Esta é a peça que abre Orot — densa, arquitetônica, quase um sistema inteiro em poucas páginas. A sua tese: existem duas ideias humanas fundamentais que voltam em todos os ciclos da vida — a ideia nacional (a forma como uma sociedade organiza a sua vida em comum) e a ideia divina (a aspiração do espírito ao Absoluto). A história do mundo é a história da relação entre as duas. Traduzo a seção inteira do hebraico de domínio público, condensando os trechos mais densos sem perder o argumento, dividida nas seis partes do original.
O estilo de vida e o estilo de pensamento de um povo revelam-se em duas grandes ideias que voltam sempre, no privado e no social, no espiritual e no prático: a ideia nacional — como estilo da vida ordenada da sociedade — e a ideia divina — como estilo do pensamento espiritual. Por vezes elas trocam de lugar (um "sentimento nacional" e uma "ideia divina"; ou uma "ideia nacional" e um "sentimento divino"), mas estão sempre em jogo.
A predisposição à ideia divina existe — de modo aberto ou oculto, reto ou distorcido — em todos os corações da humanidade, em todos os povos e famílias. Dela nascem religiões, sentimentos de fé, ordens e costumes, que movem grandes feitos na vida das nações e na política. São degraus do movimento rumo ao aperfeiçoamento da ideia divina.
Mas eis o ponto decisivo: quando uma sociedade, já desenvolvida nas suas estruturas, sente a luz divina como algo "longínquo e apagado" e decide caminhar sem ela — voltando-se para trás, fechando-se na sua ideia nacional isolada, sem mais buscar a fonte de onde brotou —, então ela encontra a velhice e a fraqueza. A máquina ainda gira por inércia algum tempo, mas "a seiva da vida vai minguando". Perdido o valor espiritual, perde-se o caráter do todo; os apetites do indivíduo levantam a cabeça acima da harmonia; vem o tédio, o desespero, a náusea — "não há verdade, nem bondade, nem conhecimento de D'us na terra" (Hoshea 4:1).
E quando a sociedade, sufocada sob o peso de uma vida sem alvo, procura a cura no materialismo — em sistemas fundados sobre riqueza efêmera e prazeres grosseiros —, é em vão: "a morte negra, muda e fria, não pode dar vida". E o Rav Kook sela a primeira parte com a ironia do profeta sobre o ídolo:
Só da fonte da vida podem brotar águas vivas. Uma cultura que corta a sua raiz divina é um ídolo dourado: belíssimo por fora, sem sopro por dentro.
Em Israel, a ideia divina encontrou a sua expressão viva em forma nacional, no mais alto grau. Desde a sua origem, este povo — que soube proclamar a ideia divina clara e pura "no tempo do domínio terrível da idolatria, na sua impureza e selvageria" — trouxe consigo uma aspiração: erguer uma grande coletividade humana que "guarde o caminho do Eterno, para fazer justiça e retidão" (Bereshit 18:19).
O essencial. A meta não era apenas alguns indivíduos santos vivendo à luz da ideia divina — eremitas, ascetas, sábios. Era um povo inteiro: com Estado, política, economia, exército, cultura — "um povo sábio e entendido, uma grande nação" (Devarim 4:6) — em que a ideia divina governa e "dá vida ao povo e à terra". Mostrar que não só santos isolados, mas sociedades inteiras, com todas as suas camadas, podem viver à luz de D'us. É o oposto da fuga do mundo: é a santificação do mundo.
Por isso a ideia divina preparou Israel — no temperamento, na "linhagem", na geografia — para que servisse a esse fim. E, nos seus dias de florescimento, "nos dias da bondade da sua juventude e do amor dos seus esponsais" (Yirmiyahu 2:2), Knesset Israel alcançou, na sua alma resplandecente, a fonte da luz superior, e enraizou o seu caráter nacional nas profundezas da ideia divina. No tesouro da sua ideia nacional ficou semeada e guardada a ideia divina — apta a iluminar o mundo inteiro com a sua glória. E mesmo nas suas quedas posteriores, "nunca se apagou do caráter nacional o selo da sua origem": no segredo da sua essência, ela segue mamando do canal superior da ideia divina.
