Orot · As Luzes do Rav Kook

O Vinho e a Borra: a força tosca que sustenta a vida

Uma imagem clássica e provocadora: assim como não há vinho sem borra, não há mundo sem o que é tosco — a força bruta e terrena da vida, que sustenta e preserva o todo. O exílio, ensina o Rav Kook, afinou demais essa "borra" da nação, pondo a sua vida em risco; o retorno à terra recria a força vital tosca — que, no fim do processo, assenta no fundo e se purifica.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §45 Tradução inédita · PT-BR

Esta é uma das páginas mais difíceis e mais corajosas das "Luzes do Renascimento". O Rav Kook usa uma imagem da vinha — o vinho e a sua borra — para enfrentar uma verdade incômoda: que uma vida coletiva sadia precisa também da sua força bruta, terrena, "tosca". O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público. Pede-se ao leitor que a acompanhe até ao fim, onde a imagem se resolve em esperança.

Não há vinho sem borra

Assim como é impossível ao vinho existir sem borra [a sua sedimentação], assim é impossível ao mundo existir sem o que nele é tosco. E, assim como a borra firma o vinho e o conserva, também a força vital bruta dá existência e sustentação a toda a abundância da vida — a de todos, dos medianos e dos justos. Quando a borra se reduz demais e o vinho fica sem ela, fica sujeito a estragar-se e azedar.

Nota de contexto

A imagem é forte — e exige leitura cuidadosa. O Rav Kook não está a elogiar o mal, nem a chamar "bons" os atos cruéis. Vale-se de uma metáfora antiga da vinha: o vinho só se conserva sobre a sua borra (o sedimento); separado dela cedo demais, azeda. Assim, uma sociedade viva precisa também da sua energia tosca, terrena, vigorosa — a vitalidade material crua, sem a qual a vida "espiritualizada" demais se torna frágil. O que aqui se traduz por "o tosco" e "a força bruta" aponta para essa energia vital não refinada — e o próprio texto mostrará, ao fim, que ela se purifica. É uma reflexão sobre a função dessa força no processo, não um juízo sobre o valor de pessoas.

O exílio afinou demais a borra

O exílio empobreceu a força vital da nação, e a nossa "borra" reduziu-se grandemente — a ponto de haver perigo para a vida da nação, pela falta de um apego espesso à vida, aquele que se prende à vitalidade terrena, à terra e ao seu enraizamento material. A existência no exílio é uma existência fragmentada; e essa existência empobrecida — que é mais ausência do que ser — pôde prolongar-se por algum tempo mesmo carente dessa força vital, conforme a necessidade impunha.

לַכֹּל זְמָן, וְעֵת לְכָל חֵפֶץ תַּחַת הַשָּׁמָיִם "Para tudo há um tempo, e há um tempo para cada propósito debaixo do céu." Kohelet (Eclesiastes) 3:1

Mas a tudo [chega] o seu tempo, e a força já se esgotou; e a existência essencial reclama a sua função. O retorno de Israel à sua terra, em prol da sua existência essencial, é um acontecimento necessário; e essa existência cria a sua própria "borra".

A borra assenta no fundo

Estes são os lados turvos pelos quais a existência clara e alegre vem a formar-se. E o fim do processo é este: o assentar da borra no fundo do tonel — o rebaixar das forças brutas para a profundidade da vida —, e então se anula nelas todo o seu conteúdo doloroso e perturbador.

Esta é a chave de toda a passagem, e o que a salva de qualquer cinismo. A "borra" não fica para sempre a turvar o vinho: o processo termina com ela a assentar no fundo, e o vinho a clarear por cima. A força tosca cumpre a sua função — preservar a vida da nação que voltava — e depois baixa, "e então se anula nela todo o seu conteúdo doloroso". Não há, no Rav Kook, romantização da rudeza: há a confiança de que, terminado o seu papel, o que era turvo decanta, e fica o vinho.

Mas, enquanto se formam — indo junto com o vinho, que é a vida da nação e o seu espírito que desperta —, [essas forças] turvam-no, e os corações se agitam ao ver a fermentação. E o coração só descansa e se aquieta no seu lugar ao olhar para o futuro, que vai abrindo o seu caminho, pelas maravilhas d'Aquele que é perfeito no saber:

מִי יִתֵּן טָהוֹר מִטָּמֵא, לֹא אֶחָד "Quem fará sair o puro do impuro? Não [é apenas] o Único?" Iyov (Jó) 14:4 — lido como: só D'us tira o puro do impuro
A borra cumpre o seu papel — e depois baixa; e fica o vinho.

O verso final é a oração de quem vê a fermentação e não se desespera. Lido à maneira dos Sábios, "quem fará sair o puro do impuro? — o Único" significa que D'us é capaz de extrair pureza do que parece impuro. Quem entende isso pode olhar para a turbulência de uma época de transição — a sua rudeza, a sua agitação — sem perder a paz, porque sabe para onde o processo caminha. A fermentação assusta; mas o vinho está a fazer-se.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §45. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; a imagem do "vinho e da borra" foi vertida com uma nota de contexto, por ser uma metáfora exigente. As citações são de Kohelet 3:1 e Iyov 14:4. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.