há nela um espírito generoso, o coração está fechado, as suas qualidades não seguem a vereda reta e desejável que conviria a uma vida digna e a uma alma pura. O entendimento parece grosseiro; os sentimentos, turvos de escuridão e de uma sede que provoca enjoo espiritual. Ela se envergonha de si mesma e sabe, lá no fundo, que não há D'us dentro dela.
E esta — diz o Rav Kook — é a maior das aflições, a falta mais terrível: revoltar-se contra si próprio sem encontrar saída de uma armadilha que não tem nome nem objeto, sentir-se apenas como que preso no cepo. Não é a culpa por um ato; é a angústia de estar longe da própria alma.
Repare na inversão: para o Rav Kook, sentir esse vazio não é sinal de queda — é já o começo do retorno. A dor de perceber a distância é a própria alma chamando de volta para si mesma.
A cura
E é do meio dessa amargura que vem a teshuvá — como o remédio de um médico perito. O sentir do retorno brota na alma com toda a sua força, com a profundidade do seu saber, com as suas raízes nos segredos da natureza e nas câmaras da Torá, da fé e da tradição. Sobre a pessoa passa um espírito de graça e de súplica: "como um homem a quem a sua mãe consola, assim Eu vos consolarei" (Yeshayahu 66:13).
E eis que ela caminha e resplandece: a face da ira passou, vem a luz da vontade e raia, ela se enche de vigor, os olhos se enchem de fogo sagrado. O coração inteiro mergulha em rios de delícias; santidade e pureza a envolvem; um amor sem fim preenche todo o seu espírito. É-lhe anunciado que foram apagadas todas as suas faltas — as conhecidas e as desconhecidas —, que ela foi criada de novo, criatura nova, e que o mundo inteiro, com todos os mundos, se renovou junto com ela. E tudo entoa cântico.
Os Sábios disseram: "Grande é a teshuvá, que traz cura ao mundo; e mesmo um único indivíduo que faz teshuvá — perdoa-se a ele e ao mundo inteiro" (Yomá 86a). Voltar a si mesmo, descobre o Rav Kook, nunca é um gesto solitário: quem reencontra a própria alma reencontra a sua ligação com tudo o que existe — e, por essa porta, com D'us.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTeshuvá (As Luzes do Retorno), capítulos 2 e 3. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução comunitária de licença aberta do Sefaria. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.