Houve um tempo em que "os dois luzeiros se serviam de uma só coroa" em Israel — a ideia nacional de pé, em toda a sua estatura, ao lado da ideia divina. Foi a era de ouro do Primeiro Templo, o florescer dos dias de Shelomó, "a lua na sua plenitude". Naquela época curta em quantidade e longa em qualidade, a riqueza nacional somou esplendor à ideia divina, e a vida divina, na sua forma israelita, deu vida de honra e de elevação a todo o povo. Por isso os sábios disseram que "o mundo inteiro não valia tanto quanto o dia em que foi dado a Israel o Cântico dos Cânticos — pois todas as Escrituras são santas, mas o Cântico dos Cânticos é santo dos santos" (Mishná, Yadayim 3:5).
Mas só o espírito nacional, no seu conjunto, se elevou àquela altura; a moral do indivíduo ainda não se purificara o bastante para acompanhá-la. Em torno da "rosa superior" cresceram "espinhos e abrolhos": as culturas idólatras despertaram as paixões grosseiras, e a ideia nacional começou a separar-se da sua amamentação no seio da ideia divina. "Então começou a vacilar aquele trono firme, o trono do Eterno para a casa de David." E Israel, arrancado do seu modo de vida original, não teve mais força para se sustentar numa "nacionalidade seca", separada da fonte divina — e caiu numa queda terrível. "A fonte da ideia divina secou nele; a moral cessou de jorrar; e a ideia nacional deixou de dar o seu fruto." Tornou-se "uma vinha vazia" (Hoshea 10:1).
Os pecados foram tantos que a ideia nacional se afastou ao extremo da ideia divina, até o profeta exprimir a repreensão mais amarga ("Contendei com vossa mãe... pois ela não é minha mulher, e eu não sou seu marido" — Hoshea 2:4). Mas, nas profundezas onde nem o olhar do profeta alcança, "a última centelha divina nunca se apagou" — e a promessa permanece:
Quando o espírito de D'us se retirou da nação — ao separar ela o seu caráter nacional da fonte da sua vida —, tornou-se "devida" a obrigação do exílio. A vida coletiva, corrompida até o fundamento, teve de ser quebrada. Mas — e este é o segredo de toda a seção — a ideia divina e a ideia nacional israelita são tão correspondentes que cada uma carrega dentro de si a raiz da outra. Por isso, no exílio, a ideia divina contraiu-se e refugiou-se "num ninho pequeno e pobre": o mikdash me'at, o pequeno santuário das sinagogas e casas de estudo, da vida familiar pura, da observância da Torá. Estes são "marcos no exílio, sobreviventes de algo que foi vivo e inteiro e que voltará a viver na plenitude quando D'us restaurar o cativeiro do Seu povo". A ideia divina, pela sua altura, "pode reanimar até ossos secos" (cf. Yechezkel 37) — e só ela guardou o "ponto interior de Sião" da nação, para que estivesse pronta a ressuscitar quando viesse o tempo.
Sem lugar para influir sobre a ideia nacional, a ideia divina, no exílio, "elevou-se para além das fronteiras de qualquer povo particular" — rumo à aspiração moral universal, à ciência, à sabedoria abstrata — e dali lançou ao mundo "alguns raios de luz", que penetravam sobretudo nas tendas de Yaakov pelos restos da Torá e da profecia, e se espalhavam aqui e ali entre indivíduos buscadores de D'us, em todo povo e língua. Assim cumpriu a "missão de Israel", que "venceu todos os seus vencedores" e abrandou muito a maldade do homem idólatra.
