Orot · As Luzes do Rav Kook

Os Guardiões da Muralha: os justos que libertam a nação para construir

A tolerância e o chesed que edificam o mundo precisam de grandes justos, em quem se guarda o tesouro espiritual da nação. E porque há quem guarde a muralha do alto, o povo pode entregar-se com toda a energia à construção material — sem temer que a sua fonte espiritual seque. No fundo, ensina o Rav Kook, está a kehuná: o todo aproxima-se de D'us pelo seu melhor.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §4 Tradução inédita · PT-BR

Há um medo antigo no coração religioso: o de que, quanto mais um povo se entrega ao trabalho do mundo — à terra, à economia, à política —, mais a sua alma se ressequirá. O Rav Kook enfrenta esse medo de frente, e a sua resposta é surpreendente: a cura não é trabalhar menos, mas ter quem guarde as alturas. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A tolerância e os grandes justos

A tolerância, tão necessária a uma coletividade humana orgânica — a virtude do chesed [bondade] e da humildade, que adoça todos os rigores [dinim] e edifica o mundo na sua perfeição — precisa, para o seu cultivo, da grande piedade [chassidut], que brota de uma compreensão divina superior e constante.

עוֹלָם חֶסֶד יִבָּנֶה "O mundo é edificado pela bondade." Tehillim (Salmos) 89:3

Justamente porque se acham, no seio da nação, justos supremos — homens muito elevados, em quem a compreensão divina e a vida divina enchem todo o seu ser —, é que a nação está segura da sua força espiritual, guardada nesses indivíduos. E, apoiada nisso, pode ela pôr um olho atento e um coração firme em todas as suas necessidades práticas, sem nenhum tremor interior de que se resseque a seiva e seque a fonte da sua espiritualidade — a fonte que lhe dá a força da sua alma e constitui os seus ideais, os que fazem dela um povo e uma entidade singular.

O medo de secar a fonte

Sobretudo na nossa nação — cuja alma se assenta na espiritualidade superior de um ideal que está muito, muito acima de todo o mundo presente —, acontece que, de cada movimento de liberdade material e de dedicação ao trabalho em assuntos materiais, práticos e sociais, logo entra nela um tremor interno: não vá a azáfama prática diminuir a sua fonte; não vá dar-se que "tudo o que o assentamento [do mundo] acrescenta de construção, o intelecto acrescente de ruína". E, por causa disso, ela faz as suas ações práticas gerais com metade da energia — e eis que a espiritualidade se perturba por causa do enredo material, e a materialidade se enfraquece por causa da mistura espiritual que se intromete nela.

O Rav Kook diagnostica com precisão uma paralisia. Quem teme que o trabalho do mundo seque a alma acaba por fazer as duas coisas pela metade: trabalha sem entrega (com medo) e reza sem foco (com a cabeça no trabalho). Resultado: nem boa construção, nem boa espiritualidade. A "meia energia" é o preço do medo. E a solução não será dividir-se melhor entre as duas, mas libertar-se do medo.

Os guardiões da muralha

Por isso a nação precisa de erguer grandes justos, distinguidos pela grandeza da compreensão, que fortifiquem dentro de si o estado espiritual de toda a coletividade. Eles, esses homens supremos, sabem que o tesouro do espírito da nação está dentro deles; por isso não se afligem em absoluto com a [suposta] diminuição da fonte espiritual do povo por causa da azáfama dos trabalhos práticos. A espiritualidade positiva já se difunde na nação por si mesma, pela sua segulá [qualidade] interior, por meio da irradiação destes indivíduos, que são "emissários da comunidade" e trazem no coração o tesouro da espiritualidade que dá vida a todo o povo.

Eles reconhecem que a sua qualidade superior é o tesouro coletivo de toda a nação, e a nação reconhece neles o lugar honrado dos seus bens mais preciosos — e por isso os honra e os teme com o temor da exaltação. A aliança de D'us na terra revela-se justamente pelos servos supremos de D'us; e a bravura material vai fazendo o seu caminho e a sua ordem, segura de que não profanará a sua fonte sagrada — porque há, com ela, os guardiões da sua muralha do alto. Então a tolerância se desenvolve, e a vida prática floresce. E até as poucas palavras que por vezes saem da boca dos santos dão alimento em muito maior abundância do que uma multidão de sermões e de longos livros medianos. Este é o estado feliz a que o nosso povo deve aspirar, e que deve cuidar de erguer no movimento do seu renascimento sobre a sua terra.

A bravura material avança sem medo — porque há quem guarde a muralha do alto.

