Esta passagem das "Sementes" começa com uma promessa silenciosa — a de que nenhum ato bom se perde — e termina numa das visões mais consoladoras do Rav Kook: a de que o divino habita até o que parece humilde, pobre e imperfeito. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico original (de domínio público).
O bem que se entesoura em silêncio
Uma luz de vida e de bem, de força ativa e de vigor universal, sai para o indivíduo e para a nação inteira a partir da beleza, do bem, da força e da eternidade que estão guardados, de modo oculto, no poder dos sentidos secretos dos mandamentos feitos com fé, em nome do Céu. Quem se afrouxa das palavras da Torá — mesmo de um mandamento leve — não tem força para se manter firme na hora da aflição. E quem cumpre os mandamentos e se apega à Torá sem afrouxar, a força de vida guardada no fundamento dos seus sentidos faz nele a sua obra — ainda que, no momento de cumprir e de estudar, ele não sinta acréscimo algum de vigor, físico ou espiritual. E, sempre que for preciso uma força de vida manifestar-se, sai uma força de vida entesourada, que foi guardada pela Torá e pelos mandamentos, e que aquece o coração e ilumina a alma.
Eis uma ideia profundamente encorajadora, e universal. Tantas vezes praticamos o bem — uma palavra gentil, um dever cumprido, um pequeno gesto de fidelidade — e nada parece acontecer; nenhum brilho, nenhuma recompensa visível. O Rav Kook diz que isso é uma ilusão dos sentidos: cada ato bom feito com sinceridade deposita em nós uma reserva oculta de vida. Não a sentimos no momento — mas ela está lá, e aflora "na hora da aflição", quando, sem saber de onde, encontramos forças para resistir. O bem que fazemos nunca se perde; apenas espera.
Elevar o coração sem fingir que se compreende tudo
Os pensamentos elevados, guardados nos mandamentos, podemos atraí-los para dentro do nosso coração sob uma veste de imagens do intelecto que caminham com a vida. Não erraremos ao ponto de imaginar que, se essas coisas elevadas — as metas divinas — se nos revelam, já poderíamos medir todo o seu valor; mas sabemos que o nosso coração tem sobre o que se elevar, e a nossa força de vida tem sobre o que assentar as suas ações, num querer livre e cheio de prazer.
Um equilíbrio fino entre humildade e aspiração. Por um lado, não devemos fingir que esgotámos o sentido de um mandamento só porque entrevimos algo dele — o seu valor excede sempre a nossa medida. Por outro, isso não nos paralisa: já temos "sobre o que nos elevar", já podemos agir com alegria e liberdade, apoiados naquilo que entrevimos. Não é preciso compreender tudo para começar a subir.
A Presença escondida no humilde
De longe, vemos a Comunidade de Israel coroada de toda a sua glória, como sonhamos com ela e esperamos vê-la — avançando com nobreza para ser plena em todas as suas forças, por si mesma e, por isso mesmo, também por todos. Na sua grandeza, ela não chega das suas formas de vida às suas ideias, mas o inverso: de cima para baixo — das suas reflexões sobre si e sobre o mundo é que chega ao seu tesouro prático, e ali encontra o seu repouso, ao dar corpo, na vida, à sua espiritualidade. E este é o segredo da teshuvá que traz a redenção: o edifício começa do seu interior, do ponto de Sião expandindo-se para fora.
Basta elevarmo-nos um pouco, purificarmos um pouco os sentimentos e o intelecto, e já estamos perto do futuro — já vemos o tremular dos seus raios de luz, ainda velados. E, dentro da vida visível, que muitas vezes toma a forma de uma "sucá humilde", cheia de pobreza material e espiritual — uma vida que recomeça por forças pequenas, movidas por ideias ainda obscuras, por corações cheios de sombras, de desânimo e até de dúvida e descrença —, dentro do seu próprio âmago esconde-se a Presença (Shechiná) do D'us vivo:
O fecho é de uma generosidade rara. O Rav Kook olha para um recomeço pobre, hesitante, cheio de falhas e de dúvidas — uma "sucá humilde" —, e, em vez de o julgar, enxerga ali a Shechiná escondida. É a mesma lição da força entesourada, agora no plano da história: o que parece pequeno e imperfeito pode carregar a maior das profundidades. Por isso "quão profundos são os teus pensamentos" — não desprezar o humilde começo, porque dentro dele pode estar a obra mais alta de D'us.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Sementes" (Zer'onim), "Os Atos da Criação" (Ma'asei Bereshit). O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira (três trechos); o terceiro, mais denso, foi levemente condensado para a leitura, preservando-se o sentido. Os versos citados são de Tehillim 51:20 e 92:6. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.