Orot · As Luzes do Rav Kook

O Sagrado Oculto no Mundano

A maior grandeza esconde-se nos lugares mais baixos. A alma humana é mais alta que os anjos — e justamente por isso desceu ao fundo, para de lá subir. Assim também o sagrado se esconde dentro do que parece comum e profano, à espera de ser revelado.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá), 46 Tradução inédita · PT-BR

Eis um dos paradoxos prediletos do Rav Kook: a grandeza maior costuma esconder-se onde menos se espera. Em poucas linhas, ele une duas ideias — a alma humana, mais alta que os anjos, e o sagrado escondido dentro do mundano — para ensinar que descer não é, necessariamente, cair: às vezes, é o caminho para uma subida ainda maior. O que segue é uma tradução inédita ao português, a partir do hebraico original (de domínio público).

A alma, mais alta que os anjos

כְּשֵׁם שֶׁנִּשְׁמַת הָאָדָם הִיא יוֹתֵר עֶלְיוֹנָה וְיוֹתֵר פְּנִימִית מֵהַמַּלְאָכִים "Assim como a alma do homem é mais elevada e mais íntima do que os anjos..." Orot — Luzes do Renascimento, 46

Assim como a alma do homem é mais elevada e mais íntima do que os anjos — e justamente por causa da sua grandeza desceu até o degrau mais baixo, e de lá tornará a subir com um ganho grande e poderoso, preparando consigo o mundo inteiro para uma ascensão suprema e original —, assim também o sagrado que há no profano (ha-kodesh she-ba-chol), que desceu até a completa secularidade, é mais sublime e santo do que o sagrado que há no [próprio] sagrado; só que está muito escondido.

A afirmação de que a alma humana é mais alta que os anjos é uma das marcas da dignidade que a tradição confere ao ser humano. O anjo é puro, mas fixo; a alma humana, capaz de descer e errar, é também capaz de escolher, crescer e reerguer-se — e por isso traz consigo, na subida, um "ganho" que o anjo não tem. A queda possível é o preço da liberdade; e a liberdade é o que torna a ascensão real, e não automática.

O sagrado escondido no comum

E não há limite nem fim para os reparos do mundo que virão de todo o bem que chega ao mundo pela via do profano [da vida comum] — bem que revelará a sua glória e o seu esplendor no tempo venturoso, do qual se disse: "não haverá luz preciosa, mas frio e geada [...]; e ao tempo da tarde haverá luz" (Zechariá 14:6-7).

וְהָיָה לְעֵת עֶרֶב יִהְיֶה אוֹר "E ao tempo da tarde haverá luz." Zechariá 14:7

Antes da luz do Mashiach — que se revele depressa, em nossos dias —, despertará a força do sagrado que há no profano; e, no seu primeiro despertar, ela despertará [primeiro] o próprio profano, e todos falarão "na língua dos homens, e não na língua do Santo" (Zohar) — isto é, a renovação começará a exprimir-se em termos comuns, humanos, antes de revelar a sua raiz sagrada. E sobre isto se disse: "também a minha língua, todo o dia, meditará a Tua justiça" (Tehilim 71:24).

Descer não é, necessariamente, cair: às vezes é o caminho de uma subida maior.

A lição, para a vida de cada um, é luminosa: não se deve desprezar o que parece "comum" — o trabalho, o corpo, a vida prática, a linguagem cotidiana. É justamente aí, no mundano, que dorme um sagrado profundo, à espera de quem saiba despertá-lo. O caminho de volta para o alto passa por dentro do mundo, não por fora dele.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), seção 46. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. É um capítulo breve mas denso; a frase do Zohar ("na língua dos homens, e não na língua do Santo") foi acompanhada de uma breve glosa para o seu sentido. Forma um par natural com "A Santidade do Corpo": ambos veem o sagrado no físico e no mundano. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.