Orot · As Luzes do Rav Kook

A Santidade do Corpo

Talvez a passagem mais surpreendente do Rav Kook: temos "carne santa" não menos do que temos espírito santo. A saúde e o vigor do corpo não se opõem à vida da alma — fazem parte dela. Um elogio espiritual à força física.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá), 33 Tradução inédita · PT-BR

É um trecho breve, mas dos mais célebres e ousados de Orot. Numa época em que a religiosidade tendia a desprezar o corpo, o Rav Kook faz o contrário: declara que o corpo é santo, que a saúde e a força física são uma exigência espiritual, e que um povo que renasce precisa renascer também na carne. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

Temos carne santa

שָׁכַחְנוּ שֶׁיֵּשׁ לָנוּ בָּשָׂר קֹדֶשׁ, לֹא פָחוֹת מִמַּה שֶּׁיֵּשׁ לָנוּ רוּחַ הַקֹּדֶשׁ "Esquecemo-nos de que temos carne santa — não menos do que temos espírito santo." Orot — Luzes do Renascimento, 33

Grande é a nossa exigência corporal: precisamos de um corpo são. Ocupamo-nos muito com o que é da alma, e esquecemos a santidade do corpo; abandonamos a saúde e o vigor físico; esquecemos que temos carne santa, não menos do que temos espírito santo. Deixamos a vida prática, e o apuro dos sentidos, e o vínculo com a realidade física concreta — por um temor decaído, por falta de fé na santidade da terra.

Os Sábios já liam, na própria palavra "fé", esse elo com o trabalho da terra: "‘fé’ — esta é a ordem [das leis sobre] as sementes (Zera‘im): pois [o lavrador] crê na Vida dos mundos, e semeia" (Shabat 31a). Plantar é um ato de fé; cuidar do corpo e da terra não afasta de D'us — aproxima.

Isto não é materialismo, mas integração. A tradição racionalista nunca desprezou o corpo: o Rambam ensina (Hilchot Deot 4) que "manter o corpo são e íntegro está entre os caminhos de D'us, pois é impossível compreender ou conhecer [o Criador] estando doente". O corpo é o instrumento da alma; cuidá-lo é parte do serviço divino. O Rav Kook leva essa ideia ao seu auge: a carne, bem cuidada, é santa.

A teshuvá também é física

Por isso, toda a nossa teshuvá (o retorno, a renovação) só se cumprirá se for, com todo o esplendor da sua espiritualidade, também uma teshuvá física: que gere sangue são, carne sã, corpos firmes e bem formados; um espírito ardente a brilhar sobre músculos fortes. E, pela força da carne santificada, voltará a brilhar a alma que se havia enfraquecido.

Pela força da carne santificada, volta a brilhar a alma que se enfraquecera.

O Rav Kook chama a isso "uma lembrança da ressurreição corporal dos mortos" — pois recuperar a dignidade e o vigor do corpo, na vida deste mundo, é já um sinal, uma antecipação, da reunião plena de corpo e alma que a tradição promete. Cuidar do corpo, então, não é fuga do sagrado: é prepará-lo para ser, ele também, morada da luz.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), seção 33. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. É um capítulo breve mas denso; a nota em destaque ancora-o na ética do corpo do Rambam (Hilchot Deot), para deixar claro que se trata de integração de corpo e alma, não de materialismo. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.