Se a santidade depende tanto da Terra (§§3-5), o que acontece a quem sai dela? O Rav Kook responde com uma surpresa cheia de consolo: o que se absorveu na Terra continua a agir fora dela — e o próprio mal-estar do exílio é prova de que a santidade foi absorvida. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
A santidade absorvida não cessa
A ação do espírito de santidade absorvido na Terra de Israel age continuamente — mesmo que aconteça de a pessoa sair para fora da Terra, por engano ou por alguma causa forçosa. Pois até a profecia, uma vez que já tomou [a pessoa] na Terra de Israel, não cessa nem fora da Terra:
A abundância de santidade que começou na Terra de Israel recolhe todas as "clarificações do sagrado" [berurei ha-kodesh] que se encontram fora da Terra, em todas as profundezas, e aproxima-as pela sua força atrativa.
A imagem é a de um ímã espiritual. A santidade não se esgota onde começou: irradia e atrai. A profecia que tomou Yechezkel na Terra acompanhou-o à Babilônia — "veio, porque já tinha vindo". E o que se acendeu na Terra recolhe, mesmo de longe, as faíscas de santidade dispersas pelo mundo. Sair da Terra não apaga o que nela se recebeu; antes, faz desse recebido um foco que puxa de volta tudo o que lhe pertence.
O estranhamento como sinal
Quanto mais difícil é suportar o ar de fora da Terra, quanto mais se sente o "espírito de impureza" de um solo estranho — isto é sinal de uma absorção mais interior da santidade da Terra de Israel; de uma bondade suprema, que não abandonará aquele que mereceu abrigar-se à "sombra pura" da terra da vida, mesmo quando se distancia e vagueia, mesmo no seu exílio e na sua terra de errância.
O estranhamento que se sente fora da Terra liga ainda mais todo o desejo interior do espírito à Terra de Israel e à sua santidade; a expectativa de vê-la cresce, e o gravar da imagem da forma sagrada da terra "sobre a qual os olhos do Senhor estão sempre, do princípio do ano até o fim do ano" aprofunda-se cada vez mais.
Eis a inversão consoladora. Quem se sente desconfortável na diáspora poderia julgar-se em falta — mas o Rav Kook lê o contrário: esse desconforto é prova de que a santidade da Terra foi absorvida de modo profundo. A alma que provou a "sombra pura" da terra da vida já não se acomoda em solo estranho; a sua inquietação é a saudade trabalhando. E essa bondade suprema "não abandona" quem uma vez se abrigou nela — acompanha-o no exílio e transforma o seu desconforto em vínculo.
O anseio de uma alma, fonte para o todo
E a profundeza do anseio sagrado do amor a Sião [chibat Tziyon], da lembrança da Terra — à qual todas as delícias estão ligadas —, quando se fortalece numa alma, ainda que uma só, realiza a ação de uma fonte que jorra para todo o coletivo, para as miríades de almas ligadas a ela. E [então] o toque do shofar do ajuntamento dos dispersos desperta, e grandes misericórdias se fortalecem, e a esperança de vida para Israel cintila, e o "Renovo do Senhor" vai florescendo, e a luz da salvação e da redenção reparte-se e espalha-se — como a aurora estendida sobre os montes.
O fecho liga o íntimo ao cósmico. O Rav Kook diz algo audacioso: o amor à Terra de uma única alma, quando é profundo, age "como uma fonte que jorra para todo o coletivo". Não é preciso ser multidão para mover a redenção — basta um anseio verdadeiro, que se torna nascente para milhares. Desse anseio acordam o shofar do ajuntamento, as "grandes misericórdias" e o florescer do "Renovo do Senhor". A saudade de Sião não é nostalgia passiva: é uma força que faz amanhecer.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "A Terra de Israel" (Eretz Yisrael, na seção Orot me-Ofel), §6. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Yechezkel 1:3 (lido em Moed Katan 25a: a profecia "veio porque já tinha vindo" na Terra) e Yeshayahu 4:2 ("o Renovo do Senhor"); a frase "os olhos do Senhor estão sempre sobre ela" é de Devarim 11:12, e "como a aurora estendida sobre os montes" ecoa Yoel 2:2. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.