A kehuná: o todo se aproxima de D'us pelo seu melhor

A kehuná [o sacerdócio] — a mediação entre o homem e D'us pelos escolhidos mais elevados da humanidade — não é, na verdade, uma mediação [uma barreira], mas uma aproximação digna. Quando a pessoa se aproxima de D'us, ela não se aproxima pelas suas forças inferiores, pelas suas inclinações baixas, mas pela parte superior que há nela; e o lado mais alto nela atrai tudo o mais para o lado da vida clara e divina.

Assim também a organização nacional — e a humana — não é digna nem capaz de aproximar-se de D'us na sua pequenez, com as suas forças pobres, com os seus sentimentos atordoados e dilacerados entre as ondas da vida dos sentidos que a despedaçam. A luz de D'us dos pequenos empequenece, e, pela sua influência de retorno, o mundo inteiro empequenece e se empobrece. Por isso o homem consagra uma parte superior de dentro de si, de dentro das suas coletividades, para a aproximação de todo o seu ser a D'us.

וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי מַמְלֶכֶת כֹּהֲנִים וְגוֹי קָדוֹשׁ "E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa." Shemot (Êxodo) 19:6

Eis a ideia mais original da seção, e ela desarma um velho mal-entendido. O "sacerdote" não é um muro entre o povo e D'us — é o melhor do povo, pelo qual o povo inteiro se aproxima. Tal como o indivíduo se eleva a D'us pela sua faculdade mais alta (a razão, o amor), e não pelos seus impulsos baixos, também a nação se eleva pela sua parte mais nobre. O justo é, por assim dizer, o "órgão superior" do corpo nacional — aquele através do qual o todo respira o ar do alto. Não medeia: conduz.

Nem todos sacerdotes — ainda

O sacerdote piedoso e supremo, cheio de chesed e de conhecimento elevado, conhece a D'us em verdade; e sobre o seu conhecimento e o seu sentimento superior se apoia o povo inteiro, nos tempos em que a corrente plena da vida une o povo aos mais elevados dentre os seus filhos. Apoia-se então na sua força e escuta a sua palavra, com uma fé clara que nele se aclara por uma força geral; e enche-se de vigor para o seu trabalho material, social e político, e, cheio de força e coragem, segue o seu caminho, sabendo com clareza que o D'us fiel está com ele.

A inclinação ao fundamento da kehuná é uma inclinação fixa no ser humano, que brota das profundezas do seu sentir interior. Só por um longo desenvolvimento ela se nos revelará em toda a sua luz; e nós, como é o nosso modo de não temer o caminho longo, vamos pavimentando devagar este caminho que começámos a abrir desde os nossos dias antigos. Não abandonamos a memória da kehuná, não cessamos de esperar a sua perfeição — ainda que muito tenhamos sofrido por causa dela, antes que chegasse à sua plena clarificação; mas sabemos que dela também recebemos o bem, e ainda haveremos de receber.

Tornar a nação inteira sacerdotal, sem gradação — toda ela sábia, consagrada e conhecedora de D'us, cada um nos seus pormenores por seu próprio entendimento — isto é, por ora, impossível, num mundo construído com os traços em que encontramos o nosso mundo. Por isso devemos agora aspirar ao espírito divino geral sobre toda a nação; e este revelar-se-á nos seus membros mais excelentes, assim como os sentimentos mais nobres do homem se revelam pelos órgãos mais elevados do organismo de cada um.

Coragem para o alto — e para a terra

Dai força à compreensão superior, à piedade divina radical e exaltada — e, com isso, dai a mão à tolerância e à humildade, à bravura e ao trabalho prático, social e político, livre, que há de caminhar amplamente em Israel e sobressair belamente em todos os traços da sua vida na Terra de Israel — terra que vai florescendo e aguardando um renascimento prático e uma salvação sentida e próxima.

O fecho recusa toda falsa escolha. Não se trata de optar entre a santidade dos justos e o trabalho do mundo: o Rav Kook pede as duas coisas ao mesmo tempo, e mostra que uma sustenta a outra. Quanto mais firmes os "guardiões da muralha" — a piedade radical dos grandes justos —, mais livre e destemida pode ser a construção material, social e política do povo na sua terra. As alturas guardadas é que permitem descer ao chão sem medo.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §4. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; buscou-se preservar a densidade do original, organizando o texto para a leitura. As citações remetem a Tehillim 89:3 ("o mundo se edifica pela bondade") e a Shemot 19:6 ("um reino de sacerdotes"); "emissários da comunidade" (shluchei tzibbur) é expressão do Talmud. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.