Orot · As Luzes do Rav Kook

A Beleza do Céu que o Exílio Velou: o poeta e a natureza

Por que o poeta de Israel não sente a plena beleza celeste da natureza? Porque o exílio, diz o Rav Kook, rompeu o laço do povo com a vida natural sã: ao erguer-se ao espiritual, o poeta sente a fratura da nação e cala. Só o renascimento, ligado à sua fonte viva, começa a devolver o olhar para o esplendor do céu.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §29 Tradução inédita · PT-BR

Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) é uma rara reflexão do Rav Kook sobre a estética — sobre por que a beleza da natureza se vela na existência ferida do exílio, e como o renascimento a desvela. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

A beleza que o poeta não alcança

A natureza não se revela ao poeta israelita em todo o seu esplendor e beleza, por causa da fratura da nação e do seu afastamento da vida natural sã. E, se um poeta talentoso quiser entregar-se à natureza apesar da queda da nação, só conseguirá afundar-se no lado grosseiro e sensível dela; mas a sua beleza celeste não poderá sentir em toda a sua bondade e no esplendor do seu fulgor. Pois, assim que quiser erguer-se à esfera espiritual, sentirá a fratura da nação, e o seu espírito se calará — ao passo que, na imersão sensorial, pode às vezes esquecer, por um momento, o estado presente da nação.

O céu não se vê em sua pureza

מִיּוֹם שֶׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ לֹא נִרְאָה רָקִיעַ בְּטָהֳרָתוֹ "Desde o dia em que o Templo foi destruído, o céu não se viu em sua pureza" — como está dito: "visto os céus de negrume, e ponho-lhes por cobertura o saco" (Yeshayahu 50:3). Talmud, Berachot 59a

O renascimento devolve o olhar

O renascimento nacional, que se reconhece na construção da Terra, quando é tomado junto com a sua fonte viva, já pode restituir impressões dignas do fulgor espiritual do esplendor da natureza — até que nasça a possibilidade de contemplar não só a sua face terrena, mas também o seu fulgor celeste, numa certa medida, proporcional às centelhas de luz do renascimento que se desenvolve.

Quando a alma do povo se reergue, o céu volta a ver-se em sua pureza.

Uma intuição rara e delicada: a beleza não é só uma questão de olhos, mas de inteireza. O Rav Kook distingue dois níveis na natureza — a sua face sensível (que qualquer um pode fruir, e na qual se pode até "esquecer" a dor) e o seu fulgor celeste (o sentido espiritual que reluz através dela). E observa que uma alma ferida — a de um povo fraturado — sente, ao subir a esse nível mais alto, a sua própria fratura, e emudece. Por isso a cura é coletiva: à medida que a vida nacional se reergue, ligada à sua fonte, o olhar volta a alcançar "o céu em sua pureza". A estética, aqui, é filha da redenção.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §29. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. A citação remete ao Talmud, Berachot 59a (sobre Yeshayahu 50:3). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.