Orot · As Luzes do Rav Kook

Razão e Mistério: por que a crítica precisa do oculto

Costuma-se opor o rigor da razão à intuição do mistério, como se um ameaçasse o outro. O Rav Kook desfaz a oposição: a racionalidade só floresce porque, além do seu limiar, o "oculto" faz a sua obra — e é da união dos dois que se ergue a luz mais alta.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §59 Tradução inédita · PT-BR

Há uma briga antiga, e falsa, entre a razão e o mistério — entre a crítica rigorosa, que analisa e mede, e a intuição do que transcende toda medida. Numa página densa e luminosa, o Rav Kook recusa essa oposição e propõe uma aliança: o oculto e a crítica não se anulam — fundam-se um ao outro. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).

O oculto que dá a medida

O oculto [a dimensão que transcende a consciência] há de vencer o mundo pela sua liberdade, que não conhece o limite da opressão; e, justamente ele, conhece com extremo rigor o limite da honra, da sabedoria e da retidão do coração. Só a disposição para a visão oculta dá a conhecer à humanidade o seu próprio valor e o valor do mundo.

הַנִּסְתָּרֹת לַד' אֱלֹהֵינוּ, וְהַנִּגְלֹת לָנוּ וּלְבָנֵינוּ "As coisas ocultas pertencem ao Senhor, nosso D'us; e as reveladas, a nós e aos nossos filhos." Devarim (Deuteronômio) 29:28

Há um paradoxo fecundo aqui. Seria de esperar que o "oculto" — o ilimitado, o que escapa à medida — fosse fonte de excesso e desmedida. O Rav Kook diz o contrário: é justamente quem tem acesso ao ilimitado que sabe, "com extremo rigor", onde está o limite — da honra, da sabedoria, da retidão. E mais: é o senso do transcendente que dá ao ser humano a noção do seu valor. Sem um horizonte maior do que ele, o homem não tem como medir a sua própria grandeza.

A razão repousa no que a transcende

A racionalidade só se desenvolve porque, para além do limiar da sua consciência, o oculto realiza a sua obra — científica e moral. É falsa a suposição corrente de que o oculto turva a ciência clara e a crítica rigorosa. Pelo contrário: é justamente por meio do oculto — pela força do seu canto e pela profundidade do seu raciocínio — que se assenta, sobre fundamento firme, a posição da ciência que sempre se renova e da crítica precisa, que analisa e penetra.

A racionalidade floresce porque, além do seu limiar, o oculto faz a sua obra.

Eis a tese central, e é surpreendentemente moderna. A objeção habitual diz: a mística "embaça" a ciência; quanto menos mistério, mais clareza. O Rav Kook inverte: a própria razão crítica repousa sobre algo que ela não produz — um senso de ordem, de valor, de verdade, que vem "de além do limiar da consciência". O cientista que confia que o mundo é inteligível, o crítico que crê que a verdade importa, já estão amparados por um pressuposto que a razão não demonstra a si mesma. Longe de turvar a ciência, esse fundamento oculto é o que a sustenta. Razão e transcendência não competem: a primeira cresce no solo da segunda.

Os dois rios, um alicerce

E da união destes dois fluxos, na sua grande riqueza — o oculto e a crítica —, edificar-se-á o alicerce firme da luz divina suprema, que está acima de todo pensamento e de toda consciência. Esse grande espírito bate às nossas portas, e vai soprando no nosso acampamento; e forma, no seu recôndito, a luz do Mashiach, em todos os seus valores, sentidos e manifestações.

A imagem é a de dois rios que, juntos, irrigam um só solo. Não se trata de escolher entre o coração e a mente, entre a poesia do mistério e o bisturi da análise — mas de deixar que ambos, "na sua grande riqueza", construam o mesmo alicerce. É a mesma sabedoria de outras páginas do Rav Kook: o sábio que domina os detalhes (a crítica) e o que anseia pela fonte oculta (o mistério) não são rivais; o futuro pleno é o seu encontro.

Renovar o homem primordial

Esse espírito dará força nova e renovação de alma a Israel — para voltar a fazer brotar o chifre da salvação e a plantar-se de novo no solo sagrado, como nos dias antigos, com largueza de conhecimento e um caráter livre e original, digno de ser reconhecido por todos os confins da terra, para honra e glória; para redimir os esmagados dos exílios e os oprimidos na justiça, e resgatar as almas oprimidas e sombrias dos sofrimentos das suas trevas; e para renovar ainda o esplendor do homem primordial, na pureza da sua natureza — com toda a bênção acrescentada da cultura nova e boa.

כִּי מָלְאָה הָאָרֶץ דֵּעָה אֶת ד', כַּמַּיִם לַיָּם מְכַסִּים "Porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar." Yeshayahu (Isaías) 11:9

Repare-se na amplitude do horizonte. O renascimento de que o Rav Kook fala não é um fim em si, nem um bem de um só povo: o seu alvo é "renovar o esplendor do homem primordial" — o ser humano como tal, na pureza original da sua natureza —, e fazê-lo "com toda a bênção da cultura nova e boa". Ou seja: não um retorno nostálgico que rejeita o progresso, nem um progresso que esquece a raiz, mas a reconciliação dos dois — o homem de sempre, renovado, abraçando o melhor do novo. E o sinal de que se chegou lá é universal: "a terra cheia do conhecimento de D'us, como as águas cobrem o mar".

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §59. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar a densidade do original, organizando-o para a leitura. Os versos citados (Devarim 29:28 e Yeshayahu 11:9) são acréscimos ilustrativos, que iluminam os temas do "oculto e revelado" e do conhecimento universal; não constam do trecho original. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.