Orot · As Luzes do Rav Kook

As Três Vias do Retorno

O capítulo de abertura de Orot HaTeshuvá — As Luzes do Retorno. O Rav Kook descreve a teshuvá não como um ato de culpa, mas como o movimento mais profundo e natural da alma: o regresso à vida.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot HaTeshuvá, cap. 1 Tradução inédita · PT-BR

O Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook foi o primeiro Rabino-Chefe ashkenazi da Terra de Israel e, talvez, o pensador mais original do judaísmo no século XX: um homem em quem a profundidade haláchica, a paixão mística e uma sensibilidade quase poética se fundiram numa só voz. Sua obra Orot HaTeshuvá — "As Luzes do Retorno" — é amada por gerações porque faz algo raro: transforma a teshuvá, que muitos sentem como peso e remorso, na força mais luminosa e vital da existência.

Abrimos esta coleção pelo seu primeiro capítulo, no qual o Rav Kook distingue três níveis, ou três vias, pelas quais o ser humano retorna. O que segue é uma tradução inédita ao português, feita a partir do original hebraico (de domínio público) e cotejada com a tradução comunitária de licença aberta do Sefaria.

תְּשׁוּבָה טִבְעִית, אֱמוּנִית, שִׂכְלִית "Teshuvá natural, teshuvá da fé, teshuvá do intelecto." Orot HaTeshuvá 1 — título

Encontramos a teshuvá em três ordens: a) a teshuvá natural; b) a teshuvá da fé; e c) a teshuvá do intelecto.

I. A teshuvá natural

A teshuvá natural tem duas faces: uma física e outra anímica. A face física abrange todas as transgressões contra as leis da natureza, contra a ética e contra a Torá naquilo em que esta se entrelaça com as leis naturais. Pois toda conduta má termina por trazer doenças e dores, e delas sofre muito o indivíduo — e a coletividade. E depois que se torna claro à pessoa que ela mesma, por sua má conduta, é responsável por todo aquele empobrecimento da vida que lhe sobreveio, então ela volta a atenção para reparar a situação: para retornar às leis da vida, para guardar as leis da natureza, da ética e da Torá, a fim de tornar a viver — e de fazer com que a vida, em todo o seu frescor, retorne a ela.

A medicina, é verdade, ocupa-se muito disso; mas, ao que parece, essa grande obra ainda não foi inteiramente aperfeiçoada, e ainda não se encontrou a solução plena para todas as questões da teshuvá física — até onde é possível, dentro dos limites da vida, devolver ao ser humano tudo o que perdeu por causa dos atos que destroem o corpo e suas forças. Por isso, fica evidente que este ramo da teshuvá depende, e fortemente, dos demais: do anímico-natural, do religioso e do intelectual.

Mais interior é a teshuvá natural da alma e do espírito. É aquilo a que se chama "o remorso da consciência" — literalmente, o musar kelayot. A natureza da alma humana é caminhar pela vereda reta; e quando se desvia do caminho, quando cai no erro — desde que a alma ainda não esteja inteiramente corrompida —, esse senso de retidão aflige o coração, a pessoa se desfaz de dor e se apressa a retornar para reparar o que distorceu, até sentir que sua falta foi apagada. Esta parte da teshuvá é muito complexa, depende de inúmeras condições internas e externas, e há nela vários caminhos de engano dos quais é preciso resguardar-se; mas, ainda assim, ela é um dos fundamentos sobre os quais repousa toda a essência do retorno.

II. A teshuvá da fé

Depois da teshuvá natural vem a teshuvá da fé. Ela vive no mundo a partir da fonte da tradição e da religião, que tanto se ocupam do retorno. A Torá promete perdão aos que se voltam da transgressão; as faltas do indivíduo e da comunidade são apagadas pela teshuvá. Os Profetas estão repletos de palavras sublimes sobre o retorno — e, de fato, todo o valor da repreensão da Torá está edificado sobre a teshuvá da fé. Em suas profundezas há detalhes sem fim; só os seus princípios fundamentais já exigiriam longas explanações.

Note-se a ordem do Rav Kook: ele não começa pela religião. Começa pelo corpo e pela consciência — pela teshuvá que está inscrita na própria natureza do ser. A fé não substitui esse movimento natural; ela o eleva e o ilumina.

III. A teshuvá do intelecto

A teshuvá do intelecto é aquela que já adquiriu para si a natural e a da fé, que já chegou ao grau supremo — no qual a causa do retorno não é mais o sofrimento físico, anímico ou espiritual, nem apenas a influência da tradição recebida (seja o temor do castigo, seja a marca que cada lei e cada juízo deixam no interior da alma). A causa, agora, é um reconhecimento claro, que brota de uma visão íntegra do mundo e da vida — visão que se elevou ao seu auge depois que a tarefa natural e a tarefa da fé já gravaram nela, com beleza, as suas marcas.

Esta teshuvá, que contém em si as anteriores, já está plena de luz sem fim. Ela vem para converter todos os erros em méritos: de cada equívoco, extrai lições elevadas; de cada humilhação, ascensões maravilhosas. Esta é a teshuvá para a qual todos os olhos se erguem — a que necessariamente há de vir, e que, no fim, virá.

"De cada erro, ela extrai lições elevadas; de cada humilhação, ascensões maravilhosas."

Há, neste capítulo de abertura, toda uma visão de mundo. O retorno não é um castigo imposto de fora, mas a tendência mais íntima da realidade — o corpo que quer curar-se, a consciência que quer endireitar-se, a alma que quer reaproximar-se de sua fonte. A teshuvá mais alta não nasce do medo, mas da clareza: do dia em que enxergamos a totalidade da vida e compreendemos que voltar a D'us é, no fundo, voltar a nós mesmos.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot HaTeshuvá (As Luzes do Retorno), capítulo 1 — obra editada por seu filho, o Rav Tzvi Yehudá Kook. O original hebraico é de domínio público.

Esta é uma tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a Sefaria Community Translation (licença aberta), disponível em sefaria.org/Orot_HaTeshuvah. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.