De toda a obra do Rav Kook, poucos trechos foram tão recitados, musicados e amados quanto este. Em poucas linhas, ele desenha um mapa da alma: a vida espiritual não é estática — ela se expande. E, à medida que a alma cresce, o seu canto abraça círculos cada vez maiores da existência, até que todos os cantos se fundem num só. É um texto sobre identidade, pertencimento e a unidade última de tudo o que vive.
O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico original (de domínio público).
O primeiro canto: a alma
Há quem cante o canto da própria alma — e é na própria alma que encontra tudo, a plenitude do seu contentamento espiritual. É o primeiro grau: a pessoa voltada para o seu mundo interior, que descobre dentro de si uma riqueza que lhe basta. Um canto íntimo, recolhido, inteiro.
O segundo canto: a nação
E há quem cante o canto da nação. Sai do círculo estreito da sua alma individual — que não lhe parece suficientemente ampla, nem suficientemente serena — e ascende a alturas poderosas. Une-se com ternura ao conjunto de Israel, à Knesset Yisrael: canta com ela os seus anseios, embeleza-se com as suas esperanças, sofre as suas dores, alegra-se com a sua glória. A sua vida já não é só a sua — pulsa com a vida de um povo inteiro.
O terceiro canto: a humanidade
E há aquele cuja alma se expande ainda mais, até transbordar para além das fronteiras de Israel, para cantar o canto do homem. O seu espírito se alarga na grandeza da humanidade toda e na sua dignidade; ergue-se para o ideal universal, contempla o futuro da espécie humana, e bebe da sua aspiração mais íntima de elevação. É o canto da pessoa que ama o ser humano onde quer que ele esteja.
O quarto canto: o cosmos
E há aquele que se expande mais e mais, até se unir com toda a existência, com todas as criaturas, com todos os mundos — e com todos eles entoa o seu canto. É este o canto do cosmos: aquele que canta com cada folha, cada estrela, cada ser, reconhecendo em toda a criação uma única melodia que ascende ao seu Criador.
Repare na geometria do texto: não são quatro cantos rivais, mas quatro raios de uma mesma luz, em círculos concêntricos. Cada um inclui o anterior. Quem canta o cosmos não abandonou a sua alma, a sua nação ou a humanidade — ele os carrega consigo, ampliados.
O quinto canto: a harmonia que reúne todos
E há, enfim, aquele que se eleva com todos esses cantos juntos, numa só harmonia, de modo que todos dão a sua voz, todos vertem a sua seiva, todos cantam os seus cantos. O canto da alma, o canto da nação, o canto da humanidade e o canto do cosmos — todos se entrelaçam dentro dele, a cada instante e a cada hora.
E essa plenitude, em toda a sua amplitude, é que se eleva para tornar-se o canto sagrado — o canto de D'us, o canto de Israel. Não quatro vozes separadas, mas uma só voz integral, que abarca o eu e o todo, o particular e o universal, a terra e os céus.
O Rav Kook liga esse canto integral ao Shir HaShirim, o Cântico dos Cânticos — o cântico que a tradição chama de "simples, duplo, triplo e quádruplo". Pois o canto mais alto não é o que renuncia aos demais, mas o que os contém a todos: aquele em que a alma singular, sem se perder, ressoa junto com tudo o que existe, numa única sinfonia diante de D'us.
Há aqui uma ética inteira. O perigo da espiritualidade é encolher — fechar-se no próprio eu, ou no próprio grupo, e chamar a isso de devoção. O Rav Kook aponta o caminho inverso: a verdadeira elevação é a expansão. Quanto mais a alma ama — a si, ao seu povo, à humanidade, à criação inteira — mais alto e mais verdadeiro é o seu canto.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaKodesh (As Luzes da Santidade), passagem conhecida como Arba'ah Shirot (Os Quatro Cânticos). O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico. Trata-se de uma das passagens mais citadas da obra do Rav Kook; buscou-se preservar a sua força poética e o seu sentido. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.