Orot · As Luzes do Rav Kook

Nascer de Novo: o renascimento que começa do fundo

Diante das muitas falhas da sua geração, o Rav Kook não se desespera — lê-as como sinal de um parto. Estamos a nascer de novo, desde o fundo da escada. A riqueza espiritual do passado é reabsorvida na sua fonte e reemerge em forma nova: menor em quantidade, mas muito mais fresca e capaz de um grande crescimento. E a fé de que não há mais exílio depois desta redenção é, ela mesma, o segredo da sobrevivência.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §26 Tradução inédita · PT-BR

Quem olha para uma geração de transição vê, antes de tudo, o que nela se perdeu. O Rav Kook olha para o mesmo quadro e vê um recomeço. O que segue é uma tradução inédita ao português desta breve seção das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Nascer de novo, desde o fundo

Depois das muitas deficiências que vemos nos caminhos da nossa vida coletiva, na nossa geração em geral e na Terra de Israel em particular, somos forçados a sentir que estamos a nascer de novo: desde o fundo da escada vamos sendo formados mais uma vez, como nos dias antigos.

תִּכָּתֶב זֹאת לְדוֹר אַחֲרוֹן, וְעַם נִבְרָא יְהַלֶּל יָהּ "Escreva-se isto para a geração futura, e um povo que será criado louvará o Senhor." Tehillim (Salmos) 102:19

A escolha das palavras é tudo. O Rav Kook não diz que a geração está "em declínio", mas que está "a nascer". As falhas não são o fim de algo velho — são as dores de algo novo. E o ponto de partida é "o fundo da escada": justamente quando parece que tudo se perdeu, começa a formar-se de novo um povo. O salmo já o previa: "um povo que será criado" — nivrá, no futuro — "louvará o Senhor".

Menos em quantidade, mais em qualidade

Toda a riqueza espiritual do passado vai sendo, aparentemente, reabsorvida na sua fonte, e dela sai com um rosto novo: muito reduzida na sua quantidade, mas muito fresca e capaz de um grande crescimento, cheia de vida vigorosa — na sua qualidade.

Eis uma consolação para toda época de encolhimento. O que parece perda — "tão pouco restou do que havia" — pode ser, na verdade, uma concentração: o tesouro inteiro recolhido à sua semente, para brotar outra vez. A semente é menor que a árvore que a gerou; mas só ela pode gerar a árvore seguinte. Qualidade e frescor valem mais, no recomeço, do que a velha abundância. O pouco que volta vivo vale mais do que o muito que ficou para trás.

A fé que é o segredo da sobrevivência

Somos chamados a um mundo novo, cheio de fulgor supremo; a uma época nova, que há de superar, na sua robustez, todas as épocas de grande valor que a precederam. O povo inteiro crê que não há mais exílio depois da redenção que vai começando diante de nós — e esta sua fé profunda é, ela mesma, o segredo da sua existência: é o segredo de D'us revelado no seu percurso histórico.

סוֹד ד' לִירֵאָיו, וּבְרִיתוֹ לְהוֹדִיעָם "O segredo do Senhor é para os que O temem, e ele lhes dá a conhecer a sua aliança." Tehillim (Salmos) 25:14

E a tradição antiga atesta a luz da alma deste povo — uma alma que se reconhece a si mesma e a todas as ligações dos seus acontecimentos, até à última geração: uma geração que olha para uma salvação próxima.

As falhas não são o fim do velho — são as dores do novo.
Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §26. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações remetem a Tehillim 102:19 ("um povo que será criado") e 25:14 ("o segredo do Senhor"). As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.