Por que tantos opõem o estudo da lei ao da mística, o saber do mundo ao da alma? O Rav Kook diagnostica a raiz dessa guerra — e mostra a ordem que a cura. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
Quando o oculto e o revelado se odeiam
A contradição entre o oculto [nistar] e o revelado [nigleh] vem sempre da incompletude dos dois fundamentos. O revelado, confinado nos seus limites, que não anseia pela sua fonte e raiz, sente uma certa aversão ao oculto, que não quer saber de medida e limite. E a falta de preparo para o oculto — saltar para dentro dele só por uma fraqueza do apetite interior, somada à preguiça e à ociosidade — faz com que a forma do oculto se borre. Pois é só da negação da realidade, da frouxidão da vida e da incapacidade de apreender o mundo vivo — os seus atos, movimentos, feitos e correntes encantadoras, cheios de esplendor e de força — que vem o afundar-se no oculto sem preparo.
O Rav Kook descreve dois desvios opostos. De um lado, o estudioso do revelado que se fecha nos seus limites e passa a desconfiar da mística como algo vago e perigoso. De outro, o que foge para a mística não por força, mas por fraqueza — incapaz de lidar com o mundo real, com a vida concreta —, e por isso mesmo a deturpa. Note-se o diagnóstico: o mau misticismo não vem de excesso de espírito, mas de falta de vida — de quem não consegue "apreender o mundo vivo".
Pão, carne e vinho antes do pomar
Mas nem um nem outro [extremo] é correto: a vida não se funda num só lado da moeda do mundo e da Torá. O grão do oculto está pronto — mas só vem à luz com êxito depois da plena preparação do revelado. "Encher o ventre de pão, carne e vinho" tem de preceder o "passeio no pardes [pomar]"; e esse "encher o ventre", no seu sentido pleno, inclui também o conhecimento do mundo e da vida, a maturidade moral, a força da vontade, o reconhecimento do valor do homem, e todo o bem, o belo e o ordenado da realidade que vem de uma boa educação em todos os seus lados — somando-se a tudo o que desperta para a vida e o frescor, no indivíduo e na nação, na literatura e na vida, no profano, no sagrado e no santo dos santos.
A imagem é da tradição: "entrar no pardes" (o pomar) é metáfora do estudo dos segredos — e os Sábios advertiam que só entra nele quem antes "encheu o ventre de pão e carne", isto é, dominou a Torá revelada (Chaguigá 14b). O Rav Kook alarga o "pão e carne" para abranger toda a preparação humana: não só a lei, mas a ciência, a ética, a força de caráter, a dignidade, a vida concreta. Só sobre esse chão maduro a mística dá fruto; sem ele, vira fuga e ilusão.
A palavra que redime
E a exigência do oculto, que se cumpre quando chega o seu tempo, é uma exigência firme: ela traz a palavra que redime, liberta a grande fala de Israel da prisão do seu mutismo, renova a vida vigorosa, desperta o espírito de força que há na santidade absoluta — a qual é muito mais simples e natural do que qualquer coisa profana e corriqueira, e, ainda assim, permanece na sua altura e na sua glória.
O fecho desfaz um preconceito comum: que a santidade mais alta seria a mais "complicada", distante, sobrenatural. O Rav Kook diz o contrário — a santidade absoluta é "mais simples e mais natural" do que o corriqueiro, e ao mesmo tempo permanece sublime. Quando o oculto chega no seu tempo, sobre o chão preparado do revelado, ele não traz obscuridade, mas clareza: a "palavra que redime", a fala de Israel liberta do seu longo silêncio.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §60. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A imagem do "pardes" e a ordem "pão e carne antes do passeio no pomar" remetem a Chaguigá 14b e a Shir haShirim 4:13/6:11; o verso final é de Yeshayahu 35:6. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.