Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) leva mais fundo a ideia da anterior: a forma mais alta de santidade não combate a natureza, mas a santifica. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
Duas santidades
A santidade que há na natureza é a santidade da Terra de Israel; e a Presença Divina (Shechiná) que desceu ao exílio com Israel é a capacidade de manter a santidade contra a natureza. Mas a santidade que luta contra a natureza não é uma santidade completa: ela precisa de ser absorvida, na sua essência suprema, na santidade superior — que é a santidade na própria natureza —, a qual é o fundamento da reparação de todo o mundo e do seu pleno "adoçamento". E a santidade do exílio será unida à santidade da Terra: "as sinagogas e as casas de estudo da Babilônia estão destinadas a fixar-se na Terra de Israel".
Quando a guerra cessa
Quando se chega a esta compreensão suprema da santidade completa que há na natureza — a qual inclui em si também a santidade que está acima da natureza e a que se opõe a ela —, então a guerra cessa por inteiro: a medida do rigor (din) adoça-se, e tudo se inclina para a bondade (chesed).
Um santo habita em ti
Todas as forças que há no ser humano aparecem, então, na sua refinada elevação, tal como são na sua natureza — e eis que são santas, e aptas à mais alta elevação; e a luz que está acima da natureza permanece guardada dentro delas, para o momento da necessidade. E a pessoa sente em si uma liberdade de doçura sagrada, e "mede-se a si mesma como se um santo habitasse no seu interior, como está dito: 'o Santo, no meio de ti'".
Eis o coração da visão integradora do Rav Kook. A santidade do exílio era uma guerra: manter o sagrado apesar da natureza, contra os instintos e a vida do corpo. É santidade real — mas incompleta, porque deixa o mundo do lado de fora. A santidade plena é outra: a que reconhece o sagrado na própria natureza, e por isso não precisa combatê-la. Aí "a guerra cessa", o rigor torna-se bondade, e as forças naturais do ser humano aparecem como o que são na raiz — santas. Não é uma santidade que reprime a vida; é uma que a liberta. E o seu sinal é uma estranha leveza: sentir que "um santo habita dentro de ti".
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §28. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. As citações remetem ao Talmud, Meguilá 29a, e a Hoshea 11:9; a imagem de "medir-se como se um santo habitasse no interior" ecoa o Talmud (Taanit 11b). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.