Mas — adverte o Rav Kook — "não é este o repouso". A influência tênue de uma moral dispersa, sem lugar de honra na vida de um povo, não é o alvo. A fratura entre a ideia divina e a nacional "é a causa de toda a confusão no mundo social e político" — e só pode ser sarada no lugar da sua unidade natural: em Israel, no seu renascimento pleno na sua terra.
Por que teve de ruir aquela grandeza do Primeiro Templo? Porque "a alma do indivíduo ainda não estava preparada" para receber toda a força da ideia divina. O Segundo Templo já não teve a robustez coletiva do primeiro: apareceu nele "a força de indivíduos" — "os que se separaram da impureza dos povos da terra" —, não a força nacional plena.
E aqui o Rav Kook faz a sua distinção mais original. Toda aquela dimensão particular — a observância detalhada dos preceitos, e as crenças sobre "a vida eterna do indivíduo" e "a recompensa" pessoal — que antes estava contida dentro da grande luz geral da ideia divina (como "uma vela diante de uma tocha", invisível ao lado do seu fulgor), agora, com o recolhimento daquela luz geral, passou a destacar-se e a fixar-se. Nasceu então, da ideia divina recolhida, a sua "filha": a ideia religiosa (a "religião") — que veste a ideia divina e nunca renega a raiz da sua alma, mas que assume um caráter particular, voltado ao indivíduo. Foi um imenso bem educativo: deu à nação "alimento" para atravessar o exílio.
"A escuridão da noite" — diz ele numa imagem bela — "é que faz o homem erguer os olhos e contemplar a vastidão infinita dos céus." Assim, a escuridão da destruição alargou o horizonte do pensamento da nação: temas antes reservados a poucos (a vida do mundo vindouro, a ressurreição, a eternidade) tornaram-se patrimônio de todos.
Nota — uma leitura honesta. Nesta parte o Rav Kook critica o que chama de "religiosidade da qual D'us se retirou": uma combinação histórica, segundo ele malsucedida, de fragmentos da luz divina de Israel — já desfocados da sua fonte — com elementos do antigo paganismo. É uma tese filosófico-histórica sobre a separação das ideias, não desprezo por pessoas: o seu próprio argumento insiste que a luz divina é "universal e desejada por toda alma bela", "preparada para todo povo e todo ser humano". A crítica é à fratura (a religião sem a sua raiz divina-nacional, ou o nacionalismo sem alma), e o remédio que ele propõe é a reunificação — nunca o ódio. Lê-se aqui também o seu diagnóstico do Ocidente moderno: quando "o sentimento religioso" toma o lugar da ideia divina inteira, a heroica idealidade da alma "desce dez degraus", e a ideia nacional cai a um mero "cálculo político" — "o Estado como uma grande companhia de seguros". Dessa dupla queda "esvaiu-se o brilho da vida do mundo".
Por isso, conclui ele, nenhuma humanidade conseguiu criar "um centro nacional em que a ideia divina seja a aspiração interior da ideia nacional" — "para isso só é apto este povo". E a tendência religiosa que se desviou da sua raiz "não poderá subsistir" quando a cultura social amadurecer: pessoas capazes de consciência moral exigirão uma moral mais pura do que a que ela pode dar. A própria necessidade espiritual geral fará passar "as partes turvas" depois de cumprido o seu papel — e então "restará a questão divina em toda a sua pureza", e a luz religiosa, "tirada diretamente da luz da ideia divina-nacional viva na fonte de Israel", subirá à altura da sua raiz, levando consigo "toda a riqueza espiritual acumulada justamente naqueles dias de escuridão". A quinta parte fecha com o verso e o poema do próprio Rav Kook:
"Mudará e de todo passará / todo reino de idolatria; / a Tua força é eterna, de geração em geração os Teus consagrados."
