Depois de afirmar o vínculo essencial entre Israel e a sua Terra (§1) e de diagnosticar o que turva a percepção desse vínculo (§2), o Rav Kook descreve aqui o seu efeito mais concreto: onde, afinal, Israel pode criar a partir de si mesmo. E faz do próprio exílio parte de um processo de purificação. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
A criação autêntica só na Terra
A criação própria de Israel [yetzirá atzmit] — no pensamento, e na força da vida e da obra — não é possível a Israel senão na Terra de Israel. Em contrapartida, tudo o que Israel faz na Terra de Israel: a forma universal que nele há anula-se diante da forma essencial e singular de Israel — e isto é uma grande ventura para Israel e para o mundo.
A tese é forte e merece nuance. O Rav Kook não diz que o judeu da diáspora nada cria — diz que a criação verdadeiramente a partir de si mesmo, em que a forma própria de Israel domina a forma "universal" (a que ele partilha com todos os povos), só floresce na Terra. Fora dela, o melhor de Israel exprime-se sempre "traduzido" para moldes alheios; na Terra, a sua voz própria fala em primeira pessoa. E isto, sublinha ele, é bom "para Israel e para o mundo" — pois o mundo precisa também dessa voz singular.
O exílio como filtragem lenta
Os pecados que causam o exílio são justamente os que turvam a fonte essencial, e o manancial passa a gotejar gotejos impuros ("o Santuário do Senhor ele profanou", Bamidbar 19:13). E, quando a fonte essencial e singular é corrompida, a originalidade fundamental eleva-se àquela parte suprema e essencial que Israel possui na sua condição de [tzelem] humano — e isto se haure precisamente no exílio; e a Terra é arruinada e desolada, e a sua destruição expia por ela.
A fonte cessa de jorrar e passa a filtrar-se pouco a pouco, e as manifestações da vida e do pensamento saem pelo canal universal, que está espalhado por todo o mundo:
...até que os gotejos impuros e particulares cessam, e a força da fonte volta à sua pureza.
Eis uma leitura surpreendentemente consoladora do exílio. Ele não é só castigo: é também filtragem. Quando a fonte particular de Israel se contaminou, a sua originalidade refugia-se na parte mais alta e universal da alma — aquela que Israel tem enquanto ser humano, criado à imagem de D'us — e é por esse "canal universal", disperso entre as nações, que a vida e o pensamento de Israel seguem fluindo. A dispersão preserva a água enquanto a nascente se decanta. E a própria desolação da Terra "expia por ela", guardando-a para o seu povo.
O retorno: a fonte purificada
E então o exílio torna-se de todo desprezível, e eis que é supérfluo; e a luz universal volta a brotar da fonte essencial e particular, em todo o seu vigor; e a luz do Mashiach, que reúne os dispersos, começa a despontar. E a voz de pranto amargo de Rachel, que chora pelos seus filhos, é adoçada por uma abundância de consolações:
E a criação da vida singular [de Israel], em toda a sua luz e na sua distinção própria, saturada pelo orvalho da riqueza universal do "grande homem entre os gigantes" [Avraham] — a bênção de Avraham — volta a revelar-se precisamente por meio deste retorno. Como disseram os Sábios sobre "e sê uma bênção": "contigo se conclui [a bênção]" (Pessachim 117b).
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "A Terra de Israel" (Eretz Yisrael, na seção Orot me-Ofel), §3. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Zecharyá 2:10 ("como os quatro ventos vos espalhei") e Yirmiyahu 31:16-17 (a consolação de Rachel); ecoam ainda Bamidbar 19:13, Yehoshua 14:15 ("o grande homem entre os gigantes", lido como Avraham) e Pessachim 117b ("contigo se conclui a bênção"). As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais, para auxiliar a leitura. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.