Diante de um renascimento nacional que crescia em grande parte por mãos seculares, muitos temiam: não seria isso um afastamento da fé? O Rav Kook responde com uma serenidade impressionante. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), a partir do hebraico de domínio público.
De dentro do edifício, um grande espírito
Desenvolver-se-á a colonização na Terra de Israel; será edificado o edifício nacional; e de dentro dele soprará um grande espírito. A alma da nação despertará para a vida; da profundidade da sua natureza reconhecerá toda a sua essência; da imensidão da sua força estabelecerá as ordens da sua própria vida. O espírito singular da nação estabelecerá no mundo a fé em Hashem, o Deus de Israel — e nem é preciso dizer que [a estabelecerá] dentro de si mesma.
O que a fraqueza retém
O desânimo e o enfraquecimento da força, que ora imperam, impedem a glória da fé de aparecer no mundo; retêm o movimento vivo dos preceitos práticos — e o laço da fé divina que há dentro deles — de surgir em todo o seu esplendor. Mas a força interior irromperá como o monte da Brecha [Har Peretz] — como naquele dia em que se disse:
E a vida israelita — por uma necessidade interior e por um reconhecimento livre, ao mesmo tempo — dará a si mesma a feição que lhe é própria. E essa feição, natural a ela, é justamente a que trará a grande teshuvá: a teshuvá do amor, sem queda alguma de ordem material — mas um retorno interior, que jorra da profundidade da verdade na luz de vida da alma.
A distinção é decisiva. Há a teshuvá do medo — que nasce da queda, do golpe, da catástrofe; e há a teshuvá do amor — que nasce da plenitude, quando a alma, em vida e em força, reconhece de dentro a verdade. O Rav Kook anuncia esta segunda: o renascimento não trará o retorno por meio de um colapso, mas porque a própria vida nacional, ao florescer na sua forma natural, fará jorrar a verdade que sempre esteve nela. O retorno não é punição; é maturação.
Não temer a onda
Não há por que se afligir, em absoluto, com as correntes do espírito nacional natural que vai crescendo e rugindo. Até mesmo as avarias que ele causa no seu percurso — terminarão, ao fim, por chegar à condição de construção e reparo.
Eis o coração do otimismo do Rav Kook diante do sionismo secular do seu tempo. A onda do renascimento nacional pode parecer turva, profana, até destrutiva em certos pontos — e ele não nega que haja "avarias" no caminho. Mas lê o movimento inteiro como um processo cujo sentido é a construção: a força que rompe a barragem é a mesma que irrigará o campo. Quem teme a onda esquece de onde ela brota. A serenidade aqui não é ingenuidade — é a confiança de quem vê a fonte divina escondida dentro até do que ainda não a nomeia.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §31. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A imagem do "monte da Brecha" remete a II Shmuel 5:20 (Baal-Peratzim); o verso da teshuvá é Hoshea 14:5. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.