Esta seção das "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá) trata de uma questão sempre atual: como deve Israel relacionar-se com a cultura, a ciência e o saber do mundo? A resposta do Rav Kook depende de uma só palavra — força. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
Da força, o mundo é bom
Quando a força de Israel é grande, e a sua alma brilha nele em [plena] manifestação, e os seus ramos práticos estão bem ordenados — numa ordem completa, em santidade, em unidade e bênção, em Templo e governo, em profecia e sabedoria —, então a expansão para o lado do secular: para os deleites dos sentidos espirituais e físicos, para um olhar penetrante e profundo na vida da multidão de povos e nações diversos, nas suas obras e nas suas literaturas, e o fortalecimento do vigor da vida natural — tudo isso é bom, e capaz de alargar a luz do bem. E a "fronteira" [o âmbito permitido] é larga: doze mil, como todo o acampamento de Israel — que, na sua qualidade, de fato abrange o mundo inteiro: "Ele estabeleceu os limites dos povos segundo o número dos filhos de Israel" (Devarim 32:8).
A contração do exílio
Quando a luz escureceu, quando a Presença Divina foi para o exílio, quando os pés da nação foram arrancados da sua casa de vida — começou a exigir-se a contração (tzimtzum). [Então] toda força secular passou a ser um possível tropeço; toda beleza natural e o seu desejo, capazes de obscurecer a luz do sagrado e a simplicidade da pureza e do recato; todo pensamento que não crescera por inteiro dentro do "acampamento de Israel", capaz de arruinar a ordem da fé e da vida israelita — pois "engordou Yeshurun, e deu coices" (Devarim 32:15). Daí vieram a tristeza e a renúncia, a melancolia e o medo; e, mais do que sobre a vida física, eles agiram sobre a vida espiritual — sobre a largura do pensamento, sobre o voo do sentimento.
É importante ler a "contração" como o que ela é: uma medida de emergência do exílio, não o ideal. Sem terra, sem Templo, sem vida pública, a comunidade ferida tinha de se proteger — e toda influência externa era, de fato, um risco. Mas o Rav Kook não romantiza esse encolhimento: observa que ele "agiu sobre a vida espiritual ainda mais do que sobre a física", estreitando a largura do pensamento e o voo do sentimento. A muralha que protege também aperta. E a sua mensagem é clara: o que era necessário na fraqueza não é a vocação da força.
Alargar a tenda
...até que o fim desperte, quando uma voz clama com força:
E a "fronteira" curta de dois mil côvados [a medida estreita do exílio] vai-se alargando, na medida da salvação de Israel, cuja luz cresce pouco a pouco.
A imagem é a do techum, o limite que se pode percorrer no Shabat: estreito (dois mil côvados) no exílio, largo (doze mil) quando a nação está inteira. O recado é confiante: o engajamento com o mundo — as suas ciências, as suas artes, as suas culturas — não é uma traição à santidade quando se faz a partir da força, de uma alma firme e ordenada. Aí, tudo isso "alarga a luz do bem". A muralha do exílio era um abrigo; mas a casa do renascimento tem janelas. E a salvação, lembra o Rav Kook, vem "pouco a pouco" — a tenda alarga-se aos poucos, à medida da luz.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §15. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar o sentido, organizando o texto para a leitura. As citações remetem a Devarim 32:8 e 32:15 e a Yeshayahu 54:2-3; a imagem do "techum" (limite de Shabat) e a medida "doze mil" ecoam o Talmud. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.