A capacidade do espírito nacional de Israel de "se sacudir e ressuscitar" depende da sua aptidão para receber a luz divina superior como alma da sua vida. E "o tempo fez a sua obra, e a escuridão do exílio também produziu o seu efeito". A dispersão de Israel pelo mundo "inclinou muito para o bem o curso geral do mundo": a abolição do centro nacional interrompeu o erro de pensar a ideia divina como "herança limitada a um território geográfico" — "e os vossos olhos verão, e direis: engrandecido seja o Eterno para além das fronteiras de Israel" (Malachi 1:5).
O exílio foi "a fornalha de ferro" em que a alma geral da nação se purificou. Agora que "Jerusalém recebeu da mão do Eterno o dobro por todos os seus pecados" (Yeshayahu 40:2), a nação começa a sentir a sua pureza e "o seu desejo de voltar ao renascimento". Os seus sentimentos nacionais anseiam por retornar; o desejo de voltar ao seu lugar e à sua terra cresce sem parar — "mas ela ainda não se conhece, não sabe de onde lhe veio o espírito": "no segredo do coração procura o seu amado, anseia pela luz divina".
E então — a imagem culminante — "as duas ideias, a divina e a nacional, batem como ondas rumo à sua reunificação natural no renascimento da nação que volta à sua fortaleza":
Não apenas a luz divina na forma que tomou entre as nações; nem só a ideia religiosa sozinha; nem só a ideia nacional separada — "mas a tudo isso, junto, estamos agora sendo preparados para receber". Na terra do renascimento "as forças se encontrarão, e cada uma achará na outra a cura do defeito da sua alma": da era antiga, "a força e o vigor divinos"; da posterior, "a fundamentação particular e a elaboração detalhada"; e a própria vida "acrescentará ainda novos bens". "Virão com pranto" (Yirmiyahu 31:9) — algum luto sombrio ainda enche o coração dos que voltam —, "mas, assim que uma centelha de redenção começa no espírito", logo "a nova canção cintila", e começa a ouvir-se o eco de:
Quando a ideia se encher dessa influência unificada, "então a luz se revelará sobre todos os caminhos da vida da Torá de Moshé" — e especialmente sobre os preceitos que não têm relação direta com a moral humana geral (os chukim, os mandamentos "ouvidos"): neles brilhará "a luz divina que é, na verdade, universal e desejada por toda alma bela", oculta no propósito interior do caráter nacional de Israel. Cada indivíduo então saberá que "se soma ao todo", e a luz divina voltará a brilhar sobre ele em cada ato seu. E "todos os que abandonaram a luz de D'us — e por ela foram abandonados — porque deixaram o alimento fundamental (a observância prática do judaísmo e o reconhecimento do seu valor mais sublime, o sentido divino que se revela em nós justamente por meio desse sustento concreto) — todos esses voltarão a nós", para restaurar a Israel, no seu renascimento, "o judaísmo prático em toda a sua plenitude e esplendor".
Aquelas grandes ideias, antes guardadas "no segredo mais íntimo de Knesset Israel, onde a mão da destruição não chegou", eram "segredos da Torá", transmitidos só em sussurro aos dignos. Mas agora que "o mundo se perfumou e Knesset Israel começa a sentir a sua retidão e a olhar para o exílio com vergonha e desprezo", a exigência interior pela reunificação das ideias cresceu — e todos esses tesouros ocultos "precisam revelar-se, para reanimar o fundamento do renascimento da nação desde a sua fonte". E daí, conclui, "a sabedoria de Israel e a sua verdadeira literatura podem começar a sair em socorro do nosso povo, para reanimá-lo com o orvalho do seu renascimento". O ensaio fecha com o salmo:
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — Mahalach HaIdeot B'Yisrael ("O Caminho/Processo das Ideias em Israel"), o ensaio de abertura da obra, nas suas seis partes. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Por ser um texto longo e muito denso, os trechos mais abstratos foram condensados com fidelidade, preservando o argumento completo; as citações bíblicas e os poemas do autor foram mantidos no hebraico. As notas e o enquadramento são nossos; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.