Orot · As Luzes do Rav Kook

A Alma do Escritor: a pureza que se vê na escrita

Pode um texto ser maior do que a alma de quem o escreveu? Para o Rav Kook, não: a literatura flui do interior de quem a faz, e o estilo revela — a leitores sensíveis — a pureza ou a impureza da ideia, por mais hábil que seja a pena. Por isso o escritor verdadeiro começa por si.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §§36-37 Tradução inédita · PT-BR

Num par de seções breves e penetrantes, o Rav Kook escreve sobre a ética da escrita — um tema raro e atual. A sua tese é exigente: não há grande literatura sem grandeza de alma em quem a produz; e o leitor atento sente, sob as palavras, o que o autor é. O que segue é uma tradução inédita ao português das duas seções, a partir do hebraico original (de domínio público).

Não há literatura sem alma purificada

Não é possível que a literatura prospere sem a santificação das almas dos que escrevem. Todo escritor que não se esforça por purificar as suas qualidades, por depurar os seus atos e pensamentos — até que o seu próprio mundo interior se encha de luz, e a perfeição interior se faça sentir nele, junto com o cuidado de completar o que lhe falta, e de encher-se de uma humildade mesclada de força e de serenidade, com um forte despertar intelectual e emocional para fazer o bem e para iluminar-se a si mesmo, e um desejo sublime de manter-se no auge da pureza — enquanto não estiver nesse estado, não poderá ser chamado, em verdade, de "escritor" (sofer).

Pois [como disseram os Sábios] "os antigos eram chamados soferim porque contavam (sofrim) as letras da Torá" — e a contagem das letras da Torá elevou-os a um grau supremo de pureza de espírito e de força de alma, até que o nome "soferim" lhes ficou bem. E, se queremos reavivar a literatura, devemos ir por este caminho sagrado: vir da santidade para a literatura.

וְהָיָה שָׁם מַסְלוּל וָדֶרֶךְ, וְדֶרֶךְ הַקֹּדֶשׁ יִקָּרֵא לָהּ "E ali haverá uma estrada e um caminho, e chamar-se-á o Caminho da Santidade... e por ele andarão os redimidos." Yeshayahu (Isaías) 35:8-9

Há uma etimologia luminosa aqui. Sofer — "escritor", "escriba" — vem da mesma raiz de contar (sofer ↔ sofrim): os primeiros "escritores" eram os que contavam, uma a uma, as letras da Torá, com um cuidado tão reverente que o próprio ofício os santificava. O Rav Kook recupera esse ideal: escrever não é só ter talento com palavras — é uma disciplina da alma. E inverte a ordem habitual: não se vai da literatura à eventual elevação; vai-se "da santidade para a literatura". Primeiro a pessoa; depois a página.

O estilo não esconde a alma

A literatura há de santificar-se, e também os que escrevem; o mundo elevar-se-á para reconhecer a força grande e delicada da literatura — o erguer do fundamento espiritual no mundo, em toda a sua elevação. A luz irá rompendo, e a exigência firme há de reclamar o que lhe é devido. Os que a reclamam são muitas almas sedentas e sensíveis, que reconhecem — pela "fisionomia" das expressões e do estilo — a impureza da ideia em muitos escritores: impureza que nenhuma retórica moral, nenhuma veste poética, consegue cobrir.

עָקֹב הַלֵּב מִכֹּל וְאָנֻשׁ הוּא, מִי יֵדָעֶנּוּ "O coração é enganoso, mais do que tudo, e está doente; quem o conhecerá?" Yirmiahu (Jeremias) 17:9

Esta é a observação mais aguda — e mais inquietante — das duas seções. Há, diz o Rav Kook, uma espécie de "fisionomia" da escrita: assim como um rosto trai o caráter, o estilo trai a alma. O leitor sensível sente, por trás das frases, quem as escreveu — e nenhuma eloquência, nenhum verniz "moral" ou "poético", consegue esconder uma ideia impura. O coração humano é capaz de muito disfarce ("o coração é enganoso"), mas o que se escreve do fundo dele acaba por aparecer. Daí a responsabilidade: escrevemos sempre mais do que dizemos.

Pensar a teshuvá antes de criar

Mas este espírito de impureza, como todo espírito de impureza, há de passar, anular-se do mundo e desaparecer por completo; e a literatura santificar-se-á, e cada escritor começará a conhecer a sublimidade e a santidade que há no seu trabalho, e não molhará a sua pena sem pureza de alma e santidade de ideia. Que ao menos preceda, antes de toda criação, o pensamento da teshuvá — fundos arroubos de retorno. Então a obra sairá na sua pureza; o espírito de D'us repousará sobre ela.

Não molhar a pena sem pureza de alma — que o pensamento de retorno preceda toda criação.
רוּחִי אֲשֶׁר עָלֶיךָ וּדְבָרַי אֲשֶׁר שַׂמְתִּי בְּפִיךָ, לֹא יָמוּשׁוּ מִפִּיךָ "O meu espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se apartarão da tua boca... desde agora e para sempre." Yeshayahu (Isaías) 59:21

O conselho final é simples e vale para qualquer um que crie — escritor, artista, ou quem apenas escreve uma mensagem: que um instante de clarificação interior preceda o ato. Não se trata de censura nem de pose piedosa, mas de lembrar que a pena é, à sua maneira, sagrada — que aquilo que lançamos ao mundo carrega a nossa alma. Quem escreve a partir de um coração esclarecido escreve outra coisa. E então, promete o Rav Kook, a obra "sai na sua pureza", e algo do espírito de D'us repousa sobre ela.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §§36-37. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziram-se as duas seções inteiras. A etimologia de sofer (contar as letras) remonta ao Talmud (Kidushin 30a); os versos citados são de Yeshayahu 35:8-9, Yirmiahu 17:9 e Yeshayahu 59:21. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.